Romeu Zema e Mateus Simões tentam escapar de um ‘abraço de afogados’
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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Jornalista, é repórter especial na Repórter Brasil; venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog; dirigiu o documentário ‘Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia’ e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center
Separados na campanha e afundados nas pesquisas, padrinho e pupilo chegam à reta final das eleições dando sinais de desespero
Na sabatina do jornal O Tempo , na quarta-feira 16, o governador Mateus Simões (PSD) esbarrou num inconveniente da liberdade de imprensa: jornalistas fazem perguntas sem pedir licença. Tatiana Lagôa quis saber se o governo mineiro insistiria em reverter a suspensão do licenciamento ambiental na Serra do Curral, cartão-postal de Belo Horizonte. Bastou a pergunta para um chilique do candidato à reeleição.
Simões interrompeu Tatiana, acusou-a de apresentar uma tese política e uma “posição ideológica”. Sugeriu que ela se candidatasse e decretou: uma pergunta capaz de desafinar o coro dos contentes “diminui o tamanho da imprensa”. a jornalista respondeu que apenas cumpria seu ofício.
A Federação Nacional dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais e o Coletivo Lena Santos repudiaram a tentativa de descredibilizar uma jornalista negra por fazer uma pergunta de interesse público. A deputada estadual Lohanna França (PV) foi certeira ao chamar a cena pelo nome: “chilique”.
Em março, ao herdar o governo de Romeu Zema (Novo), escrevi nesta CartaCapital que o governador carregava um “ar de bedel de grupo escolar”. A sabatina mostrou um bedel de jurisdição ampliada, agora candidato a ombudsman geral da imprensa.
Não foi um episódio isolado. Em janeiro, a deputada Lud Falcão (Podemos) disse ter recebido uma ligação em tom de ameaça: se o marido, Luís Eduardo Falcão, então prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira de Municípios, não pedisse desculpas a Simões até a meia-noite, ele não deixaria “nenhum porteiro” do governo atender aos pedidos do casal.
Meses depois, Luís Eduardo virou vice de Cleitinho na chapa ao governo. Nas pesquisas, o homem de quem Simões exigia desculpas está numa chapa a anos-luz da dele.
Em abril, durante a entrega da Medalha da Inconfidência, o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo (PV), criticou o modelo de escolas cívico-militares defendido por Simões. Trocou “cívico-militar” por “cívico-militante”, defendeu uma educação “lúcida, transparente e democrática” e citou Rui Barbosa contra o militarismo.
Simões vestiu a carapuça. Acusou o anfitrião de descortesia, pediu aplausos aos militares e bradou: “Se há quem tenha vergonha do militarismo, essa casa não o tem”. Não parou por aí. Durante uma greve, ele mandou o sindicato dos professores “criar vergonha na cara”.
Na cabeça de Simões, o debate cede lugar ao enquadramento. Todo interlocutor vira subordinado. Se fosse mulher, provavelmente já teria virado capa de revista com um título do tipo: “As explosões nervosas do governador”.
Na política partidária, o método faz menos barulho, mas também serve para tirar adversários do caminho. Simões trocou o Novo pelo PSD em outubro de 2025. Buscava dinheiro, tempo de televisão e capilaridade política. De quebra, fechou a porta do partido a Rodrigo Pacheco, hoje no PSB e recém-aprovado pelo Senado para o TCU.
Pacheco migrou para o PSB, deixou Lula esperando, esnobou o cortejo presidencial, recusou a candidatura e anunciou que deixaria a política. Lula acabou escolhendo Patrus Ananias (PT), seu plano de emergência.
No Datafolha mais recente, Patrus marca 13% e o atual governador 4%. Na Quaest, o placar é de 11% a 8%, empate técnico, embora o petista apareça numericamente à frente. O maior problema de Simões é Cleitinho Azevedo (Republicanos), com 37% no Datafolha e 32% na Quaest.
Simões vende um governo ocupado em resolver problemas, não em sair por aí “para filmar buraco” numa provocação ao líder nas pesquisas. Na disputa pela tosquice da direita, Cleitinho faz Simões parecer um estagiário até esforçado, mas com carisma negativo.
O senador fez carreira com o celular na mão e o personagem do verdureiro que não deixou de ser povo. É um tosco original. Simões tenta o mesmo truque, mas entrega a espontaneidade de uma estátua de lata.
Enquanto Simões aparece numericamente em quarto lugar, atrás de Cleitinho, Patrus e do ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT), o padrinho enfrenta um vexame nacional. Nas pesquisas mais recentes, Romeu Zema (Novo) tem 2% no Datafolha, 1% na Quaest e na BTG/Nexus e 1,1% na Atlas/Bloomberg.
Nem em Minas, que governou por dois mandatos, é favorito: no DataTempo realizado no estado, caiu numericamente de 9,8% em agosto para 3,9% em setembro. Para compensar, grita desesperado nas redes sociais por um naco de atenção. Comeu banana com casca, faz jingles mabembes com inteligência artificial e ataca o STF dia sim, dia também.
Quem pariu Mateus que o embale, diz o ditado. Zema, porém, não parece disposto sequer a caber na mesma fotografia do pupilo. Desde 16 de agosto, Zema e Simões não participaram de um ato público juntos, como mostrou o repórter Leonardo Augusto, de O Tempo.
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Fonte: Carta Capital