Quem não deve, não teme
Por Julimar Roberto — Brasil 247
Nordestino, cabra retado, duro feito aroeira. Assim é nosso presidente Lula. Em meio à crise institucional que envolve o caso Master, atacado por todos os lados, o filho de dona Milu fez o que se espera de quem tem a honradez como estandarte e defendeu a abertura do sigilo das investigações para que o Brasil conheça toda a verdade, doa a quem doer.
Nunca se viu posição mais transparente. Lula não pediu proteção para aliados. Não pediu que investigações fossem interrompidas e nem que nomes fossem escondidos. O presidente do nosso Brasil pediu exatamente o contrário, que as informações venham à luz e que todos os envolvidos sejam investigados dentro da lei. E talvez seja justamente isso que incomode tanta gente.
Porque transparência é uma coisa bonita quando falada em discursos. O problema começa quando ela chega perto de quem tem poder, dinheiro, sobrenome ou influência.
O caso Master já deixou de ser apenas uma investigação sobre um escândalo financeiro. As sucessivas decisões envolvendo o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal abriram uma crise institucional que precisa ser enfrentada com seriedade. Nos últimos dias, decisões de ministros do próprio STF entraram em choque, inclusive sobre o afastamento e a recondução do diretor-geral da Polícia Federal. O presidente do Supremo, Edson Fachin, precisou intervir para tentar conter a escalada do conflito.
É exatamente por isso que a sociedade tem o direito de perguntar o que está acontecendo? E a resposta não pode ser um jogo de vazamentos seletivos.
Lula foi direto ao defender que não sejam escolhidos a dedo os pedaços da investigação que chegam ao público. O presidente da República afirmou que o Brasil precisa de transparência, e não de informações fragmentadas capazes de interferir na disputa política e eleitoral.
Afinal, ninguém está acima da lei. Se existem suspeitas, elas precisam ser investigadas. Se existem irregularidades, precisam ser responsabilizadas. E se não existem, que isso também fique demonstrado. Pois é assim que funciona uma democracia e quem não deve, não teme.
Quem tem a consciência tranquila não precisa de investigação escondida para provar inocência. Precisa de uma investigação séria, independente, com direito de defesa e transparência suficiente para que a sociedade saiba o que de fato aconteceu.
Aliás, vale comentar que o discurso muda bastante quando observamos o passado recente do país.
Durante o governo Bolsonaro, houve uma sucessão de episódios que levantaram suspeitas sobre tentativas de interferência política na Polícia Federal e nas estruturas de investigação. A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, em 2020, veio acompanhada da acusação de que Jair Bolsonaro tentava interferir na PF para proteger interesses próprios e de familiares. O episódio chegou ao Supremo e deu origem a investigação.
Depois vieram as revelações envolvendo a estrutura de inteligência do Estado, as investigações sobre o uso do sistema FirstMile pela Abin e os desdobramentos que atingiram integrantes do entorno do ex-presidente.
É ou não é uma diferença importante?
Quando instituições investigavam suspeitas envolvendo o clã Bolsonaro e seu círculo político, a reação muitas vezes era atacar a investigação, atacar a imprensa, atacar a Polícia Federal, atacar o Supremo e transformar qualquer investigação em suposta perseguição política.
Agora, diante de uma crise que também pode atingir pessoas próximas ao campo político de Lula, a resposta do presidente é outra: abram os arquivos. Investiguem. Mostrem tudo.
Não é uma questão de gostar ou não de Lula. É uma questão de princípio.
O mesmo princípio que deve valer quando uma investigação alcança um empresário poderoso, um banqueiro, um deputado, um senador, um ministro do Supremo, um ex-presidente ou qualquer cidadão comum.
A investigação não pode escolher o tamanho da pessoa investigada. A lei também não.
O escândalo envolvendo o Banco Master é grave e as investigações continuam revelando novos elementos. São fatos que precisam ser apurados, não transformados em sentença antecipada.
É justamente aí que mora a diferença entre investigar e condenar.
Investigar é obrigação do Estado. Condenar é consequência de um processo, com provas, contraditório e direito de defesa.
E esconder informações relevantes da sociedade não ajuda nem uma coisa nem outra.
O Brasil não precisa de heróis de estimação. Não precisa de autoridades acima de qualquer suspeita. Não precisa de políticos protegidos por sobrenomes, amizades ou relações de poder. Precisa de instituições fortes.
E instituições fortes não são aquelas que nunca são questionadas. São aquelas que suportam o escrutínio público, corrigem seus erros e permitem que a verdade apareça.
Por isso, a defesa da transparência feita por Lula é muito maior do que uma posição política sobre o caso Master. É uma defesa de princípio.
Que se investigue tudo. Que se abra tudo o que puder ser aberto. Que se preserve o que a lei determinar que deve ser preservado, mas que nenhum sigilo seja usado como esconderijo para proteger poderosos.
Se houver crime, que haja punição. Se houver corrupção, que haja responsabilização. Se houver abuso de autoridade, que também seja investigado. E se houver inocentes, que sejam inocentados.
Sem dois pesos e duas medidas. Sem vazamento conveniente. Sem blindagem. Sem espetáculo. A democracia não precisa ter medo da verdade.
Quem não deve, não teme. Mandou bem, presidente Lula!
Fonte: Brasil 247