Rede Katahirine lança mapeamento nacional do cinema feito por mulheres indígenas
Por Cine NINJA — Mídia NINJA

Levantamento aponta que 61% das realizadoras têm dificuldade com editais por barreiras de língua, internet e burocracia
Cine NINJA
Frente de cinema e audiovisual da Mídia NINJA, reúne uma comunidade de realizadores, distribuidores, produtores e comunicadores que buscam se conectar e construir uma outra cena audiovisual no Brasil e no mundo.
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23 de setembro de 2026
16:25
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Frente de cinema e audiovisual da Mídia NINJA, reúne uma comunidade de realizadores, distribuidores, produtores e comunicadores que buscam se conectar e construir uma outra cena audiovisual no Brasil e no mundo.
Por Helô Alves
A Rede Katahirine, que reúne mulheres indígenas do audiovisual, lançou o livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”. A apresentação ocorreu no Cine Brasília, durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A pesquisa entrevistou 60 realizadoras de 40 povos indígenas, falantes de 35 línguas originárias e vindas de todas as regiões do país. O estudo revela uma produção ativa nas telas do Brasil e do exterior, mas também barreiras estruturais no acesso a financiamento.
Segundo a cineasta e comunicadora Moiara Kaxuyana, mais de 73% das entrevistadas atuam profissionalmente no audiovisual. Elas conciliam o trabalho com responsabilidades comunitárias e com o registro de saberes ancestrais.
O dado sobre circulação expõe uma contradição. Cerca de 81% das cineastas já exibiram filmes em festivais e mostras. Ao mesmo tempo, 61% dizem não dominar os processos de inscrição em editais e eventos competitivos.
Moiara atribui essa dificuldade à barreira da língua portuguesa, à falta de internet e à burocracia documental. Para ela, o cinema originário segue outra lógica, em que exibir o filme na aldeia é tão importante quanto chegar aos grandes festivais.
“O compartilhar no território, devolver as imagens para o povo que fez com que esse filme fosse possível de ser feito é a nossa prioridade máxima”, afirmou a diretora do curta “Eu sou Kaxuyana” (2021).
Uma constelação de realizadoras
Na língua do povo Manchineri, Katahirine significa “constelação”. A rede nasceu em 2022, num encontro de realizadoras indígenas no Acre, a partir de uma proposta do Instituto Catitu, organização dedicada à formação audiovisual de mulheres indígenas.
Hoje, o coletivo reúne 92 cineastas de 48 povos do Brasil e de três povos da Bolívia, do Chile e do Equador. As integrantes vivem em biomas como Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa.
A fundadora do Instituto Catitu, Mari Corrêa, explica que as entrevistas foram conduzidas pelas próprias integrantes da rede. Cada conversa durou entre duas e três horas e abordou formação, criação, circulação, fomento e preservação de acervos.
Para Mari, a produção de dados é o caminho para tirar esse cinema da invisibilidade. “É preciso que o Estado enxergue esse grupo do cinema brasileiro, não há políticas públicas sem dados”, disse. Ela defende que as cotas não bastam e que há questões anteriores a resolver, como formação e produção.
Quem são as cineastas
A maior parte das realizadoras está na Mata Atlântica (35%) e na Amazônia (31,7%). Em seguida, aparecem Cerrado (18,3%), Caatinga (13,3%) e Pampa (1,7%).
Mais da metade (53,3%) vive em aldeias, 40% moram em cidades e 6,7% transitam entre os dois espaços. Segundo o livro, os números desmontam a ideia de que só quem mora em centros urbanos teria acesso a equipamentos audiovisuais.
As responsabilidades familiares também pesam na trajetória dessas mulheres. Entre as entrevistadas, 58,3% são mães e 28,33% não viajam sozinhas, dependendo de parentes para deixar seus territórios.
Quase metade (46,7%) tem entre 30 e 39 anos. A pesquisa relaciona essa concentração às oficinas de formação audiovisual realizadas nas últimas três décadas, que formaram as primeiras gerações de mulheres indígenas a produzir as próprias imagens.
Um jeito próprio de filmar
O livro traz ainda diretrizes para um audiovisual ético com povos indígenas. O documento orienta festivais, curadorias, produtoras e profissionais do setor a evitar práticas exploratórias e a garantir consentimento, escuta e remuneração justa.
Coordenadora e conselheira da rede, a multiartista Barbara Matias Kariri compara a chegada da câmera às aldeias à do cavalo entre os Mapuche, povo indígena do Chile. “A gente luta com a câmera, assim como os mapuches fizeram com os cavalos”, disse.
Nascida na comunidade do Marreco, no Ceará, e doutora em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Barbara dirigiu filmes como “Santa Pedra” (2020) e “Corpo Memória Submersa” (2021). Ela lembra que muitas produções começam com práticas espirituais e respeitam o tempo da roça, da pesca e da vida em família.
A cineasta Larissa Tukano, do povo Ye’pa Mahsã, da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, destaca o papel do cinema na preservação da memória. “Muitos daqueles que foram filmados já não existem mais”, afirmou a diretora de “Wehsé Darase – Trabalho da Roça” (2017).
Segundo Larissa, seu documentário contribuiu para o reconhecimento do sistema agrícola do Rio Negro como patrimônio dos 23 povos indígenas da região. O mapeamento da Rede Katahirine chega agora para dar dimensão a essa produção e embasar políticas públicas voltadas a ela. Confira a pesquisa completa em aqui.
Com informações de Brasil de Fato DF.
Fonte: Mídia NINJA
