Relatório revela atuação sistemática de Israel para eliminar as condições de vida dos palestinos na Cisjordânia
Por Redação Internacional — Esquerda Diário

Publicamos a seguir, para o interesse de nossas leitoras e leitores, um artigo do jornal britânico The Guardian sobre o relatório da organização israelense de direitos humanos B’Tselem. O documento apresenta um levantamento da situação na Cisjordânia, demonstrando que Israel atua sistematicamente para “eliminar” as condições de vida dos palestinos.
Manifestantes palestinos e jornalistas fogem dos gases lacrimogêneos disparados pelas forças repressivas israelenses que bloqueavam uma estrada que leva a um assentamento israelense recém-construído perto de Dura, na Cisjordânia, em junho. Foto: Hazem Bader/AFP/Getty Images
Segundo um importante relatório publicado pela organização de direitos humanos B’Tselem, Israel está trabalhando para a “eliminação” sistemática das condições que sustentam a vida coletiva palestina na Cisjordânia ocupada.
O contundente relatório da organização israelense, compartilhado com o The Guardian antes de sua publicação, afirma que Israel está “intensificando drasticamente seus ataques contra todos os aspectos da vida palestina na Cisjordânia”, incluindo “a possibilidade de ir trabalhar, levar as crianças à escola ou à universidade, receber tratamento médico ou serviços municipais, reunir-se com familiares e amigos, cultivar a terra ou sair de férias… atividades cotidianas que compõem a vida humana”.
Segundo a B’Tselem, o ataque contra os palestinos é “regido por uma lógica organizacional coerente” e compreende cinco “âmbitos de ação inter-relacionados”: violência e intimidação, restrições à liberdade de movimento, estrangulamento econômico, destruição social e política, e limpeza étnica e anexação territorial.
A publicação do “Projeto de Eliminação” — o trabalho mais abrangente da B’Tselem sobre a Cisjordânia desde a sua criação, em 1989 — ocorre menos de uma semana depois de o ministro das Relações Exteriores britânico, Ed Miliband, ter acusado colonos terroristas, apoiados pelo governo de Benjamin Netanyahu, de promoverem uma limpeza étnica na Cisjordânia; trata-se da condenação mais contundente de Israel por parte do Reino Unido desde a fundação do Estado.
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Ao analisar de forma mais ampla as condições necessárias para a existência coletiva dos palestinos, o relatório da B’Tselem vai ainda mais longe. Afirma que diversos braços do Estado israelense — liderados por Bezalel Smotrich, o ministro das Finanças de extrema-direita com amplos poderes sobre assuntos civis na Cisjordânia — buscam “criar uma realidade na qual milhões de palestinos vivam sob o temor constante da violência militar e civil israelense”.
“As comunidades palestinas estão sendo expulsas em um processo acelerado de limpeza étnica, enquanto, em seu lugar, estabelece-se uma presença israelense crescente na forma de assentamentos, postos avançados, fazendas e infraestrutura civil exclusivamente judaica”, afirma o relatório. “A eliminação, neste contexto, implica danos contínuos às condições que permitem aos palestinos existir como povo — com terra, instituições, idioma, cultura, laços sociais, liderança, memória e história compartilhadas, além de um horizonte social e político.”
“Trata-se de um projeto político em curso que busca reorganizar o espaço e as condições de vida para que a presença judaica se torne contígua, institucionalizada e permanente, enquanto a existência palestina se fragmenta, tornando-se vulnerável e dependente.”
Um dos aspectos mais evidentes dessa fragmentação é o fechamento de estradas e vilarejos à passagem de palestinos, bem como o abandono de lares palestinos sob uma pressão implacável.
Recentemente, nos arredores do vilarejo de Sair, Haytham Adnan Murad, de 49 anos, voltava de uma consulta médica em Hebron com sua filha, Balqis, de 12 anos, que não consegue caminhar devido a uma cirurgia recente. Um portão de acesso à estrada que leva ao seu vilarejo, aberto pela manhã, havia sido fechado pelo exército israelense, obrigando Murad a descer do táxi em que viajava com a filha e carregá-la no colo para passar pelo bloqueio.
“Quando saímos, o portão estava aberto. Agora está fechado, mas é assim a vida cotidiana”, disse ele. “De manhã, as coisas são diferentes de como são à tarde. Isso não tem dignidade.”
Os autores do relatório associam a aceleração da ofensiva israelense contra a vida na Cisjordânia ao período posterior ao ataque do Hamas contra comunidades do sul de Israel, em 7 de outubro de 2023. No entanto, sustentam que a ideologia subjacente que a motiva é anterior a esse período.
Em particular, apontam para um documento conhecido como “Plano Decisivo”, publicado por Smotrich em 2017 — antes de ele se tornar ministro —, o qual descrevem como o “documento-chave para compreender a ação israelense na Cisjordânia”.
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Segundo a B’Tselem, o plano oferecia aos palestinos três opções: “Viver sob a supremacia judaica renunciando às suas reivindicações nacionais, abandonar o território ou enfrentar a repressão violenta do exército israelense caso resistissem”. O relatório acrescenta que esse plano se traduziu, com rapidez e transparência sem precedentes, “em políticas, orçamentos, poderes e práticas exercidas pelos diversos braços do Estado”.
Portanto, prossegue o relatório, a violência dos colonos já não “opera apenas como violência privada ou violação da ordem pública”, mas sim como parte de um “sistema de controle mais amplo”.
“Por vezes, ela ocorre em conjunto com soldados, com o respaldo das forças de segurança, utilizando armas, equipamentos e infraestrutura fornecidos pelo Estado, e com impunidade quase total.”
Além dos incidentes já bem documentados de escalada da violência por parte dos colonos, o relatório destaca outros aspectos corrosivos do crescente controle israelense sobre a Cisjordânia, incluindo as devastadoras restrições econômicas e as repercussões na educação e na cultura.
A taxa de desemprego na Cisjordânia passou de 13,1% em 2022 para 31,3% em 2024
Segundo o relatório, Israel implementou, desde 2023, uma política sistemática de “estrangulamento econômico total”, que negou oportunidades de subsistência, destruiu infra estruturas civis e agrícolas, reforçou o controle sobre os recursos e o sistema bancário e minou a capacidade das instituições públicas de fornecer serviços básicos.
Em setembro de 2025, Smotrich afirmou que empregaria todos os meios possíveis “para impedir o perigo de um Estado palestino, incluindo o colapso da Autoridade Palestina… por meio do estrangulamento econômico”.
A revogação em massa de autorizações de trabalho deixou trabalhadores e suas famílias sem renda estável. Isso se reflete nos dados da Cisjordânia citados no relatório. A taxa de desemprego, por exemplo, aumentou de 13,1% em 2022 para 31,3% em 2024 e, em 2025, quase metade dos jovens não tinha emprego nem estava matriculados em cursos ou programas de formação profissional.
A ONU estimou que, em 2024, 700 mil palestinos na Cisjordânia precisaram de ajuda para comprar alimentos, o que representa um aumento de 17% em relação ao ano anterior.
Desde outubro de 2023, Israel também intensificou os ataques contra diversas organizações e associações palestinas na Cisjordânia. Grupos comunitários e de base, bem como organizações que protegem trabalhadores, pessoas carentes e crianças, sofreram frequentes invasões em seus escritórios, fechamentos forçados, assédio sistemático e a detenção injustificada de funcionários, voluntários e ativistas.
O Cogat, unidade militar israelense responsável por supervisionar a política civil na Cisjordânia e em Gaza, foi contatado para comentar o assunto.
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Em uma entrevista realizada por ocasião da publicação do relatório, Kareem Jubran, responsável pela pesquisa de campo da B’Tselem na Cisjordânia, declarou: “O que descobrimos é que não se trata de incidentes isolados. Todos os elementos díspares compartilham um mesmo caráter, um mesmo objetivo. Se analisarmos a situação como um todo, chegamos a uma única conclusão: a de que o objetivo principal é eliminar os palestinos enquanto coletividade”.
Yuli Novak, diretor executivo da B’Tselem, declarou: “O que dizemos no relatório é que isso continua. O projeto já existia, mas agora estamos em uma nova fase”.
“Começou no final de 2022, com a mudança de governo [para uma coalizão de direita e extrema direita], e vimos outra escalada notável após outubro de 2023. Estamos falando de um ataque contra a vida palestina na Cisjordânia que mudou de escala. É um fator quantitativo que mudou, tornando a Cisjordânia cada vez mais inabitável para muitos palestinos.”
Novak descreveu o plano de Smotrich de 2017 como o “modelo a ser seguido”. “Ele mostra o caminho ideológico e operacional para alcançar o que chamamos de eliminação”, afirmou. “E ele denomina isso de vitória por meio da solução. Vencer de forma definitiva para que nada [como um Estado palestino] possa acontecer depois”.
Todos os dados e números foram fornecidos pela B’Tselem.
Fonte: Esquerda Diário