“Soberania ou subordinação?”: Lula confronta pressão dos EUA na ONU

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Por Ana Gabriela SalesGGN

Em discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22), o presidente Lula (PT) defendeu a soberania do país frente ao combate ao crime organizado e rechaçou tentativas de interferência externa. Diante de líderes globais, o brasileiro rebateu indiretamente as pressões dos Estados Unidos quanto à atuação das facções criminosas na América Latina.

Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas“, afirmou Lula. “Não vamos terceirizar a responsabilidade de proteger nossas fronteiras“, afirmou Lula no plenário da ONU, onde o Brasil ocupa tradicionalmente o primeiro posto de fala entre as 193 nações integrantes do organismo internacional.

O posicionamento ocorre em meio à escalada de tensão diplomática com o governo de Donald Trump. A administração norte-americana passou a classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, acusando Brasília de falhar na contenção dos grupos.

O governo brasileiro contesta o enquadramento. A avaliação técnica e jurídica de Brasília é que as facções atuam motivadas pelo lucro financeiro, por meio do tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, sem o enquadramento ideológico ou político previsto na Lei Antiterrorismo.

Cooperação sem intervenção militar

Durante o pronunciamento, o presidente destacou que o enfrentamento às redes criminosas exige integração internacional para asfixiar a estrutura financeira das facções no exterior, descartando a militarização de fronteiras ou mares por forças estrangeiras.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos“, declarou.

O recado do chefe do Executivo parece refletir o incômodo do Planalto com a decisão de Washington de transferir, na última semana, drones armados MQ-9 Reaper para o Comando Sul dos EUA, sob a justificativa de monitorar o narcotráfico transnacional na América do Sul.

Lula ressaltou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, e defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública, proposta que amplia as atribuições da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para fortalecer o combate às facções no país.

Alerta contra desinformação e ingerência nas urnas

A menos de duas semanas da eleição presidencial de 4 de outubro, na qual disputa o pleito contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Lula apontou riscos de interferência estrangeira no processo político nacional.

O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos“, disse o presidente. “A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos“.

Lula reforçou a confiança no sistema de votação brasileiro e condenou tentativas de desestabilização digital durante a disputa. “Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. (…) O Brasil continuará sendo um país soberano”, pontuou.

Posições regionais e conflito no Oriente Médio

O pronunciamento abordou ainda a situação política de outros países da América Latina e crises internacionais. Lula registrou que o povo venezuelano deve definir seu próprio destino, advertiu que a Nicarágua “não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições” e classificou como ilegal o embargo econômico mantido contra Cuba.

Sobre o cenário de conflito no Oriente Médio, o presidente dirigiu críticas às ações do governo de Israel e aos ataques de grupos armados: “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelentes pagaram o preto do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas“.

Em sua fala, Lula ainda vinculou a segurança interna ao fortalecimento de organismos multilaterais e à manutenção da soberania territorial. “Este Conselho [de Segurança da ONU] agora deve se debruçar sobre temas determinantes sobre o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Soberania ou subordinação?“, provocou o presidente.

A tradição do Brasil abrir o debate geral de líderes da ONU ocorre desde 1955. Após o pronunciamento de Lula, o presidente norte-americano Donald Trump foi o segundo líder a discursar no plenário em Nova York.

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Fonte: GGN

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