Semiárido vive entre iniciativas sustentáveis e a disputa por recursos naturais
Por André Vieira — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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O semiárido brasileiro é um dos mais povoados do mundo: cerca de 28 milhões de pessoas vivem nos mais de mil e duzentos municípios que fazem parte deste território, segundo o Instituto Nacional do Semiárido. Uma das formas mais eficientes e comuns usadas para debelar a falta d’água, típica de épocas entre junho e setembro, são as cisternas, tecnologia popular que armazena a água das chuvas que caem entre fevereiro e maio.
Desde 2003, início do primeiro governo Lula, o projeto de cisternas, iniciado três anos antes, ganhou corpo e hoje beneficia 1,2 milhão de famílias do Rio Grande do Norte.
A turismóloga Raianne Kelly conta que, antes do sistema, era necessário buscar água no dessalinizador, em uma comunidade vizinha. “Desde que fizeram as cisternas, elas nunca secaram. A gente faz a manutenção e utiliza a água que vem da chuva tanto para cozinhar quanto para beber”, explica ao programa Bem Viver na TV.
Já para o pecuarista José Fernandes, o Duda, o sistema permitiu que ele permanecesse no campo, vivendo e encontrando seu sustento — o único de dez irmãos. “Eu acho que falta mais incentivo para o campo, para que essas novas gerações permaneçam no campo. É o seguinte: não está havendo sucessão”, afirma.
As cisternas para consumo humano têm capacidade para armazenar 16 mil litros de água. Em 2014, no governo Dilma Rousseff, houve um “boom” no sistema com a construção de quase 150 mil cisternas. Já com Jair Bolsonaro, em 2022, foram construídas menos de 4 mil.
“Antes demorava menos para chover, começava a chover em dezembro. Hoje em dia começa em janeiro, pouquinho, e só por março é que a chuva começa mesmo. O mundo está todo muito louco, né? Deve ser por causa das mudanças climáticas, não é?”, questiona a agricultora Maria Josete.
Além das cisternas, os sistemas de geração de energia a partir dos dejetos, como o biodigestor, também são um dispositivo sustentável nos aspectos econômico e ambiental. “Isso aqui produz gás para a minha cozinha. Posso passar até seis meses sem comprar gás. Meu marido ordenha as vacas, então traz o esterco da vaca e o coloca aqui neste tanque. Aqui ele dissolve na água e desce por um cano, para lá. Então, debaixo desta caixa, o gás é produzido, vai por aquele cano, até a minha cozinha”, conta Josete.
Se por um lado há políticas públicas eficientes e sustentáveis para uma parte da Caatinga, em Seridó, no Rio Grande do Norte, os processos de mineração e os impactos decorrentes deles também atingem o semiárido. Logo na entrada da cidade há símbolos que mostram a importância que a exploração de minérios tem na comunidade, que vem sofrendo com impactos ambientais e de segurança pessoal.
Moradora do Geoparque Seridó, Danielle Soares mostra os danos à estrutura da casa da família na zona rural da cidade, em meio aos ruídos de explosão nas minas realizadas pela mineradora canadense Aura. “Essas rachaduras têm, em média, um ano e meio, olha a situação do banheiro”, afirma, contando que os pais tiveram que abandonar a casa onde sempre moraram por riscos estruturais e hoje vivem na área urbana.
Rani Souza, integrante do Instituto Seridó Vivo, explica que existe hoje na região um modelo de extração bastante agressivo, que promove desmatamento de áreas grandes da Caatinga, próximas das comunidades.
“Há explosões diárias, de segunda a sexta-feira. Então, isso também está provocando tremores. E todo esse contexto, esse modelo de mineração, de extração, tem provocado grandes impactos nas comunidades próximas e também na cidade. As comunidades próximas têm muita poeira, as pessoas estão adoecendo muito por problemas respiratórios, e as casas estão rachando devido às explosões”, conta.
Outro grande impacto no semiárido diz respeito à geração de energia eólica. “Nós não somos contra as políticas de desenvolvimento. Agora, temos que saber para quem é esse desenvolvimento e com quem ele será feito. Vamos resolver os nossos problemas, vamos gerar riqueza no Rio Grande do Norte somente satisfazendo a ânsia de riqueza de uma empresa mineradora ou de um grupo econômico que trabalha com energia eólica ou com energia solar?”, questiona Francisco Teixeira, coordenador do Serviço de Apoio a Projetos Alternativos.
E tem mais…
Do outro lado do mundo, o Bem Viver traz também um exemplo inspirador: como a recuperação ambiental de um rio está unindo desenvolvimento econômico e preservação da natureza na China.
E, claro, tem receita! Gema Soto ensina uma versão fácil e saborosa do frango xadrez, com tempero especial.
Para fechar, uma passagem por Cuba: como professores, alunos e famílias se mobilizam para manter as escolas funcionando mesmo em meio à crise de energia.
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Fonte: Brasil de Fato