Rumo aos 80%
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Governador mais bem votado do País, Rafael Fonteles diz que agora o debate é sobre rejeição e promete mais 10 pontos para Lula no Piauí
O petista Rafael Fonteles foi o governador mais bem votado do País em 4 de outubro. Com 70,90% dos votos, foi reeleito para governar o Piauí e viu sua aprovação refletir-se nos votos de Lula, que recebeu 70,99% no estado. Agora Fonteles quer mais, vai trabalhar para que o presidente chegue a 80%, colaborando para a virada sobre Flávio Bolsonaro. Fonteles esteve em reunião com Lula nos dias que se seguiram ao amargo primeiro turno e disse a CartaCapital como cada estado vai colocar em prática a sua estratégia para conseguir emplacar nas redes sociais a história que o PT precisa contar para convencer quem não votou a ir às urnas e quem votou em outros nomes que vote agora para reeleger o presidente. O governador aposta na reeleição do presidente que, acredita, levará a melhor em um debate sobre rejeição bem jogado nas redes, e explica por que considera o Nordeste decisivo mais uma vez para o desfecho das urnas.
CartaCapital: A liderança de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula no primeiro turno surpreendeu. Mas esse resultado poderia ter sido ainda mais favorável ao candidato da oposição não fosse o desempenho de Lula no Nordeste, com 21,5 milhões de votos, o equivalente a 63,77% dos votos válidos na região. Como o senhor analisa esse resultado e qual será o peso do Nordeste no segundo turno?
Rafael Fonteles: O Nordeste continuou sendo uma resistência importante, mas tivemos uma redução de quase 3% na votação em relação ao primeiro turno de 2022, em especial nos pequenos e médios municípios. Isso merece nossa atenção para recuperar esses votos no segundo turno. Mas, de toda forma, tivemos uma vitória expressiva. No Piauí, o presidente Lula ganhou nos 224 municípios. Agora é fazer uma reflexão e recuperar esse espaço no segundo turno. E dá para fazer isso de diversas formas: combatendo a abstenção e, principalmente, fazendo o uso das redes sociais. Eu mesmo estou gravando vídeos para orientar nossos apoiadores. No Piauí, queremos dar ao presidente 80% dos votos no segundo turno, vamos mobilizar e fazer carreatas nos 224 municípios do estado. Seria um retrocesso total para o Nordeste e para o povo mais pobre se Flávio Bolsonaro fosse eleito presidente.
CC: Como será esse uso das redes sociais?
RF: As redes sociais são muitíssimo importantes para fazer o contraponto com a extrema-direta. As pessoas no Brasil, em média, ficam 9 horas e 30 minutos conectadas. A gente perde nessa seara, quando se compara ao uso das redes dos candidatos da extrema-direita. Não perdemos na biografia, porque a trajetória de Lula é muito superior. Ele lutou para sobreviver, para estudar, lutou para ter um emprego, batalhou como o povo brasileiro batalha todos os dias. Lula fez entregas em todas as áreas da administração pública, mas, às vezes, a população não toma conhecimento porque a galera da direita, dominando as redes, dissemina fake news de um país pior. E isso reflete na intenção de voto do presidente. Agora, todos os líderes políticos do nosso campo terão de usar mais as redes sociais, inclusive o próprio presidente Lula. Isso é fundamental para a gente pautar nossa história e deve acontecer o tempo todo.
“Seria um retrocesso total para o Nordeste e para o povo mais pobre se Flávio Bolsonaro fosse eleito presidente”
CC: Nos dias seguintes ao primeiro turno, o senhor participou de várias reuniões com o presidente Lula para discutir estratégias para o segundo turno. O que foi decidido nesses encontros?
RF: Foram reuniões de escuta. O presidente escutou nossas experiências nos estados, os candidatos que ganharam e os que perderam. Tivemos 27 eleições, cada estado tem uma estratégia diferente. No Nordeste, por exemplo, com governadores aliados, a estratégia de mobilização é uma, mas em outros lugares é outra. Os encaminhamentos são muito no sentido de discutirmos estratégias de mobilização de rua, mas, sobretudo, nas redes sociais, pautando os temas que são mais importantes para fazer a comparação entre os dois projetos que estão em jogo. A eleição do segundo turno é diferente, é plebiscitária e nós temos de focar na comparação das duas candidaturas. Isso vai ficar claro também nos debates. São orientações básicas que foram dadas, mas cada liderança que estava lá vai cuidar e montar uma estratégia específica no seu estado.
CC: Qual o principal desafio: conquistar os eleitores de outros candidatos que disputaram o primeiro turno ou mobilizar os milhões de eleitores que votaram em branco, nulo ou não compareceram às urnas?
RF: Tem os que não foram votar, os que votaram em outros candidatos e tem até alguns que votaram no Flávio por não o conhecerem direito. Ou seja, há até um porcentual que pode, sim, sair do Flávio. Mas o principal foco é quem votou em outros candidatos e quem não foi votar. É um debate sobre rejeição. Vamos botar luz no problema que representará uma eventual vitória do Flávio em vários aspectos para o povo conhecer quem é ele. E isso só ganha velocidade se for feito pelas redes, que têm o poder de você falar com muito mais gente, mais rápido, rebater qualquer história falsa e mostrar a verdade de forma mais imediata.
CC: O presidente Lula tem uma trajetória conhecida e serviços prestados à população brasileira. Diferentemente de Flávio Bolsonaro, que tem relações suspeitas com a milícia e facções criminosas, além de acumular vários casos de corrupção no seu currículo. Mesmo com esse perfil, Flávio teve o voto de uma parcela bem expressiva do eleitorado. Como explicar esse cenário e o que está em jogo neste segundo turno?
RF: Eles conseguem lançar mais luz às narrativas que lhes interessam e colocam debaixo do tapete temas que os prejudicam, ao mesmo tempo que conseguem viralizar coisas negativas para o nosso lado, o que aumenta a nossa rejeição. Flávio Bolsonaro nunca bateu um prego numa barra de sabão, nunca trabalhou para lutar pela sobrevivência ou pelo sustento da sua família. Esse é um ponto que o afasta da realidade do povo brasileiro. Ele nunca ralou, sempre viveu de cargos políticos. Outro ponto é a questão da corrupção, ele está envolvido diretamente em vários escândalos já conhecidos pela sociedade, inclusive com ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro.
“Queremos conversar com o povo que tá ralando, tentando sobreviver, abrir seu negócio, que está tentando prosperar”, diz o governador – Imagem: Silvio Avila/AFP
CC: Além de recuperar a votação do Nordeste, é possível ampliar a votação do presidente Lula nas outras regiões?
RF: Dá para ampliar e diminuir a diferença em todos os estados onde Lula perdeu. Mostrar o legado do presidente e comparar os dois projetos. Não é bolsonarismo versus lulismo, é Flávio versus Lula: quem são, o que vão fazer se ganhar, o que pensam sobre cada um dos temas que realmente importam para o povo. Vamos falar de violência, corrupção, custo de vida, empreendedorismo. Por exemplo, em relação à segurança pública, o País está com o menor número de homicídios nos últimos dez anos e isso não é dito. Vamos falar mais sobre essa política. Lula fez muito, mas a comunicação com esse público não chega da forma como deveria. Queremos conversar com o povo que está ralando, tentando sobreviver, abrir seu negócio, que está tentando prosperar. E o vice-presidente Geraldo Alckmin será um grande interlocutor com esse público. Alckmin terá um importante papel nesse segundo turno, o que coloca em evidência também a disposição do presidente Lula em dialogar com quem não é do campo dele. Portanto, uma postura de muito mais estabilidade e menos radicalismo.
CC: Além da sua reeleição, o PT também reelegeu Elmano de Freitas, no Ceará, e Jerônimo Rodrigues, na Bahia. Pode chegar a quatro governadores, se eleger Cadu Xavier no Rio Grande do Norte, no segundo turno. Qual a expectativa em torno dessa disputa?
RF: Vamos eleger Cadu. Ele, inclusive, tem uma trajetória muito semelhante à minha, nunca tinha sido candidato, foi secretário de Fazenda e agora é candidato. Vamos à luta no Rio Grande do Norte. Cadu é uma esperança boa.
CC: Em relação aos outros governadores já eleitos que não estavam com o presidente Lula no primeiro turno, como Raquel Lyra em Pernambuco, a campanha lulista vai buscar apoio dessas lideranças?
RF: Sim, os ministros têm conversado com os governadores do Nordeste que não declararam apoio, tentando aproximá-los da campanha.
“Vamos botar luz no problema que representará uma eventual vitória do Flávio em vários aspectos para o povo conhecer quem ele é”
CC: O senhor acredita que o Supremo pode voltar a entrar na pauta eleitoral e influenciar o segundo turno? A gente já vê um movimento aí para anistiar os golpistas do 8 de Janeiro, começando com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
RF: Tudo que acontecer no Supremo vai repercutir na eleição. Qualquer decisão mais polêmica vai impactar no pleito. Isso é um problema, porque a Corte está no pior momento de credibilidade, gerando muita crítica e a população se revolta com o sistema.
CC: Como está a energia do presidente Lula, está animado para o segundo turno?
RF: Está animadíssimo, acredita genuinamente na vitória. Vamos à luta.
CC: Que mensagem o senhor deixaria para o eleitor brasileiro que volta às urnas no dia 25 de outubro para eleger o presidente da República para os próximos quatro anos?
RF: Primeiro, teremos uma virada histórica. Com as redes sociais, a migração de votos será muito rápida, gerando grandes mudanças na perspectiva da população. Segundo, é importante o engajamento de todas as pessoas, nas ruas e nas redes, nesta reta final, fazendo um comparativo dos dois projetos e dos dois candidatos. Isso é o que vai deixar mais evidente os riscos que Flávio Bolsonaro representa para o País. Lula é uma pessoa que tem semelhança com o povo brasileiro, o Flávio não. Flávio representa um risco para o País, porque é contra diminuir a carga de trabalho dos brasileiros, contra o aumento do salário mínimo acima da inflação, como o Lula sempre fez, ele tem desprezo pelo SUS, isso ficou evidente na pandemia. Eles não têm compromisso real com o combate à corrupção. Pelo contrário, estão envolvidos em escândalos como o do Banco Master. Esses temas podem desnudar o candidato adversário e vamos deixar claro isso nas redes sociais e nos debates. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rumo aos 80%’
Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco
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Fonte: Carta Capital