Terras raras: o Brasil não pode vender o minério e importar o futuro

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Por Giovanna Campos — Jornal Opção

Terras raras: o Brasil não pode vender o minério e importar o futuro

Há momentos em que um país precisa decidir se pretende ser apenas fornecedor de matéria-prima ou se está disposto a ocupar uma posição mais sofisticada na economia mundial. A corrida pelas terras raras coloca o Brasil diante exatamente dessa escolha.

O mundo descobriu — ou redescobriu — que determinados minerais valem muito mais do que o preço pago pela tonelada extraída. Eles estão no centro de cadeias tecnológicas que envolvem motores elétricos, equipamentos eletrônicos, energia renovável, defesa, ímãs de alto desempenho e diferentes aplicações industriais.

É por isso que as terras raras deixaram de ser apenas um assunto da mineração. Tornaram-se uma questão industrial, tecnológica e estratégica.

E o Brasil precisa negociar a partir dessa realidade.

A Constituição estabelece que os recursos minerais pertencem à União, e a exploração depende das regras e autorizações previstas na legislação brasileira. A própria Agência Nacional de Mineração reconhece que minerais críticos e estratégicos estão relacionados à soberania, à segurança econômica e tecnológica e aos riscos de concentração das cadeias internacionais.

Não se trata, portanto, de fechar as portas para o capital estrangeiro. Ao contrário. Investimentos internacionais podem trazer dinheiro, tecnologia, mercados e capacidade produtiva. A questão é outra: qual será o lugar do Brasil nessa negociação?

Se o país possui um recurso estratégico para o mundo, não deveria negociar apenas a venda daquilo que está debaixo da terra. Deveria negociar também conhecimento, processamento, pesquisa, formação de profissionais, desenvolvimento industrial e transferência tecnológica.

A diferença parece pequena, mas não é.

Exportar minério é uma coisa. Participar das etapas que transformam esse minério em produtos de alta tecnologia é outra completamente diferente.

Goiás não pode ficar apenas com o buraco no chão

É nesse ponto que Goiás precisa entrar na conversa.

Minaçu já está no mapa internacional das terras raras. O projeto da Serra Verde colocou o Estado no centro de uma cadeia que despertou interesse de grandes grupos internacionais. Em maio, o Cade informou que abriu procedimento para analisar uma operação envolvendo a Serra Verde e a norte-americana USA Rare Earth, além de um acordo de fornecimento de 15 anos para a produção da primeira fase do projeto.

Esse movimento mostra a dimensão econômica do que está em jogo.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita com clareza: quanto dessa riqueza permanecerá em Goiás na forma de conhecimento, tecnologia, empresas, empregos qualificados e pesquisa?

A resposta não deveria ser medida apenas pela quantidade de empregos gerados pela mineração ou pelo volume de impostos e royalties arrecadados.

Goiás precisa olhar para o território como o início de uma cadeia tecnológica.

Se existe uma riqueza mineral em Minaçu, é razoável discutir também a existência de centros de pesquisa, laboratórios, programas de formação, bolsas acadêmicas, startups, empresas de engenharia, projetos de processamento e iniciativas de inovação relacionadas a essa cadeia.

O dinheiro gerado pela atividade mineral não deveria ser visto apenas como receita corrente. Parte dele pode representar uma oportunidade de construir capacidade científica que permaneça no Estado mesmo depois que a jazida deixar de produzir.

Essa discussão, aliás, já encontra instrumentos na legislação goiana.

A Lei Estadual nº 23.597/2025 criou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos de Goiás e o Fundo Estadual de Desenvolvimento dos Minerais Críticos. A regulamentação do fundo estabelece entre suas diretrizes pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação, formação e retenção de capital humano, infraestrutura, recuperação ambiental e atração de empreendimentos de maior valor agregado.

Ou seja: a estrutura institucional para discutir esse modelo já existe.

O desafio agora é transformar a legislação em estratégia de longo prazo.

O dinheiro da mineração precisa produzir conhecimento

Há uma lógica simples nessa discussão.

Uma jazida é finita. Conhecimento não.

A mina pode produzir durante décadas. Mas pesquisadores formados, laboratórios estruturados, empresas tecnológicas criadas e conhecimento desenvolvido podem permanecer produzindo riqueza por muito mais tempo.

Por isso, uma política inteligente para as terras raras poderia estabelecer metas claras para que parte dos recursos gerados pela atividade seja direcionada à ciência, tecnologia, inovação e qualificação profissional nos estados produtores, respeitadas as competências federativas e as regras orçamentárias.

Em Goiás, isso significaria transformar a região de Minaçu em algo maior do que um polo de extração.

Seria possível imaginar uma rede envolvendo universidades, institutos federais, centros de pesquisa, governo e empresas para desenvolver tecnologias de separação, processamento, reciclagem e utilização dos minerais.

Também seria possível formar profissionais especializados em geologia, química, engenharia de materiais, mineração, tecnologia industrial e gestão ambiental.

O objetivo não deveria ser simplesmente retirar mais minério.

Deveria ser aprender mais com o minério.

A nova política nacional abre uma janela

O momento é particularmente importante porque o Brasil acaba de criar sua Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

A Lei nº 15.506/2026 instituiu a política nacional e criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. Entre seus objetivos está justamente ampliar a agregação de valor em território nacional, estimulando pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação e mineração urbana.

A direção definida pela nova legislação é relevante: o país passa a tratar esses minerais não apenas como produtos de exportação, mas como componentes de uma política industrial e tecnológica.

Agora será necessário definir como essa política chegará aos territórios onde os minerais estão.

Porque há uma diferença entre dizer que o recurso é estratégico para o Brasil e fazer com que a população da região produtora perceba concretamente essa estratégia.

Em Goiás, a discussão pode ser ainda mais ambiciosa.

O Estado pode reivindicar participação qualificada nas decisões, defender investimentos em infraestrutura e pesquisa e estabelecer mecanismos de acompanhamento dos compromissos assumidos pelos empreendimentos.

Também precisa haver transparência.

Quanto é produzido? Quanto é arrecadado? Quanto retorna ao território? Quantos empregos qualificados são criados? Quanto é investido em pesquisa? Quanto da cadeia produtiva permanece no Brasil? Quais tecnologias são desenvolvidas aqui?

Essas perguntas deveriam fazer parte da rotina de acompanhamento de qualquer projeto de mineral crítico.

Soberania não significa isolamento

Soberania mineral não precisa ser confundida com fechamento econômico.

O Brasil pode receber empresas estrangeiras, capital internacional e tecnologia de outros países. Pode vender sua produção para diferentes mercados. Pode estabelecer acordos comerciais.

Mas negociar soberanamente significa conhecer o valor estratégico do que se possui e estabelecer contrapartidas compatíveis com esse valor.

O Brasil não precisa escolher entre investimento estrangeiro e interesse nacional. Pode discutir os dois simultaneamente.

A questão é não repetir um modelo histórico em que o país exporta recursos naturais e posteriormente importa produtos de maior valor agregado produzidos a partir deles.

Se as terras raras brasileiras são necessárias para tecnologias do século XXI, a oportunidade está justamente em usar essa demanda para fortalecer a capacidade tecnológica brasileira.

O verdadeiro patrimônio pode estar depois da mina

A discussão sobre terras raras costuma começar pela pergunta: quanto vale a reserva?

Talvez seja hora de fazer outra pergunta: quanto conhecimento o Brasil consegue construir a partir dela?

Esse pode ser o verdadeiro teste de inteligência da negociação.

Goiás tem uma oportunidade concreta de participar dessa discussão. Minaçu pode ser mais do que o lugar onde se extrai um mineral estratégico. Pode se tornar referência em pesquisa, processamento, formação profissional e inovação.

Para isso, será necessário planejamento, transparência, fiscalização ambiental, segurança jurídica e, sobretudo, visão de longo prazo.

A riqueza mineral pertence à União. Mas os impactos, as oportunidades e as transformações econômicas acontecem nos territórios.

Por isso, quando o Brasil sentar à mesa para negociar suas terras raras, não deveria levar apenas amostras do que existe no subsolo.

Deveria levar universidades, pesquisadores, engenheiros, empresas brasileiras, projetos industriais e uma estratégia clara de desenvolvimento.

Porque o recurso mais estratégico que o Brasil pode extrair de uma jazida não é necessariamente o minério.

É a capacidade de transformar riqueza natural em conhecimento nacional.

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Fonte: Jornal Opção

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