Uma campanha não cabe em um mês
Por Redação — Jornal Opção

Por Coronel Cláudia Silva Lira – vice-prefeita de Goiânia
O calendário é marcado por cores que, ao longo do ano, chamam nossa atenção para causas que não podem ser ignoradas. Janeiro Branco, Fevereiro Roxo e Laranja, Março Azul-Marinho, Abril Azul, Maio Amarelo, Junho Vermelho, Julho Amarelo, Agosto Lilás, Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul e Dezembro Vermelho são alguns dos movimentos que transformam determinados períodos em grandes momentos de informação, conscientização e mobilização.
Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: o que acontece quando o mês termina? As campanhas não podem terminar junto com a última página do calendário. Afinal, a saúde mental continua precisando de atenção depois de setembro. A violência contra a mulher não deixa de existir depois de agosto. A prevenção ao câncer não pode esperar outubro ou novembro. A segurança no trânsito não se limita a maio.
Os meses temáticos cumprem uma função fundamental porque intensificam o debate. Eles dão visibilidade a problemas que, muitas vezes, permanecem escondidos pela rotina, pelo silêncio ou pela falta de informação. Criam oportunidades para conversar, orientar, mobilizar instituições e aproximar a população de serviços e redes de apoio. Mas campanha, por si só, não resolve tudo.
Podemos pensar que campanhas são importantes para quem já enfrenta um problema e precisa encontrar informação, acolhimento e ajuda. Elas funcionam como um remédio necessário. Mas uma sociedade verdadeiramente comprometida com o futuro também precisa produzir vacinas: prevenir antes que a dor aconteça, educar antes que a violência se repita, conscientizar antes que o problema se agrave.
E é justamente aí que está o maior poder dessas campanhas: a capacidade de criar cultura. Uma mudança cultural não acontece de um dia para o outro, nem nasce de uma palestra, de uma caminhada ou de uma publicação nas redes sociais. Ela é construída pela repetição das conversas, pela circulação da informação e pela participação de cada cidadão. Aos poucos, aquilo que parecia distante passa a fazer parte das nossas preocupações e das nossas atitudes.
Foi isso que vimos, por exemplo, durante o Agosto Lilás. Em Goiânia, a intensificação das ações de conscientização e fortalecimento da Rede de Proteção à Mulher alcançou cerca de 2.500 mulheres com orientações, além de realizar encaminhamentos para serviços especializados. São ações importantes, mas o maior desafio continua sendo fazer com que a mensagem ultrapasse agosto.
Precisamos ensinar todos os dias que controle não é cuidado, ciúme não é prova de amor, humilhação não é brincadeira e violência psicológica também é violência. Precisamos conversar com mulheres, mas também com homens. Precisamos envolver famílias, escolas, empresas, condomínios e comunidades.
Nenhuma política pública consegue estar dentro de todas as casas. Por isso, a responsabilidade também é coletiva. O vizinho precisa estar atento. O familiar não pode normalizar. O amigo não deve silenciar. A sociedade precisa aprender a reconhecer sinais e agir.
O mesmo vale para todas as grandes causas que ocupam nosso calendário. Setembro nos convida a falar sobre saúde mental e valorização da vida. Outubro reforçará a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. Novembro voltará os olhos para a saúde do homem. Cada campanha tem sua pauta, sua cor e sua urgência.
Mas todas compartilham um objetivo maior: transformar informação em consciência e consciência em atitude. É por isso que não devemos enxergar esses meses como simples campanhas sazonais. Eles são pontos de partida. São momentos em que a sociedade aumenta o volume de uma conversa que precisa continuar sendo ouvida durante os outros meses do ano.
A mudança que desejamos não cabe em 30 dias. Uma campanha pode ter uma cor e um mês. A responsabilidade de construir uma sociedade mais consciente, humana e preparada para prevenir seus próprios problemas precisa ocupar o calendário inteiro.
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Fonte: Jornal Opção