Redução da jornada pode tornar CLT mais atraente, diz Guilherme Mello

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Por André Barrocal — Carta Capital

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Segundo o secretário-executivo do Ministério do Planejamento, literatura econômica não é conclusiva sobre impacto na produtividade

A redução da jornada de trabalho recém aprovada no Congresso Nacional tem potencial para tornar mais atraentes as vagas com carteira assinada e, por consequência, melhorar a arrecadação da Previdência. É o que diz Guilherme Mello, secretário-executivo do Ministério do Planejamento e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. “Talvez haja formalização do emprego, é algo para observarmos”, afirma.

O economista reconhece que o emprego do tipo CLT tem perdido encanto entre os brasileiros, em especial os mais jovens. De 2022 para 2025, caiu de 77% para 67% a preferência da população por postos de trabalho com carteira, segundo uma pesquisa Datafolha de julho do ano passado. A ideia de ser empreendedor e patrão de si mesmo tem ganhado adeptos. 

Para Mello, a esquerda política tem o desafio de adaptar-se a essa mudança, ao que ele considera novas “aspirações sociais”. Na visão dele, o atual governo fez uma certa inflexão na direção da classe média, onde essas aspirações são mais visíveis. Exemplos disso seriam a isenção do Imposto de Renda para salários de até 5 mil reais, o alargamento dos limites para obter crédito imobiliário do Minha Casa, Minha Vida e a ampliação do teto para ser enquadrado como microempreendedor individual (MEI). 

“A política pública do Lula 3 não foi bem compreendida pelos beneficiários”, diz o secretário-executivo. Talvez por uma questão de “ethos” (conjunto de hábitos, valores e traços culturais). O “ethos” do empreendedorismo pende para o lado da oposição. 

Para Mello, uma das razões da perda de prestígio da CLT é que as empresas pagam mal os funcionários com carteira e ainda exigem deles jornadas longas, de seis dias por semana. É a escala 6 por 1, extinta por uma mudança na Constituição aprovada em maio pelos deputados e nesta quarta-feira 14 pelos senadores. A nova jornada deve vigorar a partir de meados de dezembro.

Parte do empresariado, Fiesp à frente, fez lobby contra a jornada menor e faz terrorismo quanto aos impactos econômicos. Entre estes estariam o aumento da informalidade, que é o contrário da hipótese levantada por Mello, e a diminuição da produtividade. “Não há na literatura econômica nada conclusivo sobre redução da produtividade”, diz o secretário-executivo do Planejamento. 

O economista é um crítico da reforma trabalhista disfarçada proposta pelo chefe da campanha de Flávio Bolsonaro, o senador potiguar Rogério Marinho (PL), e abraçada pelo candidato a presidente. Detalhe: Marinho foi o líder da reforma trabalhista do governo Michel Temer, em 2017. 

A dupla do PL quer criar um sistema às margens da CLT, para que patrões e empregados negociem individualmente, sem sindicatos, as condições laborais, conforme as horas trabalhadas. O salário seria baseado no mínimo e proporcional à jornada combinada. Férias e 13 º também. Ou seja, para haver jornada menor, a remuneração seria menor.

“É um engodo para confundir o trabalhador. Vende a ilusão de liberdade”, diz Mello. “Os ricos nunca abrem mão de suas posições. Mas sempre tentam convencer os trabalhadores de que é bom para eles abrir mão de seus direitos em nome de uma promessa de melhora.”

A premissa da legislação trabalhista é que existe “assimetria” na relação entre empregadores e trabalhadores. Os primeiros estão em posição de impor condições. Para o secretário-executivo do Planejamento, as empresas “espremeriam” os funcionários dentro da jornada acertada, ou seja, fariam com que trabalhassem bem mais.


André Barrocal

Repórter especial de CartaCapital em Brasília

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Fonte: Carta Capital

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