Sobrecarga vira rotina: 63% dos brasileiros dizem trabalhar mais nos últimos dois anos, aponta pesquisa

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Por Mylenna Scheidegger — Jornal Opção

Sobrecarga vira rotina: 63% dos brasileiros dizem trabalhar mais nos últimos dois anos, aponta pesquisa

Um levantamento da terceira edição da pesquisa Workforce mostrou que 63% dos trabalhadores brasileiros dizem que a carga de trabalho aumentou significativamente nos últimos dois anos. O índice é ligeiramente superior à média global, de 62%, e vem acompanhado de outra dificuldade: 47% dos profissionais afirmam estar ocupados demais para entregar resultados relevantes, enquanto metade diz que as demandas já ultrapassam sua capacidade de entrega.

Realizada pela consultoria Korn Ferry, a pesquisa ouviu mais de 16 mil profissionais de diferentes níveis de carreira em 11 mercados. Os dados mostram uma rotina em que novas tarefas são acrescentadas sem que as anteriores necessariamente deixem de fazer parte do trabalho.

É nesse ponto que aparece uma das principais dificuldades apontadas pelos entrevistados. Saber o que deve ser feito não significa, necessariamente, ter tempo para fazer. Para Rodrigo Araújo, Managing Partner da Korn Ferry Brasil, as empresas precisam rever atividades que consomem tempo, mas têm pouco impacto nos resultados.

“A clareza sobre as prioridades é importante, mas não é suficiente quando a rotina permanece tomada por demandas que pouco contribuem para os resultados. Se as empresas não eliminarem atividades de baixo valor, as pessoas continuarão sabendo o que é mais importante, mas sem tempo para se dedicar a isso”, afirma.

Profissionais acumulam funções

O aumento da carga de trabalho também aparece na distribuição das funções dentro das empresas. No Brasil, 59% dos entrevistados afirmam acumular responsabilidades que correspondem a mais de uma função. O percentual é próximo da média global, de 61%. A redução das estruturas de gestão é outro ponto destacado pela pesquisa. Entre os brasileiros ouvidos, 46% dizem que suas empresas já diminuíram o número de gestores. Para 39%, essa redução deixou menos claro quem deve orientar as prioridades do trabalho.

O impacto é ainda maior sobre os profissionais que ocupam posições de liderança intermediária. Eles precisam responder às cobranças da direção e, ao mesmo tempo, lidar com equipes que também enfrentam uma rotina mais pesada. Quase metade dos brasileiros entrevistados, 49%, relata exaustão com o ritmo das mudanças. Outros 47% dizem estar ocupados demais para entregar resultados relevantes. Apenas 18% afirmam receber dos próprios gestores o suporte necessário para exercer suas funções.

Pesquisa mostra pressão sobre trabalhadores e gestores no Brasil; 47% dizem estar ocupados demais para entregar resultados relevantes | Fonte: Korn Ferry – Workforce 2026.

Para Vinicius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry, a situação exige mudanças na forma como as empresas organizam o trabalho. “Proteger a capacidade gerencial é uma decisão de negócio, porque nenhuma organização sustenta desempenho quando seus líderes não têm tempo e condições para liderar”, afirma.

Inteligência artificial entra na rotina

A inteligência artificial também aparece entre os fatores que estão mudando a rotina profissional. A tecnologia, que costuma ser associada à redução de tarefas, nem sempre tem produzido esse efeito para quem está na ponta.

Segundo a pesquisa, 52% dos trabalhadores brasileiros afirmam que as ferramentas de IA aumentaram o número de tarefas esperadas em suas funções. O resultado é próximo da média global, de 51%.

Por outro lado, 70% dos brasileiros dizem ter recebido treinamento adequado para utilizar essas ferramentas. O percentual supera a média dos 11 mercados pesquisados, que ficou em 52%.

74% dos brasileiros entrevistados dizem ter percebido ganho de eficiência com o uso da inteligência artificial | Fonte: Korn Ferry – Workforce 2026

O ganho de produtividade também é percebido pelos profissionais. Entre os entrevistados no Brasil, 74% afirmam que a IA trouxe mais eficiência para o trabalho.

O levantamento aponta, porém, uma diferença entre o uso feito pelos próprios funcionários e as mudanças promovidas pelas empresas. Em muitos casos, os profissionais incorporam as ferramentas à rotina antes que funções, processos e responsabilidades sejam formalmente reorganizados.

Essa adaptação pode trazer problemas de governança, principalmente em relação à segurança das ferramentas, proteção de dados e avaliação dos resultados obtidos com a tecnologia.

Eficiência ganha espaço, mas inovação perde força

A busca por eficiência aparece como uma das prioridades das empresas brasileiras. Para 63% dos profissionais ouvidos, suas organizações estão mais preocupadas em aumentar a eficiência do que em encontrar novas formas de gerar valor.

Ao mesmo tempo, 52% dizem que processos e estruturas já existentes acabam limitando seu desempenho.

A pesquisa mostra que existe disposição para inovar, mas nem sempre o ambiente de trabalho favorece esse movimento. Apenas 16% dos entrevistados consideram suas organizações ineficazes na transformação de novas ideias em resultados.

O incentivo dos gestores também não é unanimidade. Pouco mais da metade dos brasileiros, 52%, afirma que recebe estímulo dos superiores para testar novas ideias e tecnologias. Na média global, o índice chega a 57%.

Salário e estabilidade ganham importância

A pesquisa também identificou mudanças nos critérios usados pelos brasileiros na hora de escolher um emprego.

Salário e remuneração aparecem no topo dos fatores considerados pelos brasileiros na escolha de um novo emprego | Fonte: Korn Ferry – Workforce 2026

Salário e remuneração continuam no topo da lista e foram citados por 88% dos entrevistados. Benefícios e possibilidade de crescimento profissional também aparecem entre os principais fatores considerados.

Em comparação com 2024, ganharam menos espaço critérios como aprendizado e desenvolvimento e a possibilidade de trabalhar totalmente de forma remota.

“O trabalho em si” aparece na quinta posição entre os cinco fatores mais citados na escolha de um novo emprego, com 61% das menções.

Quando a pergunta é sobre o que faz um profissional permanecer na empresa, o salário aparece novamente em primeiro lugar, citado por 92%. Segurança e estabilidade vêm logo depois, com 88%.

Um terceiro fator, incluído na pesquisa deste ano, aparece com 86%: tratamento justo e consistente.

Os resultados apontam para uma mudança no peso dado aos diferentes aspectos da relação entre trabalhador e empresa. Remuneração, estabilidade, benefícios e crescimento profissional aparecem com mais força nas decisões sobre permanecer ou mudar de emprego.

Sobre a pesquisa

A terceira edição da pesquisa Workforce, da Korn Ferry, ouviu mais de 16 mil profissionais, de trabalhadores em início de carreira a CEOs, em 11 mercados: Alemanha, Arábia Saudita, Austrália, Brasil, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, França, Índia, Japão, Reino Unido e Singapura.

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Fonte: Jornal Opção

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