Silvio Almeida defende virada estratégica do movimento negro: ‘Não basta ocupar espaços, é preciso formular o projeto de Brasil’
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Em uma reflexão densa sobre os rumos da política brasileira e os desafios eleitorais que se avizinham, o jurista, filósofo e ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, veio a público defender uma profunda inflexão na estratégia política do movimento negro brasileiro. No vídeo intitulado “Movimento Negro e as Eleições”, publicado em seu canal oficial, o professor sustenta que uma população que constitui a maioria absoluta demográfica do país não pode continuar se comportando — ou sendo tratada — como uma minoria restrita a barganhar cotas de representação em projetos formulados por outros grupos.
Para Silvio Almeida, a presença negra nos espaços institucionais é uma conquista histórica inegociável, fruto de décadas de mobilização e luta popular, mas não pode representar o teto das aspirações políticas.
“O problema começa quando a representação se transforma no horizonte último da política e ocupar posições passa a valer mais do que disputar o conteúdo das decisões que vão ser tomadas a partir dela”, adverte.
O liberalismo da diversidade e o “progressismo conservador”
Um dos eixos mais contundentes da análise de Silvio Almeida recai sobre a cooptação da pauta antirracista pelo vocabulário corporativo e por fundações financeiras. O ex-ministro aponta a contradição de um modelo que celebra a ascensão individual enquanto deixa intocadas as engrenagens da desigualdade e da superexploração da classe trabalhadora.
Almeida batiza esse fenômeno de uma “forma peculiar de conservadorismo”: um progressismo cosmético, capaz de adotar retórica radical e promover diversidade em conselhos de administração de empresas e gabinetes, enquanto convive perfeitamente com a precarização trabalhista, a concentração de patrimônio e a violência de Estado.
“Uma empresa pode colocar negros na diretoria e manter milhares de trabalhadores negros precarizados. Um governo pode falar de diversidade e conservar uma política econômica que aprofunda a informalidade e a concentração patrimonial; pode falar em democracia, mas não fazer nada em relação ao encarceramento em massa”, enfatizou.
O jurista provocou uma reflexão incômoda sobre o financiamento e a visibilidade de temas na arena pública: “Por que é tão mais fácil conseguir dinheiro para falar de diversidade do que para discutir propriedade? Organizações internacionais e fundações financiam com facilidade programas de diversidade e letramento racial. Propriedade, política industrial, tributação, dependência e soberania encontram um ambiente muito menos receptivo”. O resultado desse arranjo, adverte, é o risco de se forjar uma elite intelectualmente aparelhada para gerenciar a diversidade em instituições já estabelecidas, porém despreparada para debater e disputar as diretrizes do Estado nacional.
De objeto de estudo a formulador: o resgate de Guerreiro Ramos
Para fundamentar a guinada teórica e programática necessária, Silvio Almeida recorreu ao pensamento social brasileiro, com ênfase especial no sociólogo Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982), além de referências a Florestan Fernandes e Caio Prado Júnior.
Ele lembrou que Guerreiro Ramos já denunciava, nos anos 1950, a redução do negro a mero objeto folclórico ou tema passivo de estudos sociológicos. A tarefa histórica urgente, argumenta Almeida, é colocar o sujeito negro na posição de intérprete e construtor do país inteiro:
“Ser negro não fornece a ninguém automaticamente autoridade sobre a questão racial (…) Transformar experiência em consciência política exige estudo, formação intelectual, organização e capacidade de relacionar a própria condição às determinações mais amplas da sociedade brasileira.”
Ao tratar do conceito de “lugar de fala”, Silvio fez ressalvas à sua banalização quando desprovido de formação e rigor teórico: “Um empresário negro pode explorar trabalhadores negros do mesmo jeito. Um parlamentar negro pode defender políticas que aprofundem desigualdades. Um intelectual negro pode dominar o vocabulário da identidade e saber pouquíssimo sobre economia brasileira, sistema financeiro, energia, tecnologia ou teoria do Estado”.
A tríade estrutural: Racismo, dependência econômica e autocracia
Ao analisar a formação social brasileira, Silvio Almeida apresentou um tripé analítico indissociável para compreender as raízes do subdesenvolvimento e da violência estrutural no país:
- A dependência econômica: que subordina tecnológica e financeiramente o Brasil aos centros do capitalismo global e estrangula sua soberania;
- O racismo estrutural: que distribui vulnerabilidades, organiza a divisão social do trabalho e legitima a oferta de mão de obra barata e desprotegida;
- A autocracia burguesa: conceito lapidado por Florestan Fernandes que traduz a histórica aversão das classes dominantes brasileiras à incorporação efetiva e substantiva do povo ao poder político.
Nesse prisma, questões como a segurança pública não podem continuar confinadas ao campo da mera denúncia moral. Ao abordar a tragédia do extermínio da juventude negra, Silvio destacou que a indignação é necessária, mas ineficaz se não for acompanhada de disputa orçamentária e formulação técnica sobre polícia, investigação científica de homicídios, controle de armamentos, combate ao narcotráfico e capacidade de inteligência do Estado.
Uma agenda de soberania para o Brasil e o Sul Global
Ao projetar o futuro e o papel que o movimento popular deve desempenhar nos ciclos eleitorais, Silvio Almeida conclamou as forças progressistas a transformar a presença conquistada por meio das cotas em soberania e planejamento estratégico nacional.
Para ele, a agenda negra precisa se constituir em um projeto de nação com projeção internacional, articulado com os países do Sul Global — abrangendo a integração da América Latina, os laços históricos com o continente africano e a cooperação estratégica com a China e as nações emergentes:
“Precisamos de economistas negros pensando desenvolvimento e sistema financeiro; engenheiros negros pensando energia e infraestrutura; juristas formulando políticas de Estado; professores dedicados à ciência e tecnologia. As cotas colocaram essa geração dentro das universidades; a tarefa seguinte é transformar presença em capacidade intelectual, política e institucional para disputar o destino do Brasil”, concluiu.
Assista à íntegra da exposição de Silvio Almeida no vídeo abaixo:
Fonte: Brasil 247