Uma em cada quatro pessoas com mais de 60 anos trabalha, mas etarismo ainda limita oportunidades
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

O número de brasileiros que continuam trabalhando depois dos 60 anos atingiu o maior patamar da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, cerca de 8,3 milhões de pessoas nessa faixa etária estavam ocupadas no país, o equivalente a aproximadamente uma em cada quatro pessoas com 60 anos ou mais.
A mudança acompanha o envelhecimento da população e já começa a alterar a composição da força de trabalho brasileira. Em uma década, a presença de pessoas com 60 anos ou mais no mercado aumentou 53%, segundo levantamento da Nexus baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).
O crescimento, porém, convive com uma contradição. Enquanto experiência, confiabilidade e conhecimento acumulado são valorizados dentro das empresas, a idade ainda pode representar uma barreira para contratação, promoção e permanência em determinados cargos.
Pesquisa realizada pela INTOO, unidade de gestão de carreira da Gi Group Holding, em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, mostra que 70% dos entrevistados concordam que trabalhadores mais velhos recebem menos oportunidades de promoção e são frequentemente pressionados a se aposentar quando chegam a cargos de gerência, abrindo espaço para profissionais mais jovens.
O levantamento ouviu 269 profissionais em posições de gestão e também identificou estereótipos relacionados à idade.
Experiência valorizada, mas estereótipos persistem
A percepção dos gestores sobre trabalhadores mais velhos reúne características positivas e negativas. Entre os entrevistados, 80,7% associaram esses profissionais à cordialidade, 77,3% à confiabilidade e 75,8% à generosidade.

Por outro lado, 44% relacionaram profissionais mais velhos à resistência a mudanças e 24% disseram acreditar que eles não seriam capazes de apresentar ideias inovadoras.
Para Juliana Bertoni, coordenadora de RH da Gi Group Holding, essas associações podem levar empresas a tomar decisões baseadas na idade, em vez de considerar as capacidades individuais de cada profissional.
“O profissional mais experiente, muitas vezes, é associado à dificuldade de adaptação e ao apego a formas tradicionais de trabalhar, enquanto características como inovação e flexibilidade são automaticamente atribuídas aos mais jovens. Essa visão simplifica demais a capacidade de cada pessoa e pode fazer com que as empresas tomem decisões baseadas em estereótipos, e não em competências”, afirma.
O cenário evidencia uma das faces do etarismo no ambiente profissional. Embora a legislação brasileira proíba discriminação por idade no acesso e na manutenção do emprego, esse tipo de preconceito nem sempre aparece de maneira explícita.
Ele pode estar presente, por exemplo, em processos seletivos que buscam um “perfil jovem”, na associação automática entre idade e dificuldade para lidar com tecnologia ou na exclusão de trabalhadores mais experientes de projetos de inovação e programas de qualificação.
Informalidade também é maior entre trabalhadores 60+
A permanência de mais brasileiros no mercado depois dos 60 anos não significa necessariamente melhores condições de trabalho.
Em 2024, 55,7% dos trabalhadores com 60 anos ou mais estavam em ocupações informais, conforme dados do IBGE. Entre toda a população ocupada com 14 anos ou mais, a taxa era de 40,6%.
A diferença mostra que o desafio não está apenas em ampliar a participação de profissionais mais velhos no mercado, mas também nas condições em que essas pessoas conseguem permanecer trabalhando.
Para as empresas, o envelhecimento da força de trabalho impõe a necessidade de rever modelos de carreira tradicionalmente associados à idade e ampliar critérios relacionados a competências, desempenho e capacidade de desenvolvimento.
“Estamos diante de uma transformação estrutural. As pessoas estão vivendo e trabalhando por mais tempo, e as empresas precisarão se adaptar a essa realidade. Isso significa repensar as possibilidades de desenvolvimento, mobilidade e permanência desses profissionais. Não faz sentido falar em escassez de talentos e, ao mesmo tempo, criar barreiras para profissionais experientes”, destaca Bertoni.
Etarismo também pode atingir os mais jovens
Apesar de frequentemente associado aos profissionais mais velhos, o preconceito relacionado à idade também pode atingir trabalhadores no início da carreira.
A pesquisa da INTOO e do Mackenzie chama atenção para estereótipos direcionados às diferentes gerações. Enquanto profissionais mais velhos podem ser considerados resistentes a mudanças ou pouco adaptáveis, os mais jovens podem ser associados à imaturidade, inexperiência e falta de estabilidade.
Na avaliação de Bertoni, a presença de diferentes gerações deve ser aproveitada pelas empresas como uma oportunidade de troca de experiências.
“O ganho está justamente na troca entre essas experiências, e não na escolha de uma geração em detrimento da outra”, afirma.
Profissionais mais experientes podem contribuir com conhecimento acumulado e vivências adquiridas ao longo da carreira, enquanto trabalhadores mais jovens acrescentam outras perspectivas e formas de desenvolver as atividades.
Empresas terão de lidar com carreiras mais longas
Com o envelhecimento da população, a tendência é que a convivência entre diferentes gerações se torne ainda mais comum no ambiente profissional.
Entre as medidas apontadas para reduzir barreiras relacionadas à idade estão processos seletivos baseados em competências, acesso de diferentes faixas etárias a programas de qualificação e requalificação profissional e iniciativas de mentoria que promovam a troca de conhecimento entre gerações.
O desafio deixa, portanto, de estar restrito às políticas de diversidade. Com mais brasileiros permanecendo profissionalmente ativos depois dos 60 anos, a adaptação das empresas às carreiras mais longas passa a fazer parte das próprias transformações do mercado de trabalho.
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Fonte: Jornal Opção