Servidores do BRB reagem a Lula e pedem que banco não vire disputa política
Por Caio Barbieri — Reportagem – PlatôBR
Funcionários do BRB (Banco de Brasília) divulgaram uma carta aberta (leia abaixo), na noite desta quinta-feira, 17, como reação às recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a crise da instituição após a tentativa de compra do Banco Master. O texto contesta a forma como o presidente abordou o tema e sustenta que os funcionários não podem ser responsabilizados pelos prejuízos que ainda estão sob investigação. “Não somos responsáveis pelas decisões que estão sendo investigadas. Não fomos nós que criamos essa crise”, registra o documento.
A manifestação ocorre após Lula dizer, durante ato de campanha em Ceilândia, na quarta-feira, 16, que o governo federal não dará dinheiro para socorrer o BRB. O petista também atribuiu a crise do banco à relação entre o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. A declaração também ocorre enquanto a governadora Celina Leão (PP), adversária política de Lula, busca uma operação de R$ 6,6 bilhões com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cuja viabilização envolve uma controvérsia sobre as garantias de pagamento oferecidas para a União e levada ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Na carta, os trabalhadores afirmam apoiar a apuração das irregularidades e a responsabilização de quem tiver participado delas, mas cobram que a crise financeira e institucional não seja transferida aos funcionários. “Quando o presidente da República fala sobre o BRB, ele não está falando apenas de uma instituição financeira. Está falando também de milhares de homens e mulheres que dedicaram anos de suas vidas a esse banco e que hoje vivem um momento de enorme apreensão”.
O documento associa, ainda, que a posição do Planalto é resultado das divergências entre o presidente da República e a governadora do Distrito Federal. Segundo o manifesto, essas diferenças não deveriam transformar os empregados do banco em “dano colateral de uma disputa política”.
Relatório da PF (Polícia Federal) apontou que o BRB adquiriu cerca de R$ 17 bilhões em créditos do Banco Master, dos quais R$ 12,2 bilhões corresponderiam a títulos falsos. Após a deflagração das operações da Polícia Federal, o BRB afirmou ser vítima das irregularidades e diz ter substituído todos os integrantes da diretoria envolvidos nas operações investigadas. A carta encerra com uma defesa da preservação da instituição e dos servidores: “Nós não somos o problema. Somos parte da solução.”
Leia a íntegra do documento:
“CARTA ABERTA DOS TRABALHADORES DO BRB
Nós, trabalhadores e trabalhadoras do Banco de Brasília, recebemos com profunda tristeza e indignação as declarações feitas ontem pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o BRB.
Causa espanto ouvir do chefe do Poder Executivo uma manifestação tão irresponsável sobre uma instituição que é construída, todos os dias, pelo trabalho de milhares de pessoas.
Quem trabalha no BRB sabe o que existe por trás de uma sigla. Existem anos de dedicação. Existem carreiras inteiras construídas dentro do banco. Existem famílias que dependem desses empregos. Existem pessoas que acordam todos os dias para abrir uma agência, atender um cliente, analisar um crédito, manter um sistema funcionando e garantir que o banco continue prestando seus serviços.
É por isso que as palavras do presidente nos atingem diretamente. Nós não esperamos complacência com erros. Ao contrário. Queremos que tudo seja investigado, que os fatos sejam esclarecidos e que quem tiver responsabilidade responda por seus atos.
Mas esperamos do presidente da República uma postura compatível com a dimensão do cargo que ocupa. Esperamos que ele enxergue também os trabalhadores. Esperamos que enxergue as famílias que dependem desses empregos. Esperamos que enxergue aqueles que estão tentando manter o banco de pé em meio à maior crise de sua história.
Não somos responsáveis pelas decisões que estão sendo investigadas. Não fomos nós que criamos essa crise. E não aceitaremos ser tratados como se fôssemos parte descartável dela.
Quando o presidente da República fala sobre o BRB, ele não está falando apenas de uma instituição financeira. Está falando também de milhares de homens e mulheres que dedicaram anos de suas vidas a esse banco e que hoje vivem um momento de enorme apreensão. É justamente por isso que esperávamos responsabilidade, serenidade e respeito.
O presidente pode ter divergências políticas com o governo do Distrito Federal e pode fazer as críticas que entender necessárias. Mas os trabalhadores do BRB não podem ser transformados em dano colateral de uma disputa política. Mais do que ninguém, nós queremos investigação.
Queremos justiça. Queremos que os responsáveis sejam punidos. Mas queremos também respeito e comprometimento por quem trabalha honestamente todos os dias e por quem está lutando para que essa instituição supere este momento.
Nós não somos o problema. Somos parte da solução. E esperamos ser tratados dessa forma. Negar ao BRB a sua salvação e deixá-lo quebrar traz consequências para todos nós.
Brasília, setembro de 2026.
Trabalhadoras e trabalhadores do Banco de Brasília.”
Fonte: Reportagem – PlatôBR