Só os piores seres humanos querem Flávio Bolsonaro na Presidência
Por Ricardo Nêggo Tom — Brasil 247
Uma eleição presidencial não escolhe apenas um nome para ocupar o Palácio do Planalto. Ela também coloca em debate um projeto de país, uma visão de sociedade e os limites que uma democracia deve impor a quem exerce o poder.
A trajetória política da família Bolsonaro suscita questões que não podem ser ignoradas. Flávio Bolsonaro esteve no centro de controvérsias envolvendo suspeitas de “rachadinha” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A família também foi alvo de questionamentos por relações com pessoas investigadas ou condenadas por ligações com milícias. Essas questões exigem apuração rigorosa, mas alguns fatos nos permitem fazer a distinção entre suspeitas e provas. E é preciso tratar disso com transparência perante a sociedade. Não é possível que pessoas de bem e do bem queiram entregar o comando de um país como o nosso nas mãos de alguém suspeito de práticas corruptas e de ligação com organizações criminosas. Isso seria uma prova de que nunca quiseram combater a corrupção de fato, mas apenas disseminar uma política de ódio contra o seu principal adversário.
Flávio Bolsonaro promete dar continuidade ao governo do seu pai, que ele considerava favorável ao crescimento econômico do país, trazendo de volta à pauta temas sensíveis, como o armamento da população e uma política de cortes de gastos que irá comprometer políticas públicas nas áreas da saúde e da educação, além de colocar em risco milhões de pessoas beneficiárias de programas assistenciais. O governo de Jair Bolsonaro, por sua vez, deixou um legado profundamente controverso. Em 2021, o Brasil registrou 62,5 milhões de pessoas na pobreza, equivalentes a 29,4% da população, segundo o IBGE. A imagem de brasileiros procurando ossos para conseguir alimento tornou-se um dos símbolos mais dolorosos daquela crise social. Os números não explicam, isoladamente, todas as causas da pobreza, mas dimensionam a gravidade do problema vivido pelo país.
O debate também envolve o discurso racista, homofóbico e misógino que caracteriza o bolsonarismo, além de manifestações de exaltação à violência, a ditadores e à tortura por parte de políticos ligados ao segmento. Um comportamento que desrespeita os direitos humanos e a existência das chamadas minorias, que Jair Bolsonaro dizia que deveriam se render ou desaparecer do Brasil. Uma fala que foi repetida recentemente por Lucas Pavanato, o deputado federal mais votado da história de São Paulo, que declarou que colocaria as minorias em seu devido lugar. O que está em discussão, portanto, não é apenas uma disputa entre partidos, mas o lugar que o respeito à dignidade humana deve ocupar na vida pública. Quem apoia esse tipo de discurso não está movido por uma ideologia política. Está movido pela ideologia do ódio à existência do outro. E podemos dizer que gente com essa natureza figura entre os piores seres humanos da face da Terra.
A direita democrática precisa se afastar do bolsonarismo e enfrentar uma questão essencial: é possível defender ideias conservadoras, políticas econômicas liberais e valores tradicionais sem tolerar o preconceito, a violência política ou o enfraquecimento das instituições? A resposta exige distinguir uma corrente política inteira de suas alas extremistas, sem transformar milhões de eleitores em caricaturas morais. Da mesma forma, qualquer projeto de poder que envolva a preservação de uma dinastia familiar, a deslegitimação das instituições ou a perseguição de adversários deve ser examinado com atenção. A democracia não pertence a uma família, a um partido ou a uma ideologia. Ela depende de eleições livres, liberdade de expressão, respeito aos direitos fundamentais e alternância de poder. Você, de direita, que votou em Renan Santos, Augusto Cury ou Ronaldo Caiado, por exemplo, o fez acreditando numa possibilidade de mudança política com base na sua ideologia. Diferentemente de quem votou e continuará votando em Flávio Bolsonaro, que o fez por maldade. Por saber que ele irá empreender uma perseguição aos direitos e às liberdades individuais de pessoas de quem seus eleitores não gostam e que gostariam que não existissem.
A direita brasileira nunca foi bolsonarista. O bolsonarismo nunca foi de direita. O bolsonarismo não faz parte de nenhum espectro político. O bolsonarismo pertence ao espectro das distorções de caráter que um ser humano pode manifestar vivendo em sociedade. É a não adaptação ao processo civilizacional. É a psicopatia naturalizada como virtude. É a sociopatia institucionalizada como política de Estado. O bolsonarismo é criminoso. É podre. É fétido. É repulsivo. O falso patriotismo é outra característica desse movimento. O amor à pátria defendido pelos bolsonaristas só dura até surgir uma bandeira dos EUA à sua frente. E tome continência para o pavilhão do imperialismo que deseja governar o mundo, desrespeitando a soberania dos demais povos. I love you, Trump! Isso não é ser de direita. Isso é ser vassalo. Isso é ser sicário do capitalismo estadunidense. Isso é ser traidor da própria pátria. Isso é ser a escória da sociedade. E a direita tradicional brasileira nunca foi isso.
Os eleitores que não compareceram ao primeiro turno também fazem parte desse debate. A abstenção pode ter diferentes motivos, e ninguém deve presumir suas convicções. Mas a participação política, a análise crítica dos candidatos e a consulta a fontes confiáveis são instrumentos fundamentais para que cada cidadão tome uma decisão consciente. Sobretudo neste momento dramático em que o país atravessa sob a ameaça de um governo autoritário e violador dos direitos humanos. Você, que está entre os 30 milhões que se abstiveram de votar no primeiro turno, pode evitar essa tragédia. Mesmo que você não goste de Lula, do PT e da esquerda, você deve gostar de alguém que é pobre, periférico, assalariado, preto, mulher, gay, trans ou religioso de uma matriz perseguida pelo fundamentalismo. Talvez você mesmo integre um desses grupos e esteja com a sua existência sob risco.
Repense seu posicionamento e ajude o seu país a se livrar de uma ditadura violenta, cruel e sanguinária. Um projeto de vingança pelo golpe que não deu certo em 2023 e levou o grande líder da quadrilha para a cadeia. E ele será solto pelo filho, que já declarou que o pai criminoso subirá a rampa com ele no dia da posse e lhe entregará a faixa presidencial. Outros presos por tentativa de golpe em 08/01 também serão soltos. Eduardo Bolsonaro, um fugitivo da Justiça brasileira, voltará ao país e ocupará o cargo de ministro das Relações Exteriores, podendo, assim, seguir conspirando, agora institucionalmente, contra os interesses do país. Carlos Bolsonaro, o filho mais perigoso e maquiavélico de seu Jair, agora é senador e também deve ser alçado a algum ministério. A SECOM, quem sabe? Para fazer o gabinete do ódio chegar a todos os brasileiros como um novo projeto de comunicação. Quem sabe uma reedição do Ministério da Propaganda nazista de Hitler? Será que a sua desilusão com a política é tão grande a ponto de permitir que viremos um Reich bolsonarista?
No fim, o que permanece não é a pergunta se todo eleitor bolsonarista é uma pessoa má. É a certeza de que só os piores seres humanos ainda querem Flávio Bolsonaro na Presidência. A pergunta a se fazer é outra: quais ideias estamos dispostos a tolerar, quais direitos consideramos inegociáveis e que futuro queremos para a sociedade brasileira? Essas perguntas merecem ser feitas antes que qualquer projeto de poder transforme divergências políticas em inimigos a serem destruídos. Até porque, mesmo aqueles que se arrependerem do voto dado depois que o governo de Flávio estiver estabelecido não serão poupados da destruição. A vida não está fácil. Os preços dos alimentos não estão baratos, embora estejam mais baixos do que no governo Bolsonaro. O custo de vida não é dos melhores para os mais pobres, mas era pior no governo Bolsonaro. A saúde pública não é uma maravilha, mas o atual governo não deixaria 700 mil pessoas morrerem por negligência durante uma pandemia. Muita coisa precisa ser melhorada, mas isso não acontecerá num eventual governo de Flávio Bolsonaro.
Ainda há tempo de virar esse jogo. Não é o amor que vai vencer o ódio, porque esse discurso já está chato e irritante. É a vida que vai vencer a morte. E a escolha é sua.
Fonte: Brasil 247