Sem lugar à mesa
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Trump volta a humilhar Volodymyr Zelensky e, de olho em bons negócios, a mostrar inclinação por Vladimir Putin
Se ainda havia alguma dúvida de que Donald Trump está do lado de Vladimir Putin na guerra na Ucrânia, ela foi dissipada por uma série de decisões anunciadas pelo presidente norte-americano no mês de outubro, dentre as quais o fim do embargo imposto desde 2022 aos combustíveis russos, a interrupção abrupta na cooperação com os sistemas antiaéreos ucranianos e a pressão para a Europa voltar a comprar o gás vendido pelo “inimigo”. “É doloroso quando Trump escolhe um lado que não é o nosso”, resumiu Volodymyr Zelensky, presidente ucraniano que tem colecionado sinais de traição desde o linchamento diplomático no Salão Oval da Casa Branca em fevereiro de 2025. O mais recente golpe na relação veio quando Trump defendeu publicamente a saída de Zelensky do poder.
Trump quer que a Ucrânia abra os gasodutos por onde passa o gás russo. A proposta foi levada por dois enviados do presidente norte-americano a Kiev, Jared Kushner e Steve Witkoff, em setembro, e causou espanto não apenas nos ucranianos, também na União Europeia. A ideia representa uma guinada brusca na posição de Washington. Até então, norte-americanos e europeus apostavam, juntos, em uma estratégia de estrangulamento econômico da Rússia como forma de obrigar Putin a retirar as tropas do território ucraniano e encerrar a invasão iniciada em fevereiro de 2022. Reverter a estratégia corresponde não apenas a reconhecer o fracasso do garrote econômico, mas premiar Putin pela tenacidade ao longo dos últimos quatro anos de guerra.
A interrupção da passagem do gás russo para a Europa deu-se em 2025, e resultou em uma perda de receitas anuais da ordem de 1 bilhão de dólares para a própria Ucrânia. Com a torneira fechada, o consumo europeu do gás da Rússia despencou: em 2021, o Velho Continente importava 45% do produto da Rússia. Em 2025, o porcentual caiu para 13%.
Imagem: Henry Nicholls/AFP
O argumento de Trump é simples. O conflito vive um impasse prolongado e caro e provoca efeitos econômicos para todos os envolvidos, incluída a Europa. Em países como França e Alemanha, os líderes de turno têm arcado com o ônus político-eleitoral de bancar uma estratégia dispendiosa e até aqui inócua, que pune os próprios cidadãos. A Alemanha, governada por Friedrich Merz, entende que comprar gás da Rússia, com ou sem intermediários, corresponde a fortalecer Putin, tido como uma ameaça militar certa. Além disso, voltar a apostar no trânsito de gás por esses dutos dá de novo à Rússia a chance de cortar o fornecimento a qualquer momento, o que, no fim, mantém os europeus vulneráveis e dependentes de Moscou no longo prazo. Resta saber por quanto tempo Merz consegue sustentar essa posição, pois os rivais da AfD (Alternativa para a Alemanha), de extrema-direita, têm crescido eleitoralmente a cada nova promessa de descongelar a relação com Putin, de modo a reaquecer a economia nacional.
Na França, o problema se repete: a extrema-direita liderada por Marine Le Pen venceria as eleições presidenciais de abril de 2027 se elas fossem hoje. Emmanuel Macron não pode disputar um terceiro mandato, e as alternativas a ele ainda patinam em primárias internas e outras indefinições. Nem mesmo os Estados Unidos estão isentos das preocupações eleitorais nesse xadrez. Trump tem hoje o pior nível de aprovação, a poucas semanas das midterms, as eleições parlamentares de meio de mandato que podem dar maioria aos rivais democratas tanto na Câmara quanto no Senado. Baratear o preço dos combustíveis no mercado mundial agradaria ao eleitorado norte-americano, mas é uma promessa que só poderia ser cumprida se desatados os nós dos impasses internacionais nos quais Trump se mete diretamente, como no caso do Irã ou, indiretamente, no caso da Rússia.
Desde a posse do republicano, o presidente ucraniano tem sido tratado como subalterno, um entrave à solução do conflito
A resposta de Moscou veio por intermédio de Dmitri S. Peskov, porta-voz de Putin: “A retomada da cooperação energética, tenha a forma que tiver, é de nosso interesse, mas, neste momento, é algo que pode ser ainda mais de interesse dos próprios europeus”.
Como de costume, a abordagem de Trump é comercial. Ele não parece se preocupar em honrar a aliança histórica com os europeus. Em um dos comunicados da Casa Branca sobre o tema, é dito que os Estados Unidos trabalham em “uma proposta de paz abrangente que inclui incentivos econômicos tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia como parte de um acordo final”, com o objetivo de não apenas “pôr um fim aos combates, mas criar condições para uma paz duradoura, recuperação econômica e maior estabilidade na região”. O acordo incluiria ainda negócios com data centers e a compra, por parte de investidores norte-americanos, incluindo o próprio governo dos Estados Unidos, de ativos da gigante russa de energia Lukoil. O movimento da Casa Branca é combinado com o de magnatas atentos às oportunidades de negócio. Parte da cobiça está ligada à operação de um gasoduto submarino que liga a Rússia à Europa, o Nord Stream 2. Depois de ter sido sabotado por uma explosão subaquática, em setembro de 2022, o duto espera por reparos. Meios de comunicação como The New York Times e Reuters apontam o magnata Stephen P. Lynch como o maior interessado em participar de um eventual consórcio para recuperar a infraestrutura submarina.
Enquanto as negociações comerciais acontecem nos gabinetes, os Estados Unidos agem no campo de batalha em favor dos russos. Na terça-feira 13, Zelensky reclamou de não ter recebido nenhum alerta antecipado dos parceiros norte-americanos a respeito de um novo bombardeio russo, que visou usinas de energia do país. “Nenhum alerta antecipado de nossos parceiros”, queixou-se Zelensky, um dia depois de os Estados Unidos terem ameaçado justamente cortar esse tipo de informação se a Ucrânia continuasse a atacar alvos na Rússia. No dia seguinte, foi a vez de a rede Starlink reduzir a velocidade do trânsito de dados em seus satélites, o que afetou diretamente a capacidade de detecção e reação do sistema antiaéreo ucraniano. Em alguns pontos do país, a velocidade de conexão da rede de propriedade do magnata trumpista Elon Musk caiu pela metade. “Haverá mortos, é claro, se os ataques continuarem e a Starlink não funcionar”, disse o presidente ucraniano. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem lugar à mesa’
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Fonte: Carta Capital