Santa coincidência, Batman! Os milhões da Cedro no instituto ligado a André Mendonça

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Por Marcos PędłowskiBlog do Pedlowski

Financiamento empresarial, encontro reservado com Daniel Vorcaro e investigações sobre mineração ilegal formam um circuito que exige mais do que notas protocolares

Uma reportagem do jornalista Cézar Feitoza, publicada pelo UOL, acrescentou uma peça particularmente incômoda ao conjunto de relações que envolve o ministro do STF André Mendonça e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O Instituto Iter, criado e até recentemente integrado pelo ministro, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding vinculada ao setor mineral e inserida em um ambiente empresarial que também manteve negócios associados a Vorcaro.

O repasse foi estabelecido em abril de 2024 por meio de um contrato de mútuo conversível no valor total de R$ 5,9 milhões. Não se tratava, portanto, de uma simples doação. Nessa modalidade, quem fornece os recursos pode receber o dinheiro de volta ou converter o crédito em participação na entidade financiada. A própria natureza do contrato exige que se esclareçam as razões pelas quais uma holding mineradora decidiu colocar milhões de reais em um instituto jurídico ligado a um ministro da mais alta Corte do país, bem como quais direitos, expectativas ou contrapartidas poderiam decorrer dessa operação.

O Iter afirma que os recursos foram utilizados exclusivamente em suas atividades e que decidiu interromper os repasses e iniciar a devolução em janeiro de 2026, quando já teria alcançado sustentabilidade financeira. Essa explicação, entretanto, não responde às perguntas centrais: quem negociou o contrato, quais eram as condições para sua conversão em participação, quais dirigentes conheciam os interesses empresariais envolvidos e por que a Cedro considerou estratégico financiar uma instituição vinculada a André Mendonça?

A situação se torna mais delicada porque Daniel Vorcaro esteve pessoalmente na sede do Iter, em março de 2025, para uma reunião reservada com o ministro do STF André Mendonça sobre precatórios. O encontro ocorreu fora das instalações oficiais do Supremo e não constava da agenda pública do magistrado. Posteriormente, André Mendonça tornou-se relator das investigações envolvendo o Banco Master, instituição então controlada por Vorcaro.

O Iter sustenta que nem o ministro nem o ex-banqueiro participaram das negociações com a Cedro e afirma ter impedido a participação de Vorcaro em um de seus eventos. As negativas precisam ser registradas, mas não eliminam a coincidência substantiva entre o financiamento milionário, o espaço institucional utilizado para o encontro e a presença dos mesmos interesses empresariais em diferentes pontos dessa rede.

A montanha, o dinheiro e as redes de influência

A Cedro está ligada a um grupo empresarial cujo controlador foi indiciado pela Polícia Federal em investigação sobre a exploração da Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A apuração integra a Operação Parcours, conectada ao conjunto de investigações da Operação Rejeito sobre irregularidades, corrupção e exploração mineral ilegal em Minas Gerais.

As empresas que operavam na área possuíam autorização para retirar minério anteriormente estocado e executar medidas de recuperação ambiental. Segundo a Polícia Federal, essa autorização limitada teria sido utilizada como cobertura para a extração continuada de minério novo, explorando economicamente uma área de enorme relevância ambiental, paisagística e cultural. A investigação aponta a retirada de milhares de toneladas de minério de ferro e menciona suspeitas de crimes ambientais, lavagem ou ocultação de recursos, corrupção ativa, tráfico de influência e pagamento de vantagem indevida a agentes públicos.

As defesas negam as acusações e sustentam que os fatos são antigos, já teriam sido investigados e não correspondem à atuação atual da Cedro. É igualmente necessário destacar que o indiciamento policial não representa condenação definitiva e que, até o momento, não há prova pública de que o dinheiro transferido ao Iter tenha origem em atividade criminosa.

Ainda assim, seria um erro tratar esses episódios como compartimentos isolados. A mineração ilegal não termina quando o minério deixa a montanha. O material extraído transforma-se em receita, circula por empresas, fundos, gestoras e investimentos e pode alimentar redes de acesso político e institucional. Investigar apenas a escavadeira que destruiu a Serra do Curral, sem acompanhar os caminhos percorridos pelo dinheiro, seria compreender apenas a parte mais visível de um circuito muito mais amplo.

Uma cronologia que não pode ser ignorada

Em abril de 2024, a Cedro acertou o financiamento de até R$ 5,9 milhões ao Iter. Em março de 2025, André Mendonça recebeu Daniel Vorcaro na sede do instituto para discutir precatórios. Em janeiro de 2026, o Iter decidiu antecipar o encerramento do contrato e começar a devolver os recursos. No mês seguinte, o ministro passou a relatar as investigações do Banco Master. Em junho, a Polícia Federal concluiu o indiciamento relacionado à exploração da Mina Granja Corumi. Em setembro, diante da ampliação das controvérsias, André Mendonça anunciou sua saída do quadro societário do instituto.

Essa sequência não prova que um acontecimento tenha determinado o outro, mas revela uma sobreposição de relações que produz um problema incontornável de integridade institucional. Para um ministro do STF, não basta alegar ausência de ilegalidade pessoal. A atividade judicial também depende da aparência de independência, da prevenção de conflitos de interesse e da inexistência de dúvidas razoáveis sobre a possibilidade de acesso privilegiado por empresários com negócios submetidos direta ou indiretamente ao Poder Judiciário.

Não há, até aqui, elemento público que permita afirmar que André Mendonça tenha participado da mineração ilegal, recebido pessoalmente recursos da Cedro ou atuado judicialmente em benefício da holding. Também não está demonstrado que os R$ 5,2 milhões repassados ao Iter tenham origem ilícita. Essas ressalvas são indispensáveis, mas não encerram o assunto.

O problema objetivo é que um instituto privado ligado a um ministro do STF recebeu financiamento milionário de uma holding pertencente a um grupo alcançado por investigações sobre mineração ilegal e conectado a negócios associados a Daniel Vorcaro. O mesmo instituto serviu de endereço para um encontro reservado entre o ministro e o então controlador do Banco Master, cujas investigações acabariam posteriormente sob a relatoria de André Mendonça. 

Diante disso, notas protocolares e uma retirada tardia do quadro societário são respostas insuficientes. A preservação da credibilidade do STF exige a divulgação integral do contrato de mútuo, de seus aditivos, dos valores efetivamente recebidos e devolvidos, das condições de eventual conversão em participação e da identidade das pessoas que negociaram a operação. Também exige uma avaliação transparente sobre eventual impedimento ou suspeição do ministro em processos envolvendo a Cedro, o Banco Master, Daniel Vorcaro e as demais empresas inseridas nesse circuito.

A reportagem não demonstra que André Mendonça tenha cometido crime, mas revela algo que já deveria ser considerado inaceitável: a existência de estruturas privadas ligadas a ministros do STF capazes de receber milhões de empresários, promover encontros reservados e criar áreas nebulosas entre produção acadêmica, financiamento empresarial, acesso privilegiado e influência institucional. Enquanto a Serra do Curral era convertida em minério e dinheiro, parte dos recursos desse mesmo universo empresarial chegava a uma instituição ligada a um ministro da mais alta Corte brasileira. Mesmo que ainda não configure prova de crime, isso já representa um grave problema para a credibilidade do Supremo e para a própria democracia brasileira.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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