Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Em ‘Um Homem Bom’, Waldomiro J. Silva Filho dá voz a um professor que carrega a culpa de ter saído vivo da ditadura

Com uma elegância ímpar, o narrador em primeira pessoa de Um Homem Bom, de Waldomiro J. Silva Filho, conta sua história como se escrevesse a lápis em um impecável caderno.

O protagonista é um professor universitário que convive com a culpa de ser um sobrevivente. Ao contrário de diversos de seus contemporâneos, ele saiu vivo após inúmeras sessões de tortura durante a ditadura no Brasil. Ter sobrevivido é, porém, um tormento que conduz a um estado depressivo de reflexão sobre sua condição humana.

“Todo sobrevivente deixa para trás mais do que poderá ter pela frente, fica menor do que antes, encolhe, fica incompleto – ainda que cante heroísmos, ninguém sabe por que ele vaga solitário pela casa às madrugadas quando ninguém vê”, diz o narrador.

Ele continua: “Há casos de pessoas que saem de uma desgraça sem um dedo, sem uma perna, sem um olho e há casos como o meu, aqueles que se perdem, o corpo anda em uma direção e o espírito, em outra, se desencontram pontualmente quase todos os dias”.

“Todo sobrevivente deixa para trás mais do que poderá ter pela frente, fica menor do que antes, encolhe, fica incompleto – ainda que cante heroísmos, ninguém sabe por que ele vaga solitário (…)”

Fragmentado, convive com o trauma enquanto desenvolve suas ideias sobre Jean Améry, ensaísta austríaco que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, mas que acabou se suicidando.

“Naquele mesmo ano comecei a me dedicar quase em tempo integral aos testemunhos dos sobreviventes do Holocausto, aos testemunhos do indizível”, diz o narrador.

Ao longo de todo o livro, o protagonista batalha para conseguir terminar de ler É Isto Um Homem?, de Primo Levi, “com quem Améry deve ter compartilhado um pavilhão em Auschwitz”. Também entra no seu radar – teórico e pessoal – o escritor alemão W. G. Sebald.

Sebald funciona como um interlocutor que deixa suas marcas não apenas na influência que sua obra exerce sobre o narrador, mas também no livro que o leitor tem em mãos. As fotografias em preto e branco, uma marca de Sebald, também surgem em Um Homem Bom.

São fotos feitas pelo narrador em sua cidade natal, Camacã, na Bahia. As fotografias surgem como um recurso de evocação do real, mas também confundem. O que se lê é uma história real ou é ficção? O narrador é o autor? Esse recurso de dúvida, de uma prosa que não se limita à ficção, flertando com o ensaio, é igualmente uma característica de Sebald.

Um Homem Bom
Waldomiro J. Silva Filho. Companhia das Letras
(160 págs., 74,90 reais)

É quase como se o narrador fosse um doppelgänger sul-americano de Sebald, espelhando suas aflições, mas também sua produção intelectual. O termo em alemão é comumente usado para indicar o duplo na literatura. Idioma, aliás, que o narrador estuda.

O tempo presente da narração é 2001, o espaço é Salvador. O personagem deixou Camacã, cidadezinha a mais de 500 quilômetros da capital baiana, ainda na adolescência para estudar.

Embora não seja uma prosa solar, como não seria descabido esperar de uma história que se passa em Salvador, a narrativa fica mais sufocante quando se passa em São Paulo, em 1995. “Aqui não posso tirar a camisa e ir caminhar na praia, me banhar de luz, me apoiar no alambrado e ver o dia acabar e aplaudir o pôr do sol. Então o meu texto fica assim, monótono, lamuriento, rodopiando”, diz.

Um Homem Bom tem uma melancolia muito latino-americana, que se manifesta sobretudo no cancioneiro evocado no livro, no qual se destaca Belchior. É uma melancolia transnacional, de países unidos pelo sofrimento dos torturados nas ditaduras. Talvez seja esse o elo do protagonista com as literaturas de testemunho dos sobreviventes dos campos de concentração. Quiçá a pergunta que o livro proponha não seja como a de Levi, que questiona “é isto um homem?” Mas seja: “O que é um homem bom?” •

Por Ana Paula Sousa


O Peso da Neblina, a Leveza do Rochedo (Edições GLS, 160 págs., 58,90 reais) é a estreia do jornalista Franthiesco Ballerini no romance. O protagonista, Daniel, cujo nome significa, em hebraico, “Deus é meu juiz”, cresce sufocado pela culpa religiosa e pelas exigências de uma masculinidade na qual não se reconhece.


Em Árvore Velha (Todavia, 112 ­págs., 74,90 reais), a jornalista ­pernambucana Marta Barbosa ­Stephens transforma a história de um amor proibido, que lhe foi relatada por Felicity, de 97 anos, residente de um asilo inglês, em uma reflexão sobre o corpo, a memória e a passagem do tempo.


Organizado por Jorge Schwartz, ­Borges Babilônico – Uma Enciclopédia (Companhia das Letras, 560 págs., 257,90 reais) volta em edição revista e ampliada. São mais de mil verbetes, assinados por especialistas como ­Beatriz Sarlo e Ricardo Piglia, que ajudam a decifrar nomes, temas e citações da obra de Jorge Luis Borges.

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Testemunha do indizível’


Paula Sperb

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Fonte: Carta Capital

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