Roberto Justus implorou a Vorcaro por aporte na SteelCorp e ameaçou pedir recuperação judicial
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O empresário Roberto Justus pressionou Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para concluir a conversão de um aporte feito na SteelCorp em participação societária e chegou a mencionar a possibilidade de pedir recuperação judicial da empresa caso o investimento permanecesse registrado como dívida. As informações constam de mensagens extraídas do celular de Vorcaro e analisadas pelo Poder360.
As conversas não apontam ilegalidade na operação nem na eventual adoção de recuperação judicial, mecanismo previsto em lei para empresas em dificuldades econômico-financeiras.
Em 1º de setembro de 2025, depois de meses de cobranças, Justus demonstrou frustração com a dificuldade de obter respostas e afirmou que precisava discutir a continuidade da companhia.
“Nunca na minha vida fiquei tão decepcionado com alguém. O que custa me receber por 1 horinha pra resolvermos esse assunto?”, escreveu.
Na sequência, relacionou diretamente a permanência do valor como dívida no balanço à possibilidade de recorrer à recuperação judicial.
“Se essa dívida continuar em meu balanço vou ter que pedir uma RJ e daí você vai perder todo o investimento. Vale a pena?”, afirmou.
Vorcaro respondeu que os aportes combinados haviam sido realizados, mas disse que a transformação dos valores em participação societária enfrentava dificuldades técnicas e jurídicas.
“Os aportes que acertamos foram cumpridos a duras penas. A conversão é algo que eu também quero e muito, mas existem entraves técnicos e jurídicos que não possibilitaram a conclusão”, declarou.
O fundador do Banco Master afirmou ainda que tentaria solucionar o impasse com a gestora responsável pela operação.
Assessoria diz que menção a recuperação judicial foi estratégia de negociação
Em nota enviada ao Poder360 na noite de quinta-feira (1º), a assessoria de Roberto Justus afirmou que a possibilidade de recuperação judicial foi mencionada como instrumento de pressão durante as tratativas, e não como anúncio de que a medida seria efetivamente adotada.
Segundo a manifestação, o empresário havia negociado em 2024 um investimento na SteelCorp estruturado como uma dívida conversível em ações. As discussões se prolongaram ao longo de 2025, até que Justus decidiu encerrar o acordo.
“A menção à recuperação judicial foi usada como uma estratégia para resolver o impasse, e não como um anúncio de que um pedido seria apresentado”, afirmou a assessoria.
A nota acrescenta que a conversão não chegou a ser concretizada e que Vorcaro não se tornou sócio da SteelCorp.
“As conversas mostram que o objetivo era encerrar qualquer relação empresarial, o que acabou acontecendo, e preservar a SteelCorp”, diz o texto.
A defesa também ressaltou que Justus se sentia desconfortável com a situação e buscou encerrar a relação antes da liquidação do Banco Master e da posterior prisão de Vorcaro.
Cobranças começaram ainda em 2024
As mensagens indicam que a insatisfação de Justus vinha de meses antes. Em 21 de dezembro de 2024, ele afirmou que tentava falar com Vorcaro sem sucesso e reclamou que um contrato assinado em agosto daquele ano ainda não havia resultado na conclusão do investimento.
“Em 40 anos como empresário, nunca tive tanta dificuldade em falar ou ter retorno como tenho com você”, escreveu.
Justus afirmou ainda que havia confiado na parceria e, por isso, deixado de buscar outras alternativas para a companhia.
Em janeiro de 2025, a preocupação passou a envolver também a liquidez da SteelCorp. O empresário disse que havia assumido uma dívida de curto prazo que precisava ser paga “com urgência” e voltou a pedir a antecipação dos recursos.
Justus citou “prejuízo imenso”
A pressão aumentou em abril. Justus afirmou ter assumido compromissos com base no acordo firmado com Vorcaro e disse que o atraso estava causando “grande sofrimento”.
Na ocasião, mencionou especificamente os primeiros R$ 80 milhões recebidos.
“[A]inda temos uma dívida dos primeiros 80MM sem nenhum documento assinado (conforme combinamos), confirmando que isso não é dívida mas uma antecipação”, escreveu.
Justus disse que o prejuízo estava sendo “imenso” e afirmou não querer recorrer a novos empréstimos ou prolongar a situação.
“Precisamos regularizar e terminar o aporte”, declarou.
“Você sumiu de novo como sempre”
As dificuldades de contato com Vorcaro continuaram ao longo dos meses seguintes.
Em julho, Justus voltou a reclamar que tentava falar com o banqueiro havia dias e manifestou desânimo com a relação. Em 6 de agosto, enviou nova cobrança.
“Você sumiu de novo como sempre. Ainda não foi resolvida a capitalização conforme você prometeu na nossa última conversa. Isso me atrapalha demais. Surreal o que estamos passando”, escreveu.
Pouco depois, afirmou novamente estar insatisfeito com a falta de retorno e disse que precisaria adotar medidas para evitar prejuízos maiores para a companhia.
Foi nesse ambiente de sucessivas cobranças que Justus citou, em setembro, a possibilidade de recuperação judicial.
Recompra foi discutida por R$ 130 milhões
Depois da troca de mensagens sobre a situação financeira da SteelCorp, os dois passaram a negociar uma saída para o investimento.
Em 2 de setembro, Vorcaro sugeriu um modelo de recompra da participação com pagamentos em até 60 parcelas e adoção de um mecanismo de “cash sweep”, pelo qual recursos excedentes poderiam ser usados para amortizar a dívida.
Justus questionou se Vorcaro era cotista do fundo envolvido. O empresário respondeu que sim e acrescentou que seria necessário estabelecer um fluxo financeiro para caracterizar a operação.
Vorcaro também afirmou que não pretendia cobrar juros.
Dois dias depois, Justus apresentou uma proposta formal de R$ 130 milhões para recomprar a participação, com prazo de cinco anos.
O desenho previa pagamentos anuais, antecipações vinculadas a dividendos e uma parcela final de R$ 65 milhões. A correção seria feita pelo IPCA.
Em outra mensagem, Justus afirmou que existiam R$ 143 milhões em notas comerciais e propôs converter esse montante em uma participação de 30% da SteelCorp para, no mesmo ato, recomprar a fatia por R$ 130 milhões.
As mensagens indicam que as condições continuaram sendo negociadas posteriormente, mas não permitem concluir, por si só, se a recompra foi efetivamente concluída.
Justus falou em “patrimônio negativo”
Em 11 de setembro, Justus voltou a relatar dificuldades financeiras da SteelCorp.
Em mensagem enviada a Vorcaro, afirmou que a empresa estava naquele momento “incapaz de honrar compromissos financeiros passados ou de obter novos financiamentos”.
De acordo com o empresário, a combinação de um passivo elevado com receitas ainda não concretizadas deixava a empresa com “patrimônio negativo” e dificultava a participação em concorrências.
“O problema é sobreviver até lá”, escreveu.
Justus disse ainda que precisaria fazer novo aporte de capital, já que não queria nem conseguia aumentar o endividamento. Também afirmou que preparava um roadshow para buscar investidores.
Apesar do quadro descrito, disse que pretendia manter o pagamento dos R$ 130 milhões negociados com Vorcaro, mas pediu a inclusão de uma condição específica para a última parcela de R$ 65 milhões.
Vorcaro respondeu que não pretendia inicialmente deixar o negócio e disse ter investido por confiar pessoalmente em Justus.
“Entrei nesse negócio tão somente por você”, afirmou.
Ele disse que aceitava sair da operação “sem qualquer prêmio” e com pagamento em prazo longo, mas considerava necessário garantir ao menos a recuperação do valor aportado ao longo do tempo.
O Poder360 informou que procurou Roberto Justus para saber se a SteelCorp chegou a preparar ou avaliar formalmente um pedido de recuperação judicial, como o aporte foi contabilizado e se a conversão seguida de recompra foi concluída.
Fonte: Brasil 247