Três semanas para salvar o Brasil
Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva — Brasil 247
Por Bruno Fabricio Alcebino da Silva* e Julia Protes Lamberti**
O cenário do pleito do último domingo foi catastrófico: as abstenções, brancos e nulos no primeiro turno das eleições presidenciais somaram mais de 39,4 milhões – quase 25% dos eleitores aptos a votar. A taxa de abstenção, segundo dados do TSE, somou 21,08%, seu maior índice desde 1998 e, após os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, em que Lula encerrou em segundo lugar, com uma diferença de mais de 2 milhões de votos, o grande questionamento para as próximas três semanas é: como reverter esses votos à esquerda?
A resposta não passa por imaginar que esses quase 40 milhões de eleitores formam um bloco homogêneo à espera de uma candidatura. Há quem tenha deixado de votar por desinteresse, dificuldades práticas, descrença na política ou insatisfação com os candidatos. Há também quem tenha votado branco ou nulo como rejeição deliberada. O desafio, portanto, não é simplesmente transferir votos, mas reconstruir razões para que milhões de brasileiros voltem às urnas e entendam o segundo turno como uma escolha concreta sobre o futuro do país.
Lula chega a essa etapa com uma história que fala por si. Operário, líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores e presidente por três mandatos, construiu uma trajetória inseparável da redução da pobreza, da expansão das políticas sociais, da valorização do salário mínimo e da geração de empregos. Foi sob seus governos que milhões de brasileiros saíram da miséria, chegaram à universidade e passaram a ter comida na mesa. No atual mandato, o Brasil deixou o Mapa da Fome da ONU, o desemprego recuou a 5,4% no trimestre encerrado em junho, o menor patamar da série histórica do IBGE, e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil devolveu renda a milhões de trabalhadores. Ainda há muito a avançar em áreas como renda, segurança, saúde e educação, e o custo de vida segue pesando no bolso das famílias, mas são desafios de quem tem um projeto de país em construção, e não de quem quer desmontá-lo. Por isso a população reconhece em Lula alguém que governa pensando em quem sempre ficou de fora. Entre um presidente comprometido com o povo e com a democracia e um projeto que ameaça as bases da própria democracia, a escolha não é difícil.
Do outro lado está Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro e candidato da continuidade do bolsonarismo. Não se trata de uma mudança de nome na Presidência: Flávio se apresenta como herdeiro direto de um projeto político que levou o país ao isolamento internacional, ao negacionismo e ao ataque sistemático às instituições. Chega ao segundo turno sem nenhuma distância crítica desse legado, carregando-o por inteiro, com todas as controvérsias que o cercam.
Há ainda uma dimensão gravíssima: a relação do bolsonarismo com setores do governo Donald Trump. Ao longo de 2026, a disputa brasileira foi atravessada por medidas de Washington que atingiram diretamente o país, incluindo tarifas e sanções, enquanto Flávio manteve contatos com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio. Senadores democratas dos Estados Unidos chegaram a acusar o governo Trump de promover uma campanha de interferência e desestabilização no Brasil, citando justamente tarifas e sanções adotadas durante o processo contra Jair Bolsonaro. Segundo reportagem da Folha, interlocutores ligados ao projeto de Flávio discutem até uma reforma do Itamaraty inspirada no modelo de Rubio no Departamento de Estado, concentrando a política externa em objetivos comerciais e na subordinação estratégica a Washington. Defender boas relações com os Estados Unidos é legítimo. Inaceitável é um candidato à Presidência se aproximar de quem pressiona o próprio país com tarifas e sanções. Quando a política externa passa a ser pensada como moeda de troca de um projeto de poder, o que está em jogo é a soberania nacional.
Jair Bolsonaro foi condenado e preso pelo Supremo Tribunal Federal por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Flávio, por sua vez, é alvo de investigação da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, produção sobre seu pai, com suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Investigação não é condenação, e a Justiça deve seguir seu curso. Mas é difícil aceitar que o eleitor trate com naturalidade um candidato à Presidência que chega ao segundo turno sob essa sombra, sem explicações convincentes. Com seu envolvimento com o escândalo de corrupção do Banco Master, em que sua relação de ‘irmandade’ com Daniel Vorcaro foi exposta através de mensagens obtidas pelo telefone de Vorcaro pela Polícia Federal solicitando aporte de US$ 24 milhões para financiamento do filme, a candidatura de Flávio escancara como a falsa narrativa da direita de posicionar-se contra a corrupção é, em verdade, uma estratégia para controle e monopólio das forças investigativas de suas atividades ilícitas.
O projeto que Flávio apresenta é igualmente preocupante. Propõe reduzir a estrutura do Estado, cortar despesas, promover uma reforma administrativa, alterar o regime fiscal e endurecer a política penal como resposta quase exclusiva à violência, num modelo a la Bukele, de El Salvador, baseado no encarceramento em massa. Em sua trajetória constam declarações favoráveis a personagens ligados à ditadura militar e questionamentos ao sistema eletrônico de votação, que é referência mundial de rapidez e segurança. Esse é o programa de quem enxerga o Estado como obstáculo e não como instrumento de proteção social, e a democracia como inconveniência.
É aqui que a escolha deixa de ser apenas entre dois nomes. O que está em jogo é a direção do Brasil nos próximos quatro anos. De um lado, o aprofundamento da inclusão social, a reconstrução industrial, o investimento público, o fortalecimento do Estado e uma política externa soberana, que reposicione o Brasil no mundo. De outro, o confronto permanente com as instituições, a lógica do endurecimento penal, o desmonte do Estado e a permanência do bolsonarismo como força dirigente da política nacional.
Para quem defende a democracia, o desafio não é convencer quase 40 milhões de eleitores de que Lula é perfeito. Ele não é, e ninguém precisa fingir que seja. O desafio é mostrar que uma eleição não se decide entre candidatos perfeitos, mas entre projetos concretos. Diante das alternativas apresentadas, o voto em Lula é o voto na redução das desigualdades, nos direitos sociais, na democracia e na soberania nacional. O voto em Flávio é o voto na volta de um projeto que já mostrou a que veio: o da negligência diante de mais de 700 mil mortes na pandemia, o da corrosão sistemática das instituições, o da tentativa de golpe que levou seu próprio pai à condenação. É o voto em um candidato que, em vez de se afastar desse legado, o assume como herança e ainda o oferece a Washington como moeda de troca.
A esquerda também precisa entender que não basta falar para quem já está convencido. As próximas três semanas exigem conversar com quem se afastou, com quem está decepcionado e até com quem rejeita Lula. É preciso falar de salário, emprego, comida na mesa, saúde, educação, segurança e futuro. Menos disputa interna, mais capacidade de apresentar uma perspectiva de país. É hora de voltar-se aos votos nulos, brancos e abstenções e convencê-los de que, apesar de suas opiniões sobre Lula, somente um dos lados defenderá seu direito à democracia, ao voto, a viver de novo esse mesmo debate em 2030, quando Lula já não será mais o nome da esquerda.
O primeiro turno mostrou que nenhum voto está garantido. O segundo turno é a oportunidade de transformar essa lição em mobilização, e os votos que não vieram precisam ser conquistados, com trabalho de base, diálogo e presença nas ruas.
Nas próximas três semanas, a tarefa é simples de formular e difícil de realizar: transformar rejeição em participação, desânimo em esperança e a memória dos últimos anos em uma escolha consciente. Diante de um projeto que ameaça a democracia, a soberania e os direitos conquistados, o caminho é um só: apoio total a Lula. Pela democracia, pelo povo e pelo Brasil, é Lula no segundo turno.
*Bruno Fabricio Alcebino da Silva é mestrando em Economia Política Mundial, bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Ciências Econômicas e Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC. Pesquisador do Laboratório de Política Externa (Lab.Pex), vinculado ao Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).
**Julia Protes Lamberti é bacharel em Ciências e Humanidades e Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC.
Fonte: Brasil 247