“Ser jovem não exclui um evento cardíaco”: 26,8 mil pessoas com menos de 40 foram internadas por infarto
Por Luan Monteiro — Jornal Opção

O infarto deixou de ser uma preocupação associada apenas às faixas etárias mais avançadas. Entre 2020 e 2024, 26.845 brasileiros com menos de 40 anos foram internados por infarto agudo do miocárdio, segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). A maior concentração dos registros ocorreu entre pessoas de 30 a 39 anos, grupo que também apresentou tendência de aumento das hospitalizações no período.
O cenário chama atenção às vésperas do Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, e reforça a necessidade de prevenção cardiovascular ainda entre adultos jovens.
Ao Jornal Opção, o cardiologista Tarik Arcoverde explica que parte dos casos está relacionada a fatores de risco conhecidos, como hipertensão arterial, colesterol elevado, obesidade, tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada. O consumo excessivo de álcool, uso de outras drogas e de esteroides anabolizantes sem indicação também podem aumentar os riscos.
Ter uma rotina considerada saudável, no entanto, não significa estar completamente livre de problemas cardíacos. Algumas doenças hereditárias, alterações estruturais do coração e determinados tipos de arritmia podem atingir pessoas jovens mesmo na ausência dos fatores de risco mais comuns.
“Ser jovem e ter hábitos saudáveis não exclui a possibilidade de um evento cardíaco. Nessa faixa etária, muitas vezes a causa não é a doença das artérias, como ocorre com maior frequência em pessoas mais velhas, mas doenças cardíacas estruturais congênitas ou hereditárias, arritmias primárias e miocardites”, explica.
Algumas dessas condições podem permanecer silenciosas durante anos. Em determinados casos, a primeira manifestação pode ser um evento cardíaco grave, inclusive uma morte súbita.
Sinais durante exercícios exigem atenção
A atividade física regular permanece entre as principais medidas de proteção do coração. Isso não significa, porém, que sintomas apresentados durante os exercícios devam ser atribuídos automaticamente ao esforço físico.
Dor no peito, desmaio, palpitações, falta de ar fora do esperado, tontura persistente, cansaço desproporcional e queda de rendimento sem explicação são sinais que merecem avaliação médica, especialmente quando aparecem durante ou logo após a prática esportiva.
“Embora eventos cardíacos graves possam acontecer sem aviso prévio, esses sintomas precisam ser valorizados, inclusive entre os mais jovens. Um desmaio durante o exercício, por exemplo, é algo que precisa ser investigado”, alerta Arcoverde.
Para quem pretende começar uma atividade de alta intensidade ou aumentar significativamente a carga dos treinos, o cardiologista recomenda uma avaliação individualizada. O objetivo é identificar possíveis condições que possam representar risco durante o esforço.
A intensidade e o volume dos exercícios também devem aumentar de forma gradual, respeitando o condicionamento de cada pessoa.
Histórico familiar pode indicar risco mesmo sem sintomas
Além dos hábitos cotidianos, conhecer o histórico de saúde da família pode ajudar a identificar pessoas que necessitam de uma investigação mais detalhada.
Casos de morte súbita sem causa esclarecida em parentes de primeiro grau antes dos 50 anos, infarto precoce, cardiomiopatias ou familiares jovens que precisaram implantar marcapasso ou desfibrilador são informações que devem ser relatadas durante a consulta médica.
Segundo Arcoverde, o fato de uma pessoa ser magra, praticar exercícios e manter uma alimentação equilibrada não permite descartar completamente doenças cardiovasculares.
A prevenção, segundo ele, deve começar ainda na infância e na adolescência, com alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso e distância do cigarro, incluindo os dispositivos eletrônicos.
Nem todo jovem precisa de uma bateria de exames
A investigação de problemas cardíacos não significa que todas as pessoas jovens precisem passar por uma extensa sequência de exames. A necessidade depende dos sintomas, histórico familiar, fatores de risco e características individuais.
“Não existe um único exame que vá nos dar todas as respostas. Muitas vezes, uma consulta bem detalhada, associada a um eletrocardiograma e exames laboratoriais, consegue identificar alterações. Em outras situações, exames mais aprofundados podem ser necessários, e essa indicação deve ser feita pelo médico após a avaliação”, explica.
Apesar do aumento das hospitalizações entre pessoas mais jovens, o cardiologista ressalta que os dados não devem ser interpretados como motivo para evitar exercícios. Pelo contrário, a atividade física continua sendo uma das principais ferramentas para prevenir doenças cardiovasculares.
“O condicionamento físico e a capacidade aeróbica estão diretamente relacionados à saúde cardiovascular. O exercício é uma ferramenta fundamental de prevenção e não existe idade para começar. O importante é praticá-lo com segurança, respeitando a condição individual e mantendo o acompanhamento de saúde”, conclui.
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Fonte: Jornal Opção