Quantas histórias cabem no gradil da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré?
Por Casa NINJA Amazônia — Mídia NINJA
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Devotos de Nossa Senhora, depois de amarrarem com 3 nós as tradicionais fitinhas do Círio, compartilham seus momentos de fé e esperança.
Por Álvaro Amaral – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
Quem anda por Belém na época do Círio de Nossa Senhora de Nazaré já percebe as cores alegrando as ruas. Quando o mês de outubro chega, as avenidas são preenchidas pela energia das tradicionais fitinhas do Círio, que simbolizam não apenas a fé e a devoção da Amazônia pela padroeira do Pará, mas também promessas e pedidos, muitas vezes silenciosos – um momento que une diferentes histórias e momentos que só quem vive e quem sente consegue explicar.
Muitos fiéis amarram as fitas no pulso ou no braço e acreditam que elas devem permanecer ali até que se desamarrem sozinhas, significando que os desejos foram cumpridos.
No entanto, outra tradição forte se encontra nas grades e nos portões da Basílica Santuário de Nazaré, onde, além de as fitas serem amarradas com três nós, muitas pessoas deixam cartas, bilhetes, fotografias, placas, roupas e outros objetos em devoção.
Periodicamente, as fitinhas são retiradas do gradil e incineradas antes de cada Círio, levadas pela Guarda de Nazaré em um momento de oração pelos padres barnabitas, o que simboliza a elevação das preces e o acolhimento de Deus às súplicas dos devotos. Mas, apesar de queimadas, as fitas nunca levam embora os pedidos: permanecem no coração daqueles que acreditam e daqueles que agradecem.
Helaine Silva é empregada doméstica e veio renovar as esperanças durante o Círio depois de ter feito os três nós e amarrado sua fitinha nos portões da igreja. Em meio a lágrimas, Helaine conta que foi até lá pelo filho, falando um pouco sobre seu passado:
“Esse ano, o meu filho conseguiu um emprego e eu vim agradecer. É gratificante e emocionante estar aqui nesse momento. O Círio é tudo na minha vida. Desde que eu me entendo, desde que eu nasci. Eu sempre fui pra igreja com a minha mãe e eu sempre vinha acompanhar só a passagem dela (Nossa Senhora). Aí, no ano passado, eu fiz uma promessa de que, se o meu filho conseguisse um emprego, eu vinha na corda”.
Quem também esteve amarrando uma fitinha nas grades da Basílica Santuário foi Rosinete da Silva, cabeleireira e dona de uma estamparia no município de Abaetetuba:
“Eu vim aqui agradecer à minha virgem mãe. Ano passado, eu vim aqui implorar a ela para querer uma casa. Fazia 11 anos que eu vivia de aluguel depois da minha separação. Então, ano passado, foi a gota d’água de não ter solução na minha vida. E ela me concedeu, em novembro, a compra da minha casa própria, à vista. Hoje, eu tô aqui pra agradecer, eu tô toda arrepiada de tanta emoção, por hoje em dia dormir e acordar sem ninguém estar cobrando aluguel na minha vida” declara.
Rosinete foi até a igreja, ainda, segurando uma casa feita de isopor, simbolizando a materialização de sua conquista, que a acompanhou durante a Trasladação.
“O Círio, pra mim, representa um momento de fé, de renovação naquilo que tu acredita, porque a fé é invisível! É tu e Deus, tu e Maria! Não tem explicação, não tem matéria. É um sentimento espiritual que tu sente a presença de uma paz renovadora na tua vida”, finaliza ela.
Entre todo um mar de gente que vem acompanhar o Círio de Nazaré e os milhares de pedidos que cobrem o gradil da Basílica todos os anos, não há somente aqueles que moram e vivem no Pará. A fé mobiliza as ruas de Belém, mas também atravessa outros estados do Brasil. É o que mostra o enfermeiro Malaquias Lacerda Neto, que veio do Tocantins pagar uma promessa.
“Mais do que na minha vida, o Círio de Nazaré representa, acima de tudo, esperança. A gente tem que lembrar que a mãezinha é a mãe de toda a região Norte, de todos os amazônidas, um povo sofrido, que sofre com as mais diversas mazelas, mas que encontra, em Nossa Senhora, refúgio e uma chama de esperança que ilumina a noite escura na vida de muitos de nós”.
O enfermeiro, assim como outras centenas de devotos, levou não apenas a sua fitinha, mas também um bilhete como forma de agradecimento pela graça alcançada por intercessão de Maria – um gesto que viajou por quilômetros para ser realizado, mas que nem mesmo foi interrompido pela distância.
O relato de Malaquias nos mostra uma grande lição: não importa aonde seja e por onde passe, a fé ainda segue viva em quem vive na Amazônia e por quem vive em outras regiões do país.
Jaqueline Souza é advogada, nascida e criada no Pará. Sua história, atravessada pelo lado sentimental e sensível do Círio, não é de hoje. Jaqueline foi até a Basílica não para pagar uma promessa específica, mas para pedir saúde às pessoas que mais ama e para realizar sonhos que ainda não realizou:
“Todo ano, a gente vem agradecer pela saúde da nossa família e pedir as graças, que ela consiga carregar a gente no colo como mãe, mesmo nós não sendo merecedores desse grandioso amor. Então, eu sou devota de Nossa Senhora de Nazaré e venho aqui sempre pra agradecer e pedir que ela interceda por mim, pela família, pela saúde dos meus pais e das pessoas que eu mais amo. Eu tô pedindo por todos que eu amo, pela saúde dos meus filhos, por alguns sonhos que eu ainda não realizei, que eu tenho certeza de que, com a mão dela, ela vai ajudar a realizar”.
Para finalizar Jaqueline conta que “o Círio é uma demonstração de fé, de amor ao próximo, de empatia, de resiliência, de fraternidade. Hoje, eu tava pensando sobre o quanto o Círio demonstra um amor fraterno pelo próximo, o que verdadeiramente a Bíblia nos ensina, que é amar o próximo. E o Círio nos ensina isso”.
Seja passando pelos diferentes caminhos de quem deixa seus pedidos demarcados nas grades da igreja, seja refletindo sobre a importância do Círio de Nazaré, o sentimento de quem vive a festa passa por várias etapas, desafios, esperanças e, sobretudo, relatos.
Para algumas pessoas, a fitinha pode ser apenas mais um utensílio e uma marca registrada da festa religiosa, mas para quem pede e para quem alcança, nada é só pelo que parece. Afinal, por trás de cada fita, há diversas histórias e diferentes mundos.
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Fonte: Mídia NINJA