Procurador boliviano alvo de sanções dos EUA acusa governo Trump de ingerência
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – A decisão dos Estados Unidos de impedir a entrada do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, abriu uma nova frente de tensão entre Washington e autoridades bolivianas. Mariaca rejeitou as acusações feitas pelo governo do presidente Donald Trump e atribuiu a medida a uma tentativa de interferência sobre investigações conduzidas pelo Ministério Público de seu país.
Segundo a coluna da jornalista Janaína Figueiredo, no UOL, o governo etadunidenses acusa Mariaca de envolvimento em “corrupção significativa” relacionada ao narcotráfico. O procurador contesta as acusações e sustenta que a medida pode estar relacionada a investigações consideradas sensíveis na Bolívia. Washington afirma que Mariaca teria abusado de cargos públicos para solicitar e receber propinas vinculadas ao narcotráfico e teria ajudado criminosos a escapar da Justiça. As alegações são rejeitadas pelo procurador.
O episódio ocorre em meio a uma ação mais ampla dos Estados Unidos contra autoridades e outras pessoas da América Latina. Além de Mariaca, Washington anunciou medidas envolvendo cidadãos da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru.
Caso Cerimedo entra no centro da controvérsia
Uma das principais questões levantadas pela reação de Mariaca envolve Fernando Cerimedo. De acordo com a reportagem, fontes consultadas em La Paz não descartam que investigações conduzidas pelo procurador envolvendo Cerimedo estejam relacionadas à pressão exercida sobre ele.
Segundo essa interpretação, uma eventual tentativa de interromper as apurações teria como objetivo evitar o aparecimento de informações capazes de produzir consequências políticas para o governo do presidente boliviano Rodrigo Paz, aliado de Washington.
A controvérsia ocorre também em meio a questionamentos internos sobre integrantes da equipe do procurador-geral. Conforme versões divulgadas pela imprensa boliviana, algumas dessas pessoas teriam vínculos com o ex-presidente Evo Morales.
Pressão aumenta dentro da Bolívia
A medida estadunidense teve repercussões imediatas no cenário político boliviano.
Após o anúncio dos Estados Unidos, os presidentes das câmaras de Senadores e Deputados da Bolívia solicitaram formalmente que Mariaca se afaste de suas funções enquanto as acusações são esclarecidas.
Integrantes do governo boliviano, por sua vez, indicaram que pretendem recorrer aos canais diplomáticos para obter de Washington informações sobre os fundamentos apresentados contra o procurador-geral.
A controvérsia coloca as autoridades bolivianas diante de duas questões distintas: as graves acusações formuladas pelos Estados Unidos contra Mariaca e a alegação do procurador de que a medida teria relação com investigações conduzidas dentro da Bolívia.
Tribunal Supremo se distancia do procurador
O presidente do Tribunal Supremo de Justiça da Bolívia, Rómer Saucedo Gómez, adotou uma posição cautelosa diante do caso e ressaltou a prerrogativa de cada país para definir sua política migratória.
“Somos respeitosos da soberania de outros países e cada Estado tem suas próprias políticas sobre temas migratórios. Cada Estado dispõe das medidas que considera necessárias”, afirmou.
Saucedo também destacou que a nomeação do procurador-geral não cabe ao Tribunal Supremo e afirmou que Mariaca deverá apresentar sua defesa diante das acusações formuladas contra ele.
A manifestação distancia institucionalmente a principal corte boliviana da disputa entre o procurador-geral e Washington.
Washington amplia medidas na América Latina
A iniciativa estadunidense alcançou também outros países da região.
No Peru, o juiz Juan Carlos Núñez Matos, titular do Primeiro Juizado Constitucional de Lima, teve o visto revogado. A decisão provocou reações divergentes.
Setores críticos à falta de transparência no Judiciário peruano e à crescente influência comercial chinesa na região apoiaram a iniciativa norte-americana. Opositores do governo peruano, por outro lado, classificaram a medida como interferência de Washington nos assuntos internos do país e relacionaram a decisão à disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
Na Colômbia, as medidas atingiram a senadora Martha Isabel Peralta, ligada ao Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS), e o empresário do setor energético Euclides Torres.
Washington vinculou as restrições aplicadas na região a acusações de corrupção, narcotráfico ou ações que, na avaliação do governo dos Estados Unidos, ameaçam instituições democráticas.
O Departamento de Estado afirmou que a conduta atribuída a Mariaca prejudicaria os esforços dos EUA de combate ao chamado “narcoterrorismo” e enfraqueceria instituições bolivianas. A afirmação representa a posição oficial de Washington e é contestada pelo procurador.
No caso boliviano, a disputa ganhou dimensão política adicional porque Mariaca sustenta que as sanções não podem ser separadas das investigações realizadas sob seu comando. Ao mesmo tempo, autoridades bolivianas buscam obter dos Estados Unidos os elementos que fundamentaram as acusações.
Fonte: Brasil 247