Quando a violência psicológica vira espetáculo político

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Por Luciana Sérvulo da Cunha — Brasil 247

O debate presidencial entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula, ontem na TV Bandeirantes, expôs algo que vai além das divergências partidárias e da disputa eleitoral: a maneira como comportamentos humilhantes e mecanismos de manipulação podem ser incorporados ao espetáculo político e apresentados ao público como demonstração de força e liderança.

Quem já viveu uma relação abusiva – afetiva, familiar ou profissional – provavelmente reconheceu naquela dinâmica comportamentos que, mesmo causando sofrimento, são frequentemente minimizados, justificados ou naturalizados por quem os pratica e por quem os presencia.

A violência psicológica não se manifesta por meio de agressões físicas. Ela opera de maneira sutil, por meio da humilhação, da intimidação, da ridicularização, do constrangimento e da manipulação da narrativa. Seu objetivo é desestabilizar, desqualificar e enfraquecer a autoridade da outra pessoa – muitas vezes sem que quem presencia a situação reconheça essas práticas como formas de violência.

O agressor ou a agressora provoca, ironiza, desqualifica e distorce os acontecimentos até desestabilizar emocionalmente a outra pessoa. Quando ela reage, sua reação passa a ser apresentada como prova de descontrole, agressividade ou incapacidade de lidar com a pressão.

Em outras palavras: provoca-se o conflito e, em seguida, controla-se a narrativa sobre ele.

Foi sob essa perspectiva que observei o comportamento de Flávio Bolsonaro durante o debate com o presidente Lula.

As caretas, os deboches, as provocações e a insistência em permanecer atrás do adversário não foram gestos casuais. Foram formas de humilhação e intimidação que, transpostas para o palco político, buscaram deslocar o centro da discussão e transformar a fala do adversário em cenário para a própria encenação.

E, como ocorre em dinâmicas abusivas, parte dos comentários posteriores de simpatizantes da extrema direita passou a exaltar o comportamento “heroico” do filho de Bolsonaro e a questionar a idade e o cansaço de Lula, em vez de examinar criticamente a conduta de quem o provocava.

A questão não é exigir cordialidade artificial entre adversários. A democracia pressupõe divergências profundas, críticas contundentes e confronto de ideias. Mas há uma diferença fundamental entre confrontar argumentos e tentar humilhar uma pessoa.

Quem disputa o comando de um país também apresenta à sociedade uma maneira de exercer autoridade, administrar conflitos e lidar com quem pensa diferente. O comportamento político produz referências sociais: aquilo que se naturaliza no exercício público do poder influencia a maneira como a sociedade compreende e reproduz suas próprias relações.

Há, ainda, uma responsabilidade que não pode ser ignorada: a dos veículos de comunicação e das regras dos debates eleitorais. Quando acusações graves circulam sem verificação eficaz, informações falsas ou distorcidas permanecem sem esclarecimento imediato e a encenação recebe tanta atenção quanto o conteúdo, a população perde a chance de avaliar os projetos de país em disputa.

Liberdade de expressão e direito ao contraditório são pilares democráticos. Mas nenhum deles exige que a mentira receba o mesmo tratamento que a verdade. O jornalismo não pode se limitar a administrar o tempo dos candidatos enquanto a desinformação circula: seu compromisso com o interesse público exige contexto, rigor e responsabilidade com os fatos.

Isso não significa colocar Lula acima de críticas. Qualquer presidente deve ser confrontado com perguntas difíceis, cobranças e avaliações rigorosas de sua gestão. Mas confrontar politicamente alguém não é o mesmo que tentar humilhá-lo.

Também não se trata de diagnosticar psicologicamente um candidato. Comportamentos abusivos podem ser identificados e criticados sem atribuir a ninguém um transtorno de personalidade. O que importa é reconhecer os mecanismos envolvidos – e suas consequências para a cultura política.

Milhões de mulheres e homens conhecem, na própria vida, os efeitos de relações em que a agressividade é normalizada, a palavra é constantemente desqualificada e a vítima acaba responsabilizada pela violência que sofre. Reconhecer esses mecanismos no espaço público também significa recusar sua reprodução na vida privada.

A democracia não depende apenas de eleições livres, instituições funcionando e respeito às leis. Exige uma cultura política capaz de reconhecer a legitimidade das divergências e estabelecer limites éticos ao exercício do poder.

O debate de ontem expôs, na minha avaliação, um problema que vai além da postura individual de Flávio Bolsonaro: o risco de uma cultura política em que a agressividade é celebrada como virtude, a humilhação vira entretenimento e a capacidade de intimidar é confundida com liderança e capacidade de governar.

O que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição, mas os limites do tolerável na vida pública. Exigir ética de Flávio Bolsonaro e responsabilidade dos meios de comunicação não é questão partidária. É decidir se aceitaremos, como forma legítima de poder, a presença de quem não tem propostas a oferecer e, sem levantar a voz, permanece – com covardia e cinismo -às nossas costas.

Fonte: Brasil 247

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