Relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU acusa EUA de “crimes de guerra no Irã”
Por Hora do Povo — Hora do Povo
“Todos agora reconhecem que o que aconteceu foi um crime de guerra flagrante, não um erro operacional”, enfatiza vice-chanceler Qaribabadi, sobre as chacinas da escola primária em Minab e do ginásio de esportes em Lamerd, perpetradas pelos EUA
“Os Estados Unidos não podem se esquivar de sua responsabilidade retirando-se do Conselho de Direitos Humanos”, disse o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores para Assuntos Jurídicos e Internacionais, Kazem Qaribabadi, na sexta-feira (18), reagindo ao anúncio, por Washington, de sua fuga do Conselho de Direitos Humanos da ONU, após apresentação preliminar na véspera das conclusões da Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos da ONU sobre a agressão ao Irã.
A missão de investigação considerou crimes de guerra os ataques dos EUA à escola primária Shayarei Tayebe em Minab e a um complexo esportivo em Lamerd de 28 de fevereiro em que foram mortos quase 200 civis, a imensa maioria crianças e jovens, assinalando haver “motivos razoáveis” para a imputação das forças americanas.
O porta-voz da Secretaria-Geral da ONU, Stéphane Dujarric, chamou as conclusões de “chocantes, para dizer o mínimo”. Embora não faça parte do atual conselho, os EUA têm direito a voz nos debates, o que Trump busca evitar.
Constituído por 47 países eleitos pela Assembleia Geral da ONU, o Conselho debaterá o relatório nesta segunda-feira (21). O órgão realiza sua 63ª sessão ordinária em Genebra, que começou em 7 de setembro e está prevista para durar até 7 de outubro.
Em mensagem na rede social X, Qaribabadi afirmou que “todos agora reconhecem que o que aconteceu em Minab e Lamerd foi um crime de guerra flagrante, não um erro operacional”, referindo-se ao bombardeio da escola primária em Minab e de Lamerd.
“A história não esquecerá que em Minab uma escola foi manchada com o sangue de 168 crianças e que, em Lamerd, um campo de esportes se tornou um matadouro para civis!”, enfatizou o oficial iraniano.
Já para Trump, a investigação de seus crimes só pode ser retórica “anti-americana e antissemita”.
Apesar da falta de resposta dos EUA aos pedidos de informação da missão de apuração de fatos, os especialistas da ONU disseram encontrar “motivos razoáveis para acreditar que os EUA cometeram o crime de guerra de lançar um ataque indiscriminado resultando em perda de vidas, ferimentos a civis ou danos a objetos civis.”
O relatório apontou ainda para a “despriorização da mitigação do dano a civis e cumprimento do DHI [Direito Humanitário Internacional] de parte do governo Trump, expressa através de declarações públicas por lideranças sênior dos EUA, incluindo o presidente e o secretário de defesa”.
“SEM REGRAS DE ENGAJAMENTO ESTÚPIDAS”
O secretário de Defesa [ele prefere ‘da Guerra’] Pete Hegseth disse no início da agressão ao Irã que os EUA dispensariam “regras de engajamento estúpidas” – que visam proteger civis sob a lei internacional – e que as forças dos EUA choveriam “morte e destruição do céu o dia inteiro”.
O próprio Trump – como denunciaram 100 especialistas em direito internacional das principais universidades americanas – disse em janeiro “não precisar do direito internacional” e, em março, prometeu ataques ao Irã “apenas por diversão”, chegando até mesmo a ameaçar “fazer coisas tão ruins que literalmente nunca mais poderiam reconstruir como nação”.
“A missão considera que a falha dos Estados Unidos em atualizar informações relacionadas à escola em seus bancos de dados de alvos e em verificar que o prédio era um objetivo militar antes de lançar o ataque foi além de mera negligência”, diz o relatório.
“Na verdade, os EUA direcionaram os ataques ao prédio da escola enquanto estavam cientes do risco substancial de atingir um objeto civil e agiram de forma imprudente quanto à possibilidade de isso acontecer.” Mais de 150 pessoas foram mortas no ataque, incluindo 120 crianças.
ATAQUE DE FRAGMENTAÇÃO
Os especialistas da ONU também disseram que o complexo esportivo e a área residencial em Lamerd, em 28 de fevereiro, eram “claramente identificáveis” como alvos civis, e que a arma usada no ataque — os Mísseis de Ataque de Precisão (PrSM) fabricados pela Lockheed Martin que dispersam projéteis de tungstênio por uma ampla área — mostram que o ataque “constituiu um ataque indiscriminado em violação do princípio da distinção” entre civis e alvos militares.
Os mísseis, disseram os especialistas, “não podiam ser direcionados a um objetivo militar específico e seus efeitos sobre civis e objetos civis não podiam ser limitados conforme exigido pelo DIH. Os EUA estavam sob a obrigação do DIH de empregar sistemas de armas e munição que atendessem a esses requisitos”.
A equipe da ONU informou que 22 civis foram mortos no ataque em Lamerd, incluindo quatro crianças em idade escolar e uma menina de dois anos que foi morta enquanto brincava em frente à sua casa. De acordo com o Irã, também foram feridos 130. Na época, o Comando Central dos EUA (Centcom) chegou a negar haver perpetrado o ataque.
“DOIS TOQUES”
A chacina da escola primária de Minab chocou o mundo inteiro: um ataque de ‘duplo toque’, típica operação para aumentar o número de vítimas, em que foram usados mísseis Tomahawk. Os sobreviventes do primeiro ataque chegaram a se juntar em um prédio, logo em seguida atingido. Conforme o relatório, aescola era um edifício civil claramente identificável, condição que mantinha há uma década, nada havia que indicasse uso para fins militares.
Contra o ginásio de esportes de Lamerd e áreas residenciais, o Pentágono simplesmente testou um novo míssil, o PrSM, com ogiva de fragmentação de tungstênio, uma completa perversidade. Fabricado pela Lockheed e guiado por um sistema de navegação inercial assistido por GPS, cada míssil PrSM carrega 180.000 esferas de tungstênio.
O primeiro míssil explodiu sobre o bairro residencial de Isar; o segundo, um pouco mais distante, sobre a área residencial de Toljandaq; o terceiro detonou novamente sobre Isar; e o quarto explodiu sobre uma escola primária e o complexo esportivo Shahid Naimi.
DECISÃO PREMEDITADA
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, afirmou que “as forças americanas dispararam mísseis PrSM contra um bairro residencial em Lamerd, atingindo diretamente um ginásio esportivo lotado de civis, incluindo adolescentes jogando vôlei, mulheres, homens e uma menina indefesa de dois anos de idade”.
“Já não há dúvidas de que isto não foi um acidente ou um ‘dano colateral’, mas sim uma decisão premeditada do regime dos EUA de testar seu novo sistema de armas contra civis iranianos em uma área residencial. Um ato tão cruel constitui um crime de guerra claro e desprezível”, escreveu ele em uma publicação nas redes sociais em 25 de maio.
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Fonte: Hora do Povo