PT deixa deserto à esquerda e fortalece a direita em 2026
Por Raphael Tsavkko Garcia — JOTA
Há uma frase que circulou recentemente numa conversa entre amigos sobre a eleição presidencial: “Lula não tem quem desidratar em um eventual segundo turno”. Parece uma observação banal sobre pesquisas eleitorais. Na verdade, resume um problema que a esquerda brasileira levou mais de uma década para construir.
A pouco menos de duas semanas da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece praticamente empatado com Flávio Bolsonaro, uma tendência que tem se repetido há algum tempo. Enquanto isso, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) dividem cerca de 15% do eleitorado. A direita tem, portanto, candidatos demais. A esquerda, um só, a não ser que contemos com os traços de UP, PSTU, PCO e PCB que, juntos, mal chegam a 1-2% do eleitorado.
Isso parece, à primeira vista, uma vantagem para Lula, mas na verdade é um (grande) problema. Há votos à direita espalhados entre várias candidaturas que podem mudar de destino durante a reta final, ao passo que no campo progressista, praticamente todo o voto útil disponível já foi capturado. Lula não tem quem desidratar.
E esse deserto não surgiu em 2026. Longe disso. Durante décadas, o PT foi não apenas o maior partido da esquerda brasileira, mas também seu principal polo gravitacional. A capacidade de Lula para construir alianças, incorporar movimentos sociais e transformar adversários em aliados foi uma das razões fundamentais de seu sucesso político. Mas isso também produziu consequências menos celebradas: enfraqueceu progressivamente a possibilidade de uma esquerda independente do lulismo.
O processo já se desenhava ainda no período do primeiro governo Lula (2003-2006): lideranças sindicais e de movimentos sociais passaram a ocupar espaços no Estado; estruturas participativas aproximaram organizações da sociedade civil do governo; centrais sindicais e movimentos historicamente autônomos passaram a ter uma relação muito mais orgânica com o poder. Há uma literatura que descreve esse fenômeno explicitamente em termos de cooptação, institucionalização e redução da autonomia dos movimentos sociais.
Isso não significa que todos tenham sido comprados, silenciados ou deixado de criticar o governo, mas sim algo politicamente mais importante: o PT tornou-se o lugar pelo qual grande parte da esquerda precisava passar para ter acesso ao poder. Ainda que tenha havido desavenças no campo progressista — o surgimento do PSOL como dissidência do PT é o maior exemplo disso —, a tendência de cooptação prevaleceu.
Anos depois, os protestos de junho de 2013 deveriam ter funcionado como alerta para a esquerda como um todo. As primeiras manifestações daquele ciclo tinham origem claramente progressista e, em boa medida, estavam à esquerda do próprio PT, que seguia liderando o governo federal. A literatura acadêmica sobre junho registra justamente essa origem antes de as ruas passarem a abrigar também grupos liberais e conservadores. O que explodiu ali não foi apenas uma revolta contra 20 centavos, mas também uma crise de representação.
O PT, que em 2013 estava havia uma década à frente do governo federal, já não conseguia monopolizar a linguagem da transformação social. Uma geração que não havia vivido a fundação do partido, as greves do ABC ou a oposição à ditadura simplesmente não reconhecia automaticamente o partido como representante de sua insatisfação.
O que aconteceu depois, porém, não foi a construção de uma esquerda alternativa forte. Viu-se um processo insistente de cooptação e de esmagamento daqueles que se recusavam a se submeter. E então veio a tempestade perfeita: Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, Michel Temer, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República.
A defesa da democracia e o combate à extrema direita criaram razões perfeitamente compreensíveis para reunir novamente quase toda a esquerda ao redor do PT. No entanto, o excepcional virou permanente. Qualquer tentativa de autonomia passou a enfrentar a mesma objeção: agora não é a hora – e a hora nunca chega e nunca vai chegar.
Voltemos ao caso do PSOL. Ele nasceu em 2004 justamente de uma ruptura pela esquerda com o PT e, em 2018, apresentou Guilherme Boulos à Presidência. Em 2022 decidiu apoiar Lula já no primeiro turno e, em 2026, repetiu a decisão e novamente abriu mão de candidatura própria sob o argumento de ser necessário derrotar a extrema direita.
São duas eleições presidenciais consecutivas sem candidato do partido que nasceu para construir uma alternativa ao PT. Nem sempre a união faz a força: às vezes apenas impede a multiplicidade de discursos e que novas ideias surjam e conquistem mentes.
Boulos, aliás, completa a ironia histórica: o militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que em outros tempos protestava contra governos petistas, tornou-se ministro da Secretaria-Geral de Lula e passou a trabalhar diretamente pela reeleição do presidente, tornando-se, assim, mais lulista do que um defensor dos interesses de seu próprio partido e do país.
Marcelo Freixo percorreu caminho semelhante por outra rota: deixou o PSOL, migrou para o PSB para disputar, sem sucesso, o Governo do Rio de Janeiro em 2022 sob uma lógica de frente ampla, que contava até mesmo com nomes de centro-direita, como César Maia. Freixo acabou no governo Lula, na presidência da Embratur. Hoje no PT, é uma sombra da liderança que um dia foi no Rio de Janeiro.
Mesmo dentro do PSOL há correntes que descrevem explicitamente esse movimento de Freixo e Boulos como abandono de um projeto político independente. Pode-se discordar dessa interpretação, mas é difícil ignorar o resultado: onde está hoje a candidatura presidencial competitiva à esquerda de Lula? Onde está a liderança nacional capaz de dizer que apoia políticas do governo quando concorda, critica quando discorda e, sobretudo, pretende disputar seu eleitorado? Não existe.
Chegamos então à eleição de 2026. A direita pode sofrer um processo de voto útil já que os eleitores hoje distribuídos entre Cury, Caiado, Zema, Renan e outros podem se reorganizar a favor do candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro (PL). Não sabemos se isso acontecerá, nem para onde irão esses votos, mas sabemos que esse eleitorado existe e tende à direita. Lula não pode lançar mão de estratégia equivalente já que a hegemonia construída pelo PT foi tão bem-sucedida que eliminou quase toda competição significativa dentro do seu próprio campo.
Durante anos, o domínio petista pareceu uma demonstração de força, mas agora revela sua outra face: Lula tornou-se praticamente insubstituível para a esquerda brasileira, o que talvez seja seu maior triunfo político, mas é também um dos maiores problemas que ele deixará para os progressistas quando finalmente se aposentar. As chances de isso acontecer já nesta eleição são, infelizmente, grandes.
Fonte: JOTA