Um olhar do cinema sobre as eleições
Por Felipe Guarnieri — Esquerda Diário

Thomas: -Eu vi alguém ser morto hoje… em um parque.
Ron: -Quem?
Thomas: -Não sei. Alguém.
Ron: -E como aconteceu?
Thomas: -Eu não sei. Eu fotografei, mas não sei como aconteceu.
(Blow-up/1966)
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Não tem como ficar em silêncio diante do mal-estar instalado no final de semana. Medo, conformismo, raiva… Uma mistura de sentimentos que explode e anseia por explicação. Situações complexas exigem reflexões profundas; afinal, a lei da dialética é implacável: o que não avança, retrocede. Extrair uma conclusão simples pode ser tentador, mas não nos garante imunidade aos erros cometidos no passado, e a sua repetição impõe o risco de agravá-los. Saber enfrentar o problema de uma perspectiva histórica é fundamental. Digo isso porque pode ser que o cinema nos ajude nessa empreitada. Talvez resida neste aspecto o fato dele ser uma expressão artística que, nos últimos anos, se transformou num dos principais alvos da extrema-direita.
A busca por respiro nos últimos quatro anos mal passou da superfície, e a sensação de afogamento novamente retrai os pulmões. Mas, como estamos falando de cinema, é preciso ver o filme, não somente a fotografia.
Durante o governo de Bolsonaro-Pai, as produções paralisaram, os editais sumiram, todo um ministério foi extinto e vivemos sob a ameaça constante da imposição de filtros ideológicos. Artistas, talentos e trabalhadores ficaram sem rumo. Quis a ironia do destino que a campanha de Bolsonaro-Filho tenha se iniciado com o escândalo “Dark Horse”, quase como uma provocação. Um enlatado com a pretensão de transformar o ódio em legado, produzido pelas garras da indústria imperialista e lambuzado com a grana da corrupção de Vorcaro.
A busca por respiro nos últimos quatro anos mal passou da superfície, e a sensação de afogamento novamente retrai os pulmões. Mas, como estamos falando de cinema, é preciso ver o filme, não somente a fotografia.
Em “Blow-Up”, do diretor Michelangelo Antonioni, o protagonista Thomas, um fotógrafo de moda, ao captar imagens de um casal no parque e, posteriormente, analisá-las, acredita ter registrado um homicídio. Em seu estúdio, ele distribui em sequência as fotos tiradas e as amplia de tal forma, para comprovar o crime, que acabam perdendo a nitidez. Quanto mais ele fica obcecado, esticando e isolando o instante, mais a verdade escorre pelos seus dedos.
Eis a alegoria: Thomas possui o registro do negativo, porém foi privado do processo. Ele não sabe o antes, o durante e o depois, muito menos as motivações, o que o deixa incapaz de compreender a realidade. Segundo o filósofo Walter Benjamin, a fotografia separa um instante congelado do tempo. De certa forma, ela preserva ainda um resquício da aura (a unicidade e o valor de culto da obra de arte tradicional); em outras palavras, funciona como uma memória estática de contemplação do passado. Por sua vez, o cinema introduz o movimento contínuo e a montagem, intermediado pelo aparelho técnico, fragmenta o tempo e o espaço de uma forma que a fotografia não consegue realizar. Isso permite que ele reproduza a vida moderna e gere um choque perceptivo, potencializando uma recepção crítica e coletiva.
Tudo isso para dizer que, se olharmos para a política assim como Thomas investiga as suas fotos, não saberemos dizer qual processo levou à situação em que nos encontramos. Somos capazes de identificar as diferenças de cada frame, mas não solucionamos a investigação. Muitos enxergam em Lula uma fotografia e, nela, portanto, uma expressão apaixonada do culto da saudade. Entretanto, seria dele que sentimos falta ou das condições que propiciaram a sua ascensão? E, indo além: nas últimas quatro décadas, seria do interesse dele e do PT que tais condições voltassem a emergir no país?
Faço essas perguntas pois, a cada dois anos de eleição (municipal e federal), a fotografia nos apresenta um mal menor cada vez mais borrado. Se antes não era de bom tom Lula sair nessa foto com Brizola e Fernando Henrique Cardoso — o que o obrigou a ter que aceitar a formação de um partido dos trabalhadores —, atualmente ele não tem o mínimo de pudor em posar com Alckmin, Alexandre de Moraes, Raquel Lyra, Marina Silva e Simone Tebet, e, por que não, em determinados momentos do seu governo, com o próprio Tarcísio. Afinal, o PR não integrou seus ministérios?
O custo da revelação dessa bobina pagamos com o arcabouço fiscal, com a manutenção da reforma trabalhista e da previdência, com as privatizações, com o Plano Safra recorde, somado à angústia de não termos nenhum avanço significativo dos nossos direitos. O fim da escala 6×1 não anda porque a burocracia sindical parece viver no sono eterno de “Vanilla Sky”. A vida está financeirizada, como em “A Grande Aposta”. E o trabalho, cada vez mais precário, cansa como no filme de Juliana Rojas. Os feminicídios e crimes de ódio atingem patamares históricos, assim como as mortes pela polícia — sim, alimentadas pelo racismo bolsonarista, mas administradas por governos petistas, como o da Bahia.
Não se discute, aqui nestas linhas, o fato pragmático de Lula ser um mal menor na fotografia, sobretudo, quando comparado a uma escravista do Sec. XXI que vibra com um chicote na mão. Não é preciso ampliar as imagens para perceber isso. Trata-se de mudar o roteiro do filme para que ele não termine com a tragédia anunciada do começo.
O primeiro diagnóstico das eleições deste ano é terrível, pois os remédios para o tratamento da doença não foram eficazes. Não se combate os golpistas de hoje com os de ontem, da mesma maneira que não se luta contra um câncer com um antigripal. O fracasso desse empreendimento petista deve recolocar a necessidade de um debate estratégico no centro do pensamento da esquerda — não um que justifique a derrota, mas que organize imediatamente o verdadeiro combate! Digno de um grande filme!
Fonte: Esquerda Diário