Primeira professora negra do ITA rompe barreiras e lança livro sobre sua jornada
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
Beatriz Bevilaqua, 247 – “Eu entrei numa sala onde ninguém como eu tinha entrado antes e não entrei para provar que merecia estar lá. Eu já sabia que eu merecia.” A frase resume a trajetória de Sonia Guimarães: pioneirismo, ciência e inovação marcam o caminho da primeira mulher negra doutora em Física do Brasil e primeira professora negra do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que transformou uma série de “nuncas” ouvidos ao longo da vida em uma carreira dedicada à pesquisa, à educação e ao desenvolvimento tecnológico.
Aos 70 anos, completados em junho, Sonia lança seu primeiro livro, “A primeira, não a última”, publicado pela Bambual Editora, com prefácio do rapper e escritor Emicida. A obra, com lançamento previsto para outubro, já está em pré-venda e reúne episódios de sua trajetória que, segundo a autora, nunca haviam sido contados publicamente.
O livro parte de uma experiência pessoal para discutir questões que também atravessam o universo profissional e empreendedor, como por exemplo identificar habilidades, fazer escolhas de carreira, lidar com obstáculos e continuar avançando quando o ambiente parece indicar que determinado caminho não é para você.
Desde os primeiros anos de formação, Sonia encontrou na Física uma área em que poderia desenvolver suas capacidades. Durante a graduação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), teve contato com a Física do Estado Sólido e com os estudos sobre semicondutores, experiência que ajudou a definir uma trajetória que depois se aproximaria da pesquisa em sensores infravermelhos.
“Os semicondutores vão ser a razão de toda a inovação tecnológica do futuro”, ouviu ainda durante sua formação. A previsão passou a fazer parte de sua própria trajetória, afinal Sonia se especializou na área e desenvolveu pesquisas relacionadas a semicondutores e sensores infravermelhos, mestrado pela USP de São Carlos, doutorado pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, e atuação como professora do ITA desde 1993. Em 2020, recebeu o registro de uma patente de um sensor infravermelho desenvolvido para a área de defesa nacional.
Mais do que a formação acadêmica, porém, Sonia afirma que reconhecer as próprias habilidades é parte fundamental para construir uma trajetória profissional. Para ela, a escolha de uma carreira precisa partir da própria pessoa, e não apenas das expectativas de familiares ou de outras pessoas. A identificação entre aquilo que alguém gosta de fazer e aquilo que está disposto a enfrentar pode ser determinante para atravessar os obstáculos que surgem no caminho.
“É muito importante que a escolha seja tua, que seja uma coisa que realmente você gosta e que você queira aguentar todos os trancos e barrancos”, afirma.
Persistência não significa insistir a qualquer custo
A experiência de Sonia também traz uma reflexão sobre um tema frequente no empreendedorismo sobre persistir diante das dificuldades. Para ela, entretanto, persistência não significa necessariamente continuar fazendo exatamente a mesma coisa em qualquer circunstância.
Em situações em que uma atividade está provocando sofrimento intenso, ela defende a possibilidade de interromper temporariamente o percurso, reorganizar-se e voltar a avaliar os próximos passos. Em outros casos, diante de obstáculos que podem ser superados, a orientação é buscar alternativas para continuar. A distinção é importante porque a trajetória profissional não é linear: é preciso reconhecer quando uma barreira exige apenas uma mudança de estratégia e quando é hora de parar, respirar e reorganizar o caminho.
A carreira de Sonia mostra ainda como a pesquisa científica e a inovação tecnológica podem caminhar juntas. O reconhecimento por essa trajetória veio especialmente na última década: em 2023, recebeu a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito pelos seus 30 anos de atuação no ITA e foi incluída pela Bloomberg Línea entre as 100 pessoas mais inovadoras da América Latina; em 2025, foi escolhida pela Forbes entre as Mulheres Mais Poderosas do Brasil.
Hoje, além das atividades acadêmicas, participa de palestras e debates sobre diversidade de gênero e raça na ciência e na tecnologia. A escolha de transformar essa trajetória em livro tem relação com a possibilidade de ampliar o alcance de sua experiência. Sonia conta que costuma abordar parte dessas questões em palestras, mas considera que o livro permite chegar a pessoas que não necessariamente teriam acesso a esses encontros. A mensagem central é dirigida especialmente a meninas e mulheres que pretendem seguir carreiras científicas ou tecnológicas e encontram dificuldades para conseguir espaço.
“Se eu consegui, você também consegue”, resume a autora.
Quem participa da inovação?
A discussão sobre carreira, no entanto, extrapola a história individual de Sonia. Para a cientista, a participação de diferentes grupos sociais na ciência e na tecnologia é uma questão diretamente relacionada ao desenvolvimento do país. Ela chama atenção para o risco de uma nova onda de inovação tecnológica reproduzir desigualdades já existentes: com o avanço da inteligência artificial e de outras tecnologias, não basta desenvolver novas ferramentas, é necessário ampliar o acesso à educação e às oportunidades para que diferentes grupos possam participar desse processo.
Para ilustrar o peso dessa exclusão, Sonia é direta: um país que deixa de fora mais da metade de sua população – mulheres e negros, no caso do Brasil – dificilmente vai conseguir se desenvolver plenamente.
Na avaliação da cientista, a educação é uma das bases para mudar esse cenário. Ela defende maior qualidade das escolas, valorização dos professores e ampliação das oportunidades de formação, especialmente para que estudantes desenvolvam competências necessárias para lidar com tecnologias emergentes.
A preocupação também envolve habilidades básicas. Sonia cita a dificuldade de parte dos estudantes brasileiros em interpretar textos e relaciona essa deficiência aos desafios que eles encontrarão posteriormente em processos seletivos, na universidade e diante de ferramentas de inteligência artificial. Para ela, inovação não pode ser pensada apenas como criação de novas tecnologias, também depende de quem terá condições de aprender, criar, pesquisar e empreender a partir delas.
“A primeira, não a última”
O título do livro sintetiza justamente essa preocupação. Sonia foi a primeira mulher negra doutora em Física do Brasil e a primeira professora negra do ITA, mas não quer que sua história permaneça como uma exceção.
A publicação reúne episódios desde sua infância na Zona Norte de São Paulo, nos anos 1950, passando pela formação acadêmica no Brasil, pelo doutorado em Manchester e pela experiência como cientista e professora, incluindo os episódios de discriminação e resistência que marcaram sua trajetória no ambiente acadêmico. Ao transformar essas experiências em memória, Sonia busca registrar não apenas as conquistas, mas também o custo de ocupar espaços nos quais pessoas como ela ainda eram raras.
O livro tem 192 páginas, preço de R$ 64,90 na versão impressa, e já está em pré-venda no site da editora com desconto de 25%. Sessões de autógrafos em São Paulo e São José dos Campos estão previstas a partir de outubro. Para Sonia, ser a primeira só faz sentido se houver outras depois.
Assista à entrevista na íntegra:
Fonte: Brasil 247