Tributo a John Lennon
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
1.
A fotografia do álbum Abbey Road, dos Beatles, é tirada em uma avenida com o nome da gravadora na qual o famoso quarteto produzia suas joias artísticas, num distrito da Grande Londres. Na icônica capa do disco, em fila indiana, vê-se John Lennon, Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison atravessando a pista sobre uma faixa de segurança para os pedestres. A simbólica imagem da travessia, que trilha o percurso da esquerda para a direita da via pública, transmite a melancolia difusa que assombra o desejo frustrado da manhã.
Abbey Road chega ao público um ano e meio após o Maio de 1968. Vem à luz no período de enlutamento dos acenos revolucionários de um movimento iniciado na Universidade Paris-Nanterre, aproveitando a brecha do sistema. A diferença é que, então, as mega mobilizações haviam arrefecido.
Trata-se da última gravação dos “Fab Four” originários de Liverpool. Ano seguinte, quando o conjunto havia se desintegrado, é lançado Let It Be (1970) que na capa traz os rostos compartidos. O “grupo em fusão” do dinâmico “campo de forças em interação”, para evocar a Crítica da razão dialética (1960), de Jean-Paul Sartre, era página virada. Restava a mensageiros de novidades as rondas noturnas em bares de poetas e de marginais, em esquinas malditas.
A música de despedida é um réquiem de lamento ao tempo de luzes se apagando. Come Together, de John Lennon, creditada à dupla Lennon / McCartney, anuncia o retorno da ordem do egoísmo na pele do individualismo de novo tipo: “Here come old flat top… / He say I know you, you know me / One thing I can tell you is / You got to be free / Come together, right now / Over me”. (“Lá vem o velho mais chato… / Ele diz: ‘eu conheço você, você me conhece’ / Uma coisa que eu posso dizer pra você / É que você tem que ser livre / Junto a mim)”.
Velho é o tempo que, como uma praga, aprisiona a utopia na teia conservadora do passado. A tradição de mando e obediência tutela a realidade. Em consequência, a conceituação da liberdade se dissocia do futuro. A emancipação esmorece, e a festa termina no amargo retrocesso ao status quo.
A frase “O sonho acabou”, de John Lennon, alude a cortina que cai sobre o palco da contracultura, do combate à invasão no Vietnã e do engajamento em causas sociais. Mas Give peace a chance (1969) e Power to the people (1970) reanimam a resiliência. Os ideais de mudança permanecem ativos no subterrâneo. A canção Imagine (1971) mantém acesa uma chama no coração da humanidade. A rebeldia não desiste de sonhar, performar, levantar e lutar.
2.
Les enfants terribles nas barricadas de Paris escrevem nos muros as “palavras de desordem” avessas à rotina e ao desencanto. “Proibido proibir”, para denunciar a repressão policial. “Deus está morto, Marx está morto e eu não ando me sentindo bem”, para pregar a vontade de mudança. “Sejam realistas, peçam o impossível”, para rejeitar qualquer reforma paliativa. “A imaginação ao poder”, para superar as tecnocracias governamentais. “Façam amor, não façam a guerra”, para erguer o estandarte da paz. A radicalidade paira no ar pesado.
O espírito de transformação frequenta o maio estudantil e o maio operário, com a greve geral que paralisa dez milhões de trabalhadores na França. Direções sindicais cedem aos conselhos de fábricas. Cartazes de Che Guevara vão às passeatas. A “Primavera de Praga”, na Checoslováquia, se levanta contra a burocracia soviética – as larvas vulcânicas transcendem o conformismo. As ações políticas assumem o perfil internacional, antiimperialista e antiburocrático.
Para resguardar o equilíbrio geopolítico fixado na Conferência de Yalta, o Partido Comunista Francês não apoia uma reatualização da era das revoluções, e tacha o ensejo de “pequeno burguês e divisionista”. O acordo entre sindicatos, empresas e o governo do primeiro-ministro Georges Pompidou fecha o ciclo que dissolveu a Assembleia Nacional e antecipou as eleições. O jornal L’Humanité (PCF) saúda “o regresso vitorioso e a unidade do trabalho”. Pois é.
Na crise sistêmica, em São Francisco, nos Estados Unidos, surgem comunidades hippies que pregam o pacifismo, o amor livre e o respeito à natureza. Espalha-se a ideia da sociedade alternativa no interior do capitalismo. Ouve-se alto o bom som do eco dos socialistas utópicos no século 19 (Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen) por uma sociedade mais justa e igualitária, com as táticas da não-violência para remodelar in totum a paisagem urbana e rural.
O Festival de Woodstock, em agosto de 1969, em uma fazenda a sessenta quilômetros da cidade homônima, é o local seguro para subverter a moral e os costumes com melodias de Bob Marley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Santana, The Who, etc. Anjos insurretos iluminam a civilização do espetáculo. Uma coexistência na diversidade anuncia possibilidades na contramão do colonialismo. Sob o céu que abre o largo sorriso empodera-se a teimosia dos novos sujeitos.
Se Ataulfo Alves, falecido meses antes, lá estivesse com seu bandolim cantaria: “Eu igual a toda meninada / Quanta travessura que eu fazia / Jogo de botão sobre as calçadas / Eu era feliz e não sabia / Eu era feliz e não sabia”. Sem os grilhões da alienação desfaz-se o reino da mercadoria. O que conta dinheiro inventa o prazer de juntar direitos humanos, fazer justiça ambiental e celebrar a camaradagem com o xamã que auxilia o povo a enxergar no escuro.
3.
A burguesia conclui que o antídoto aos protestos das jovens gerações, alijadas do circuito produtivo, passa pela integração à gramática do consumo com produtos baratos e de baixa qualidade para evitar as rebeliões. O fator econômico interpreta os acontecimentos com o prisma do comércio, propondo-se treinar consciências e hábitos para lubrificar os mecanismos da reificação e da dominação de classe. O próprio mercado se dispõe desarmar as bombas.
Os alfaiates perdem espaço quando as roupas prontas para vestir (prêt-à-porter) democratizam a moda. A coisa consolida-se com o lançamento da coleção Pierre Cardin na loja Printemps, no Boulevard Haussmann. O estilista Yves Saint Laurent incorpora-se ao desafio de alimentar os magazines populares. Trata-se de trocar a condição de cidadão pela de um consumidor passivo.
Embora o slogan da sociedade de consumo se dissemine, os sociólogos ligados à Teologia da Libertação consideram que o problema maior na América Latina não é o consumismo – é a desigualdade social. Se a febre consumista é um pecado ao Norte, no hemisfério Sul prevalecem os carecimentos. Há demandas insatisfeitas de necessidades básicas. Motivo para contestações.
À esquerda, a herança contra toda forma de discriminação e opressão apresenta-se condensada na música-militante Woman is the nigger of the world (1972), de John Lennon. As rádios boicotam a composição. Os vocábulos “nigger / negro”ou“nigga / negra”, em inglês, insultam os afrodescendentes. Nas plantations serviam para classificar os escravizados como sub-humanos.
Os homens brancos não estão autorizados a reutilizar a expressão. “Woman is the nigger of the world / Yes she is… think about it / Woman is the nigger of the world / Think about it… do something about it / Woman is the slave of the slaves”. “A mulher é o negro escravo do mundo / Sim ela é… pense nisso / A mulher é o negro escravo do mundo / A mulher é a escrava dos escravos”.
“We make her paint her face and dance / If she won’t be a slave, we say that she don’t love us / We make her bear and rais our children / And then we leave her flat for bein a fat old mother hen”. “Fazemos ela se maquiar e dançar / Se ela não quiser ser escrava, dizemos que ela não nos ama / Fazemos ela ter e criar nossos filhos / E depois a abandonamos por ser uma velha mãe gorda”. Ao ver da National Organization for Women é um manifesto feminista.
A esperança de John Lennon (09/10/1940 a 08/12/1980) revive em atos pelas ruas e nas redes sociais; as faixas de segurança para o Brasil atravessar as intempéries. Se o brasileiro é antes de tudo um forte, já viste que uma filha tua não foge à luta. Chegou a hora para vencer, de vez, a serpente do mal.
Luiz Marques é docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura / RS.
Fonte: Fundação Perseu Abramo