Sob governo de extrema direita, Chile passa aniversário do golpe sem ato oficial

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Por João Antonio CunhaBrasil 247

247 – O Chile completou nesta sexta-feira (11) 53 anos do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende sem uma cerimônia oficial do governo para marcar a data. É a primeira vez, desde a redemocratização, em 1990, que não há um ato institucional para lembrar o episódio.

O presidente José Antonio Kast, representante da ultradireita chilena e historicamente apoiador da ditadura de Augusto Pinochet, manteve sua agenda e viajou para a região de Los Ríos, no sul do país. Não houve cerimônia no Palácio de La Moneda nem pronunciamento presidencial, interrompendo uma prática mantida anualmente nos últimos 35 anos.

Kast afirmou que a história “não pode ser apagada”, mas defendeu que os chilenos concentrem sua atenção no futuro. De acordo com o presidente, existem diferentes “sensibilidades” entre a população sobre os acontecimentos de 53 anos atrás, e o país não deveria permanecer preso às divisões do passado.

A justificativa foi semelhante à apresentada pelo governo nos dias anteriores. O subsecretário do Interior, Máximo Pavez, declarou que o papel da administração é “olhar para os próximos 50 anos”.

Uma missa realizada pela manhã no Palácio de La Moneda também não foi apresentada pelo governo como homenagem às vítimas da ditadura. Segundo Pavez, a celebração religiosa faz parte das atividades realizadas habitualmente no palácio.

Disputa sobre a memória da ditadura

A decisão do governo Kast rompe uma tradição que havia sido mantida por diferentes administrações desde o fim da ditadura, inclusive pelos governos da direita tradicional liderados por Sebastián Piñera. A data marca o bombardeio do Palácio de La Moneda e a derrubada de Allende, em 1973. O episódio deu início aos 17 anos de regime militar comandado por Pinochet.

A ausência de uma cerimônia oficial ocorre em um momento de renovada disputa no Chile sobre a forma de abordar a memória da ditadura. Em agosto, parlamentares do Partido Nacional Libertário, legenda fundada pelo ultradireitista Johannes Kaiser, apresentaram um projeto para criar um “Museu da Verdade”.

A proposta pretende funcionar como contraponto ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago. A instituição, criada durante o governo da ex-presidente Michelle Bachelet, reúne documentação sobre as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura.

Histórico de Kast

O próprio Kast fez campanha pelo “Sim” no plebiscito de 1988, opção que defendia a permanência de Pinochet no poder. Antes de chegar à Presidência, também publicou mensagens favoráveis ao golpe.

Durante a campanha eleitoral que o levou ao governo, entretanto, Kast passou a evitar o assunto. Já na Presidência, limita-se a afirmar que sua posição sobre o período é conhecida.

Enquanto o governo não promoveu uma cerimônia institucional, partidos de oposição organizaram suas próprias homenagens nesta sexta-feira (11). Entre as atividades previstas estavam uma cerimônia no mausoléu de Allende, no Cemitério Geral de Santiago, e o depósito de flores diante da estátua do ex-presidente, localizada nas proximidades de La Moneda.

O ex-presidente Gabriel Boric participou das homenagens e criticou a ausência de uma cerimônia governamental. Segundo ele, os chilenos não dependem de atos oficiais para preservar a memória do passado, e a história do país continua presente na memória da população.

Desaparecidos e investigações

As consequências da ditadura permanecem no centro de processos judiciais e de iniciativas de busca por vítimas. Mais de mil pessoas continuam desaparecidas, enquanto mais de mil casos estão sob investigação nos tribunais, a maioria relacionada a denúncias de tortura.

O governo Kast manteve o Plano Nacional de Busca, Verdade e Justiça, criado durante a gestão Boric para localizar pessoas desaparecidas. Semanas depois de assumir a Presidência, porém, demitiu os principais responsáveis pelo programa.

Pinochet comandou o Chile entre 1973 e 1990. Dados oficiais citados pela imprensa chilena apontam mais de 40 mil pessoas reconhecidas como vítimas da ditadura, entre executados, desaparecidos, presos políticos e torturados.

O ex-ditador morreu em 2006, aos 91 anos, sem ter sido condenado pelos crimes que cometeu.

Fonte: Brasil 247

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