Religião e política: desafio de sempre e das próxima horas

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Por fernandaestimaFundação Perseu Abramo

Tal formulação não provém de nenhum teólogo. De Marx, dele mesmo. Está em Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel, citado no prefácio do livro de Rosa Luxemburgo, O Socialismo e as Igrejas, escrito pelo professor do Instituto de Estudos Avançados em Educação da Fundação Getúlio Vargas, pesquisador do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), Elter Dias Maciel.

Tenho dialogado sobre religião, especialmente sobre o cristianismo, a partir da leitura da notável biografia escrita por José Paulo Netto em torno da vida de Marx, onde ele aprofunda a enorme formulação teórica do pensador. No dia 29 de setembro deste ano, promovo debate “Marxismo, religião e política”, na Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), em Salvador, com base no livro O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem, escrito por mim, fundado no trabalho de Paulo Netto, a ser lançado em seguida.

Do debate, participarão a professora Elizete Silva, doutora em História, Everaldo de Jesus, mestre em História, e Felipe Freitas, doutor em Direito. Eu, mediador. Um momento de reflexão, essencial nesses tempos turbulentos, quando acontece uma eleição decisiva para nossos destinos, onde está em causa a democracia, a distribuição de renda, a justiça social e a soberania. De Marx, de costume, recolhe-se a frase “a religião é o ópio do povo”, em geral como meio de satanizá-lo. Nada mais falso. No livro escrito por mim, a partir do extraordinário trabalho de Paulo Netto, desenvolvo um pouco isso.

Estado e sociedade produzem a religião, para Marx, consciência invertida do mundo. Na sequência, no entanto, o pensador revela o alcance da visão dele:

“A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”.

Mais: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma”.

O tratamento cuidadoso com a religião, a visão antropológica larga, plena de humanismo, de compaixão com as dores do mundo, não o faziam condescendente com a crença mítica em um Deus, claro.

Na visão dele, “a abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real”.

Tanto tempo passado, quase 180 anos, e esse objetivo soa como um alerta diante de tantas iniciativas religiosas fundadas na exploração dos fiéis, em amplo sentido, e no específico de construir, a partir deles, incríveis fortunas. Milhões de pobres, ancorados na fé verdadeira, subsidiam posses milionárias de pastores obcecados pelo dinheiro, muito distantes dos ensinamentos do cristianismo, ao menos do cristianismo primitivo.

O assunto está na ordem do dia. Nunca posto como combate à fé ou à religião. A liberdade de crença é sagrada. O Estado democrático de direito consagrou tal liberdade. Assegurou o respeito a quaisquer crenças, princípio do Estado laico. Nunca pretender um Estado fundado em uma religião específica. Separar sempre religião e Estado, sob pena do surgimento de teocracias inaceitáveis porque tendentes a sacrificar as liberdades, inclusive a de crença.

A discussão impõe-se no caso brasileiro pela evidente manipulação da fé por alguns pastores mergulhados na adoração do deus dinheiro, bezerro de ouro, e não na defesa dos melhores princípios do cristianismo, se nos concentramos nessa crença. Importante ressaltar a existência de pastores evangélicos sinceramente empenhados em promover os sagrados ensinamentos cristãos, inclusive o da solidariedade, da fraternidade, ajuda mútua na comunidade de fiéis.

Digo isso para não sermos levados a uma posição sectária, de condenação a priori de evangélicos, inclusive neopentecostais, os quais, como qualquer crença, devem ser respeitados. Para não nos recusarmos ao diálogo, e não é raro tal atitude por setores de esquerda, um óbvio equívoco.

Ao contrário, observada a diversidade, o amplo leque religioso e, também, o crescimento das igrejas evangélicas, a caminho de virem a se constituir em crença hegemônica no Brasil, impõe-se, para toda a sociedade brasileira, a construção de um clima de diálogo, de respeito entre as tantas crenças.

Com isso, evita-se qualquer tipo de anátema e a construção de climas de ódio, como vem ocorrendo a partir de iniciativas de alguns poucos e poderosos pastores, preocupados em continuar a utilizar-se da fé como elemento de enriquecimento, como já dito. O diálogo, o respeito a quaisquer crenças, impede também o progresso de uma visão raivosa, alimentada pelo fascismo, pelo bolsonarismo, a fazer da fé um uso político inaceitável, a pretender a existência de um Estado teocrático, impulsionador do neoliberalismo, e não à defesa dos melhores valores do cristianismo.

Sinto-me à vontade para defender a convivência fraterna entre religiões. Não só entre crenças diversas, como no interior de cada religião. No Brasil, o mundo religioso é incrivelmente diverso, e obviamente não se restringe ao cristianismo. Neste, no entanto, fé dominante, há uma diversidade de pensamentos e práticas. Há, no cristianismo, alas a defender o ecumenismo, a respeitosa convivência entre orientações religiosas diferentes. Outras, a pretender o isolamento, a considerar-se dona da revelação divina, a, por exemplo, maldizer o candomblé, de tanta presença na sociedade brasileira, enorme contribuição religiosa e cultural.

Curiosamente, o fato de não ter sido beneficiado pelo dom da fé, me concede a facilidade espiritual de respeitar todas as crenças. Meu ateísmo garante isso. De fato, respeito-as, e profundamente. Tenho excelentes relações com o mundo protestante, e o chamo assim pensando nos presbiterianos e batistas, por exemplo. Tive convivência com pequenas igrejas evangélicas espalhadas pela Bahia. Tenho um diálogo muito rico e permanente com o candomblé, com casas centenárias devotadas a uma religião cuja sobrevivência é quase um milagre, porque nascida no Brasil sob a odiosa escravidão, vigente por mais de três séculos. Diálogo com judeus, ao menos com aqueles não contaminados pelo sionismo, os que combatem o genocídio de Gaza.

E com a igreja católica, tendo inclusive feito a biografia de um extraordinário padre, Renzo Rossi. Foi ele a tentar me convencer que Deus escolhe a quem dar o dom da fé, sob meus protestos. Então, disse eu, um Deus excludente. E seguimos numa discussão sem fim, até porque ele não iria abrir mão da fé dele, a lhe possibilitar uma existência cristã de pastorais identificadas com o povo, inclusive uma ligada aos prisioneiros políticos, a mais impressionante de todas, revelada no meu livro As asas invisíveis do padre Renzo. E eu, não iria abrir mão do pensamento materialista, infenso à crença religiosa, não obstante, como insisto, respeitando todas de modo rigoroso.

Diria: Marx e Rosa Luxemburgo, de alguma forma, se encontram na ideia de o dinheiro rebaixar todos os deuses do homem. Num pequeno livro, Rosa produz belo trabalho sobre o comunismo praticado pelo cristianismo na fase inicial, a ofender quem sabe os bolsonaristas acostumados a demonizar um comunismo do qual não tem a mínima ideia. Evidencia as razões pelas quais aquela prática comunista, de divisão de bens, tudo tornado comum, falhou, sobretudo, porque não houve a discussão sobre os meios de produção dos ricos, a permanecer intactos.

Vale-se, é, Rosa vale-se dos Atos dos Apóstolos, onde se diz não haver entre os participantes da primeira comunidade cristã de Jerusalém ninguém necessitado. Os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Tal produto era distribuído de acordo com a necessidade de cada um. Os cristãos dos séculos I e II, ela diz, foram adeptos fervorosos do comunismo, daquela espécie de comunismo.

Ela, no entanto, faz questão de esclarecer: tal comunismo, baseado no consumo de produtos acabados, mostrou-se incapaz de reformar a sociedade e de pôr fim à desigualdade entre os seres humanos, derrubar a barreira a separar ricos de pobres. Toda riqueza criada pelo trabalho restava nas mãos de restrito grupo de possuidores. Os meios de produção, especialmente a terra, permaneciam propriedade individual porque o trabalho – para toda a sociedade – era incumbência dos escravos.

Os primeiros cristãos acreditaram que podiam remediar a situação dos pobres por meio das riquezas oferecidas pelos possuidores. Não podiam. O comunismo cristão foi não só incapaz de mudar ou melhorar a situação econômica, como não subsistiu. E a pá de cal em qualquer perspectiva de igualdade, deu-se com o surgimento do clero, sobretudo a partir do século IV. A Igreja, então, passa a concentrar riqueza, e esquece os fiéis, deixa de lado os pobres, alimentando-os com a promessa da vida eterna e colocando-se ao lado das classes dominantes. E isso se deu por secula seculorum amém. Vale a pena a leitura.

Ao caminhar para a finalização, registro apropriada advertência do pesquisador do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER), professor Elter Dias Maciel, de modo a evitar simplificações reducionistas, como a de acreditar ser a Igreja Católica – nossa prosa está se dando em torno dela, mas o raciocínio pode ser aplicado a qualquer crença – ser a Igreja algo compacto, militarizado, sempre obediente ao Papa e aos ditames das classes dominantes. Isso seria falsear a história dela, em cujo interior se apresentam as contradições da sociedade, onde se dá, também, a luta de classes, inegavelmente.

Não fosse assim, e não a teríamos, os combatentes contra a ditadura, como aliada fundamental, a nos ajudar no enfrentamento do terror daquele tempo, nem haveria, nos dias atuais, tantos sacerdotes, freiras voltadas ao trabalho popular. Por verdadeiro, não se deve esquecer ter havido uma óbvia ofensiva contra a Teologia da Libertação, expressão de uma corrente poderosa a se confrontar contra injustiças na América Latina, marca de uma intensa luta interna, levando o papado a medidas extremas para sufocá-la, medidas de alguma forma vitoriosas.

As igrejas podem cumprir um papel civilizatório. Podem assumir o amor como um sentimento real, voltado sobretudo às classes trabalhadoras, aos mais pobres. Podem e devem. Para tanto, fundamental, dispor-se ao diálogo, à convivência entre si, respeitando-se, e isso nunca significa abrir mão dos postulados de fé de cada uma delas.

E nessa luta dos dias atuais, quando estamos entre a democracia e a barbárie, e só há dois lados aqui, entre a candidatura de Lula e a do filho do ex-presidente golpista, atualmente preso, só há uma posição favorável ao diálogo, ao respeito mútuo, à convivência democrática, à recusa a qualquer imposição religiosa, sabem todos. O outro lado é o ódio, e nem precisamos nos referir ao envolvimento com o crime organizado, com as milícias, com o PCC, rachadinhas, diabo a quatro, com a mais deslavada corrupção, incluindo a relação íntima com o Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Aos envolvidos na ampla frente em defesa da eleição de Lula cabe um diálogo intenso nos próximos dias com todas as crenças de modo a fazer compreender ser esta a eleição de nossas vidas. Ou seremos um país democrático, insistindo no sagrado direito de cada crença de afirmar a fé dela, ou então, barbárie, com a tentativa de instaurar a sociedade do ódio, pretendendo afirmar uma única fé. Ou o dinheiro rebaixando todas as religiões, ou a mais absoluta liberdade religiosa, fundada no diálogo, na convivência fraterna e respeitosa. Neste caso, Lula. Não há outro.

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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