Por César FonsecaBrasil 247

A racionalidade política, no processo eleitoral em curso, está contaminada pelos choques ideológicos dos protagonistas que dela participam.

O inconsciente coletivo, por exemplo, por causa de tais choques, liga o ministro Alexandre de Moraes ao presidente Lula, porque o ministro condenou o derrotado por Lula, ex-presidente Jair Bolsonaro, à prisão a 27,3 anos de prisão por tentativa de golpe contra democracia em 2022.

Já o ministro André Mendonça, alçado ao cargo pelo ex-presidente Jair, marcha com Flávio Bolsonaro, seu filho, cumprindo o papel que lhe cabe no enredo eleitoral.

Essa certeza popular, realçada, especialmente, pelos bolsonaristas, de que Lula é aliado de Moraes, é amplificada pela mídia anti-lulista, anti-nacionalista, pró-mercado financeiro especulativo, que a consolida pela repetição ad nausean, que atende seus interesses ocultos.

Um fato ou uma mentira repetida mil vezes acaba virando verdade, já disse um fascista alemão famoso, assessor de Hitler.

O viés fascista, indiscutivelmente, está no ar na campanha eleitoral, que se desenrola, bem entendido, num ambiente internacional de avanço do fascismo ultradireitista, como acaba se ser provado com a vitória ele na Alemanha, no domingo.

Não é novidade, portanto, que ficou fácil generalizar o entendimento popular quanto à verdade bolsonarista de que Alexandre Moraes – e, por extensão, o STF, de forma ampla – são lulistas.

Preocupados, assessores de Lula pedem para ele se distanciar de Moraes, para não ser confundido com ele como seu aliado eleitoral.

A parte ficou confundida com o todo, como se o STF fosse uma unidade e não algo multifacetado – diversas faces em conflito permanente.

DINO ENTRA NA GUERRA

Essa lógica, agora, é reforçada pela decisão do ministro Flávio Dino, que tem em suas mãos a bomba atômica do inquérito das emendas parlamentares, de reverter a decisão de do ministro André Mendonça de afastar o chefe da PF, indicado por Lula, ao argumentar que tal afastamento, primeiro, é inconstitucional, pois invade prerrogativa do presidente da República, e, segundo, prejudicaria processos do STF em andamento sob sua responsabilidade, provocando caos e incertezas processuais em prejuízo do interesse público etc.

Forma-se, dessa maneira, uma dobradinha – Moraes e Dino –, tida como aliada do lulismo, reforçando o inconsciente coletivo de que o STF está ao lado de Lula contra Flávio Bolsonaro no contexto da rebelião em curso na Corte Suprema, sob a presidência de Edson Fachin, considerado ministro tatibitate, cheio de dedos e pouca determinação para decidir, energicamente, diante dos fatos borbulhantes em jogo.

DERROTA PARCIAL DO BOLSONARISMO

A reversão da demissão de Andrei Rodrigues, da PF, representou, portanto, derrota do bolsonarismo para o lulismo, no cenário eleitoral.

De um lado, estariam os lulistas Dino e Moraes, e, de outro, Mendonça, Nunes Marques e Luís Fux, que votaram pelo afastamento de Rodrigues, quando o relator dos casos do INSS e Banco Master, Mendonça, jogou para decisão da 2ª Turma do STF o destino do chefe da PF.

Não fosse o ministro decano Gilmar Mendes pedir vista do processo, adiando seu desfecho por 90 dias, para depois das eleições, Rodrigues teria dançado.

Estaria configurado impasse entre os poderes Executivo e Judiciário, visto que Lula reagiu, por intermédio da AGU, sob argumento de que Mendonça invadiu prerrogativa do presidente da República, que cabe indicar o diretor geral da PF.

É nesse cenário de confronto ferrenho, em que o julgamento popular diz que a vaca não reconhece o bezerro, que se desenrola a sucessão presidencial.

Nele, novos episódios inesperados podem ser desencadeados, o que já levanta pânico no candidato Flávio Bolsonaro, cercado de suspeições de irregularidades sujeitas a detoná-lo, se o STF apontar falhas suas em etapas antecedentes à luta eleitoral, vindas, agora, à tona com força de tsunami político altamente explosivo.

Por exemplo, pega fogo o caso do financiamento do filme Dark Horse, financiado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

FILME DE TERROR

A empresa produtora do filme teme diligências do STF e da PF, por ordem de Flávio Dino, na aferição da contabilidade da obra, cuja maior parte, mais de 70%, foi realizada nos Estados Unidos.

Especialistas em produção cinematográfica consideram exagerado o orçamento do produto e levantam dúvidas de superfaturamento e desvio de recursos da parte dos Bolsonaro, Flávio e seu irmão, Eduardo, que, nos Estados Unidos, comandam a execução de Dark Horse.

Por essa razão, a produção teme batidas policiais a qualquer momento na empresa responsável por ela, o que, no ambiente de disputa eleitoral, geraria consequências negativas para Flávio, a repercutirem em pesquisas eleitorais, favorecendo Lula.

Flávio levanta suspeitas de que há um consórcio entre STF(Dino e Moraes) e Senado(Alcolumbre) para beneficiar o Executivo(Lula).

Os poderes da República, portanto, estão em confronto.

O titular do Senado, Davi Alcolumbre(UB-AP) está relacionado por Flávio como seu adversário eleitoral, já que o Centrão, do qual Alcolumbre é um dos líderes, tomou posição de neutralidade na disputa Flávio x Lula, o que beneficia o presidente da República.

Por isso, Alcolumbre teme virar alvo do ministro André Mendonça, aliado de Flávio Bolsonaro, esperando, a qualquer momento, sofrer uma estocada do ministro terrivelmente evangélico, para favorecer o candidato bolsonarista.

Vai se verificando, assim, jogo de posições de guerra, em trocas de chumbo grosso.

Nesse embalo, o presidente Lula, que está liso de acusações no caso Vorcaro-Master, raíz de todo o processo de corrupção fraudulenta que envolve a República, vai ao ataque: quer suspensão total de sigilo que cerca o processo, para que a sociedade saiba a verdade inteira., para orientar seu voto na urna em outubro.

HISTÓRICO CONFLITANTE DA GUERRA

Tudo, como se sabe, começou porque Moraes teria em mãos relatório da PF, que Mendonça considera como peça de monitoramento de suas ações no STF.

Por causa disso, Mendonça retrucou contra Moraes, suspendendo sigilo nos inquéritos que estão sob sua orientação(INSS e Banco Master), para mostrar trocas de informações entre Vorcaro e Moraes, sabendo que a mulher de Moraes era advogada de Vorcaro, para defendê-lo das acusações de fraudes realizadas pelo Banco Master.

Na sequência, o evangélico terrível, considerando obra da PF o relatório de Moraes, que lhe serviu de base para acusá-lo de suspeições na condução dos assuntos do INSS e do Banco Master, decidiu demitir Andrei Rodrigues, causando rebelião nos policiais que colocaram seus cargos à disposição em solidariedade ao chefe etc.

Ou seja, o enredo da crise tem como origem a relação tumultuada entre STF, dividido em facções guerreiras entre si, e PF, submetida às ordens cruzadas e conflitantes de ministros do STF, posicionados, por sua vez, no contexto de interesses em choque entre os candidatos Lula e Flávio; estes, ancorados, por sua vez, nos seus pupilos na Suprema Corte, viram joguetes, também, de suas próprias excelências supremas.

Desse modo, a confusão no STF e, por extensão, na sucessão presidencial, como diria o bruxo do Cosme Velho, o notável Machado de Assis, é total.

Fonte: Brasil 247

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