Quem era Rick, cantor que fazia dupla com Renner e que morreu após queda de helicóptero em SC
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

A morte de Rick, da dupla Rick & Renner, aos 59 anos, nesta terça-feira, 22, encerra uma trajetória que atravessou diferentes momentos da música sertaneja brasileira. Mais do que a voz de sucessos como “Ela É Demais” e “Nos Bares da Cidade”, Geraldo Antônio de Carvalho participou de um período em que o gênero buscava novos caminhos para além das tradicionais baladas românticas.
O cantor morreu após a queda de um helicóptero em Santa Catarina. A aeronave havia desaparecido na segunda-feira, 21, depois de decolar de Porto Belo, no Litoral Norte, com destino a São Joaquim, na Serra catarinense. Os destroços foram encontrados nesta terça. Segundo o Corpo de Bombeiros, não houve sobreviventes.
Também estavam na aeronave o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, além do piloto e do copiloto. Ao todo, cinco pessoas morreram no acidente.

A história de Rick com a música, porém, começou décadas antes. Nascido em 1966, no atual Tocantins, então parte de Goiás, ele cresceu cercado por referências da música regional e começou a cantar ainda criança. Depois da mudança da família para Brasília, passou a se apresentar em bares e casas noturnas.
Foi na capital federal que conheceu Ivair dos Reis Gonçalves, o Renner. Os dois começaram a trabalhar juntos em meados da década de 1980 e chegaram a gravar um disco independente antes de conseguirem espaço em uma grande gravadora.
Do sertanejo romântico a uma nova sonoridade
Quando Rick & Renner lançaram o primeiro disco por uma gravadora, em 1992, o sertanejo brasileiro vivia uma transformação. Duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e João Paulo & Daniel haviam levado o gênero das raízes caipiras para grandes rádios, programas de televisão e arenas pelo país.
Rick & Renner chegaram nesse cenário e, inicialmente, também encontraram espaço no sertanejo romântico. A virada mais significativa veio na segunda metade da década de 1990.

Em 1998, “Ela É Demais” projetou a dupla nacionalmente e se transformou na principal música da carreira dos dois. A canção permaneceu durante meses nas paradas e abriu caminho para uma sequência de trabalhos que começou a mostrar outra característica de Rick & Renner: a disposição de experimentar.
O movimento ficou ainda mais evidente no álbum “Instante Mágico”, lançado em 1999. O disco reuniu músicas como “Muleca”, “Cara-de-Pau”, “Fim de Semana” e “Na Pontinha do Pé”.
Em vez de permanecer apenas nas letras sobre separações, sofrimento e grandes paixões que dominavam parte do sertanejo romântico, a dupla passou a explorar humor, sensualidade e músicas feitas para dançar.
“Cara-de-Pau”, por exemplo, transformava as idas e vindas de um relacionamento em uma narrativa bem-humorada. “Muleca” deixava a balada de lado e investia diretamente em uma sonoridade dançante.
Mistura com outros ritmos
A experimentação também aproximou Rick & Renner de estilos que, naquele período, nem sempre dividiam espaço com o sertanejo.
Um dos exemplos mais marcantes foi “Na Pontinha do Pé”, gravada com o grupo de pagode Molejo. A parceria colocou lado a lado dois gêneros populares que viviam momentos de grande exposição no país, mas que ainda ocupavam circuitos musicais relativamente distintos.
A mistura não aconteceu por acaso. Renner já afirmou, em entrevista ao Jornal da Cultura em 2001, que gravar músicas como “Muleca” e “Cara-de-Pau” havia sido uma “audácia” da dupla por fugir dos padrões daquele momento.
A estratégia ajudou Rick & Renner a construir uma identidade própria em um mercado que já estava repleto de grandes duplas. O repertório passou a alternar músicas românticas com forró, faixas dançantes e outras influências populares.

A renovação não foi exclusiva da dupla. Outros artistas também buscavam novas sonoridades no final dos anos 1990. Leandro & Leonardo, por exemplo, haviam construído boa parte da fama com baladas românticas, mas passaram a incorporar elementos de ritmos como axé e reggae em músicas mais festivas.
Rick & Renner fizeram parte desse movimento de abertura do gênero antes da explosão do chamado sertanejo universitário, que, anos depois, ampliaria ainda mais a presença de elementos do pop e de outros estilos na música sertaneja.
Rick também estava por trás das músicas
A influência de Rick no sertanejo não se limitava ao microfone. Compositor e produtor, ele participou de trabalhos de diferentes artistas e escreveu músicas gravadas por alguns dos principais nomes do gênero.
Ao longo da carreira, suas composições chegaram às vozes de artistas como João Paulo & Daniel, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Bruno & Marrone.

Rick também teve participação na renovação de artistas de gerações anteriores. Um dos casos foi o de Gino & Geno, dupla formada ainda na década de 1960. Como produtor e compositor, Rick participou de uma nova fase da carreira dos sertanejos e esteve por trás de músicas como “Bebo Pa Carai”, lançada em 2005.
Essa atuação permitiu que sua influência ultrapassasse a própria discografia de Rick & Renner. Enquanto construía a identidade da dupla, Rick também circulava pelos bastidores do gênero como compositor e produtor.
Mais de 10 milhões de discos
Ao longo da trajetória, Rick & Renner venderam mais de 10 milhões de discos. Em meados dos anos 2000, chegaram a realizar cerca de 150 apresentações por ano.
A parceria, no entanto, teve diferentes interrupções. No fim de 2010, após cerca de 25 anos juntos, os dois anunciaram uma separação. Naquele momento, acumulavam 16 CDs e dois DVDs.
Rick passou então a usar o nome artístico Rick Sollo e lançou trabalhos em carreira solo. Renner também seguiu outro caminho, inclusive com projetos ligados à música gospel.

A dupla voltou a trabalhar junta posteriormente, enfrentou uma nova interrupção e retomou definitivamente a parceria em 2018. Na volta, lançou o projeto “Seguir em Frente” e iniciou uma nova turnê.
Nos últimos anos, Rick & Renner continuaram lançando músicas nas plataformas digitais. Entre os trabalhos mais recentes estão “Estou Aqui!”, de 2024, “Porque o Bruto Chora”, de 2025, e “O Caçador”, lançado em 2026.

A dupla também percorria o país com a turnê comemorativa “Em Nome da Música”.
Da música romântica às faixas dançantes, passando pela composição e produção de outros artistas, Rick construiu uma carreira que acompanhou as mudanças do sertanejo e também ajudou a provocá-las. Antes que novas gerações tornassem habitual a mistura do gênero com outros ritmos, Rick & Renner já experimentavam maneiras diferentes de falar de amor, desejo e diversão dentro da música sertaneja.
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Fonte: Jornal Opção