“Se não nos mobilizarmos, isso vai acabar”: Paulo Sérgio Pinheiro alerta para risco à democracia
Por João Antonio Cunha — Brasil 247
247 – Em participação no programa “O Barato da Idade”, o cientista político e professor aposentado do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Sérgio Pinheiro, fez um apelo pela mobilização ativa da sociedade civil e dos quadros acadêmicos no atual momento político do país.
Ao comentar a sua recente intervenção em um encontro com professores da USP, organizado pelo filósofo Vladimir Safatle, Paulo Sérgio Pinheiro expressou profunda preocupação com a postura de apatia ou neutralidade adotada por setores da universidade e das elites intelectuais. De acordo com o professor, é um erro crasso supor que a autonomia universitária, a ciência ou as instituições de pesquisa estarão preservadas sob um eventual regime de exceção.
“Se nós não nos mobilizarmos, isso vai acabar. É uma ilusão achar que ficando quietinhos, sem fazer nada, vocês vão continuar com a universidade pública. Não vão, porque para esses caras nós somos os inimigos a serem retaliados.”
— Paulo Sérgio Pinheiro, cientista político e professor aposentado do Departamento de Ciência Política da USP
Pinheiro sublinhou que a agenda da extrema-direita não visa apenas a gestão administrativa de um mandato, mas a desarticulação profunda do Estado democrático de direito e das instituições públicas — incluindo o estrangulamento orçamentário das universidades federais e estaduais e o aparelhamento de órgãos de Estado estratégicos.
As Lacunas do Progressismo e a Necessidade de Mudanças Estruturais
Para além do alerta imediato sobre a conjuntura eleitoral e institucional, o cientista político trouxe reflexões críticas sobre os limites das políticas promovidas pelo campo progressista ao longo das últimas décadas. Segundo Pinheiro, a preservação da democracia depende da capacidade de transformar concretamente a realidade e a cidadania das classes populares.
Entre os principais pontos levantados pelo cientista político durante a entrevista, destacam-se:
- Estagnação do Combate à Desigualdade: A necessidade de avançar além de programas de transferência de renda focados apenas no alívio imediato da pobreza, promovendo reformas estruturais capazes de alterar os indicadores de concentração de renda (como o Coeficiente de Gini).
- Defesa Intransigente da Pauta Antirracista: A urgência em combater o racismo estrutural e defender as políticas de ações afirmativas e cotas raciais, que sofrem constantes ameaças de desmonte.
- Violência de Estado e Segurança Pública: A denúncia das políticas estaduais de segurança pautadas no encarceramento em massa e nas execuções sumárias, que vitimam desproporcionalmente a juventude negra e moradora de periféricas.
- Reconexão com as Bases Populares e Religiosas: A importância de o campo progressista restabelecer o diálogo comunitário e respeitoso com a população evangélica de baixa renda, ocupando espaços sociais que foram desassistidos com o enfraquecimento histórico de movimentos sociais de base.
Resistência Democrática e Contexto Internacional
Analisando o cenário internacional, Paulo Sérgio Pinheiro apontou que a investida contra a democracia no Brasil se insere em uma onda global de extremismo de direita, com táticas semelhantes às observadas nos Estados Unidos, na Europa e em outros países da América Latina. O cientista político destacou, em especial, as investidas reacionárias voltadas a desacreditar e capturar o Poder Judiciário e os órgãos de controle institucional.
Concluindo a entrevista, o cientista político e professor aposentado do Departamento de Ciência Política da USP enfatizou que a sustentação da democracia exige uma postura de permanente vigilância e engajamento coletivo. Para Pinheiro, a defesa das liberdades fundamentais e dos direitos sociais não se esgota nos processos eleitorais, exigindo a presença ativa e a resistência contínua da sociedade civil organizada.
Fonte: Brasil 247