Procuradores suspeitam que áudio de Vorcaro sobre Lula foi gravado ilegalmente para uso eleitoral
Por Júnior Kamenach — Jornal Opção

Procuradores familiarizados com as investigações do Banco Master suspeitam que o áudio em que Daniel Vorcaro afirma ter destinado dinheiro a um filme sobre Luiz Inácio Lula da Silva tenha sido gravado ilegalmente na prisão para uso eleitoral. Segundo relatos ouvidos pela coluna, a gravação pode ter sido feita na Papudinha, em Brasília, onde o ex-banqueiro está preso, e divulgada para prejudicar o presidente durante a campanha eleitoral.
A gravação, caso tenha sido feita nas condições suspeitas, seria ilegal. Visitantes não podem entrar no estabelecimento com celulares ou gravadores. No áudio, divulgado pela revista Veja, Vorcaro afirma ter negociado com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, o pagamento de propinas para obter acesso a fundos de pensão de servidores federais.
Segundo o relato, R$ 30 milhões teriam sido destinados ao filme Lula, dirigido pelo cineasta Oliver Stone. A equipe do diretor, porém, nega ter solicitado ou recebido dinheiro de Vorcaro. Também afirma que não foi informada sobre a suposta solicitação de recursos.
A campanha de Lula, por sua vez, questiona a autenticidade do áudio, não descarta adulteração e acionou a Polícia Federal (PF) para investigar a origem da gravação. A gravação também levantou dúvidas entre advogados que integram a defesa de Vorcaro.
Parte da equipe, formada por 23 profissionais, acredita que o áudio pode ter sido produzido ilegalmente há mais tempo e divulgado apenas agora, com objetivos eleitorais. Entre as hipóteses levantadas estão o envolvimento de agentes públicos, de integrantes da própria defesa ou de visitantes que teriam conseguido driblar a segurança da prisão.
Não há, contudo, confirmação sobre quem teria feito a gravação. Quando Vorcaro estava sob custódia da Polícia Federal, advogados podiam entrar com computadores e gravadores para registrar depoimentos relacionados às negociações de colaboração premiada. Na Papudinha, as conversas por videoconferência também poderiam, em tese, ser gravadas.
PGR e PF negam relato em delação
Procuradores e advogados ouvidos pela coluna afirmam que a suposta destinação de dinheiro ao filme sobre Lula não foi incluída nas propostas de delação premiada apresentadas por Vorcaro. Segundo eles, nenhum áudio sobre o caso foi entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Advogados admitem que o ex-banqueiro chegou a mencionar, em conversas, contribuições para filmes sobre Lula, Jair Bolsonaro e Michel Temer. Ele, porém, não teria detalhado como os recursos foram repassados nem apresentado provas dessas contribuições. Por isso, os relatos não foram incluídos nas propostas de colaboração.
Apenas depois da divulgação de notícias sobre o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória de Bolsonaro, Vorcaro teria apresentado explicações à PGR. Ainda assim, segundo as informações relatadas, não fez acusações contra o senador Flávio Bolsonaro. Em nota, a PGR afirmou que não houve depoimento oral de Vorcaro porque a proposta de colaboração premiada foi rejeitada.
O órgão também declarou respeitar o sigilo legal do procedimento. A Polícia Federal negou que o ex-dono do Banco Master tenha prestado depoimento ou entregue documentos, durante as tratativas de delação, sobre o suposto financiamento do filme Lula, de Oliver Stone. Até o momento, não há confirmação pública de que Vorcaro tenha financiado a produção nem de que o áudio tenha sido gravado ilegalmente. A origem e a autenticidade do material são pontos que dependem de apuração.
Entenda
No áudio, obtido pela revista Veja, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, descreve uma reação que atribui a Ubiratan, auxiliar do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao ouvir relatos sobre o Instituto Lula. A conversa teria ocorrido durante uma reunião relacionada à tentativa de delação premiada do ex-banqueiro.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) negou que as negociações tenham ocorrido fora dos procedimentos previstos. Em nota, afirmou que as tratativas de colaboração premiada foram conduzidas por advogados contratados por Vorcaro. Segundo o órgão, todas as propostas formalizadas pela defesa foram recebidas sem juízo ou recusa prévia.
A Polícia Federal (PF) também divulgou um esclarecimento. A instituição afirmou que Vorcaro não prestou depoimento com o teor descrito na reportagem nem entregou documentos, anexos ou informações sobre o tema. A VEJA, porém, ressaltou que nunca afirmou que os áudios e documentos haviam sido apresentados à PF.
A defesa de Daniel Vorcaro confirmou que o empresário “possui informações personalíssimas e relevantes para o caso” e continua disponível para colaborar com as autoridades. O caso envolve relatos atribuídos a Vorcaro sobre o Instituto Lula e as tentativas do ex-banqueiro de firmar um acordo de delação premiada com a PGR ou a Polícia Federal.
Segundo a VEJA, as informações foram obtidas em áudios de fontes próximas ao banqueiro. Essas pessoas teriam acompanhado os passos das negociações desde o início. A revista afirma que preserva as identidades das fontes para evitar possíveis retaliações. A publicação também nega ter afirmado que Vorcaro compareceu pessoalmente à PGR para relatar os fatos ou que tenha falado diretamente com os investigadores sobre o assunto.
O texto critica a divulgação de informações que atribui à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente a alegação de que Vorcaro teria prestado depoimento à Polícia Federal. Segundo a revista, essa informação não consta na reportagem e foi desmentida pela defesa do empresário.
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Fonte: Jornal Opção