‘Prenúncio de ingerência’: crítica de Trump coloca governo Lula em alerta
Por Jamil Chade — ICL Notícias
Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Chade foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai usar seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, na próxima semana, para insistir sobre o fato de que seu governo está comprometido com o combate ao narcotráfico e cartéis que ameaçam a segurança de cidades. A inclusão do tema servirá para rebater as críticas por parte de Donald Trump.
O Brasil também espera “expôr” a manobra da Casa Branca para usar o combate ao crime organizado para justificar intervenções na América Latina.
Conforme o ICL Notícias antecipou na quarta-feira, o governo Trump criticou o Brasil por “fracassar” em lidar com o crime organizado. Num documentos oficial, a referência ao país foi citada e acendeu o alerta máximo no governo brasileiro.
A declaração do presidente americano que foi enviada ao Congresso dos EUA aponta a insatisfação da Casa Branca com a situação no Brasil e foi recebida como um sinal de que alguma medida poderá ser anunciada contra o país nos próximos dias.
“Essas organizações terroristas brasileiras representam uma ameaça crescente à paz e à segurança mundial, e o governo brasileiro precisa, com urgência, adotar medidas enérgicas para enfrentá-las e derrotá-las antes que se expandam e se fortaleçam”, alertou o documento assinado por Trump.
Para o governo, trata-se de um possível prenúncio de uma eventual ingerência às vésperas da eleição. O ato de Trump ainda coincide com a ida de Eduardo Bolsonaro para Washington, pedindo novas sanções contra autoridades nacionais.
A decisão de Brasília, portanto, foi a de reagir de forma institucional, mas também se preparar para uma gestão internacional.
Em nota emitida na noite de quarta-feira, o Ministério da Justiça criticou a referência feita por Trump ao Brasil, disse que não há nenhum novo motivo para a queixa e lamenta que as propostas do governo Lula de parceria com os EUA para lutar contra o crime jamais foram respondidas pela Casa Branca.
O que surpreende o governo brasileiro é que, oficialmente, o governo norte-americano não incluiu o Brasil nos países que produzem ou que são rotas importantes do tráfico. Esse era o foco do documento. Mesmo assim, sem explicações, Trump dedicou um trecho de seus ataques ao Brasil.
“A alusão registrada no texto não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege esse mecanismo anual. Trata-se, portanto, de manifestação circunstancial inserida na parte narrativa do documento, sem respaldo em sua parte dispositiva”, diz o comunicado do Brasil.
Lula, porém, também usará o palco internacional para fazer o alerta. O evento das Nações Unidas começa na próxima terça-feira, em Nova York, e Lula fará uma “viagem relâmpago”. O presidente não quer dar a impressão de que está se distanciando da campanha eleitoral. Mas considera que o palco da ONU é um espaço privilegiado para mandar mensagens, tanto ao mundo quanto à opinião pública brasileira.
Conforme o ICL Notícias revelou com exclusividade, Lula levará uma mensagem forte sobre soberania, democracia e a defesa do multilateralismo.
Agora, a decisão de incluir o tema do combate ao narcotráfico no discurso foi estratégica. De um lado, Lula se antecipa ao presidente dos EUA, que será o segundo chefe de estado a discursar na ONU, depois do brasileiro. O governo considera citar os investimentos de R$ 11 bilhões no combate ao crime, assim como a proliferação de operações da Polícia Federal.
Mas há também um aspecto doméstico na decisão de Lula de incluir o tema na agenda. Flávio Bolsonaro já anunciou que, se vencer a eleição, vai aderir às alianças militares de Trump na região, supostamente para lutar contra o crime organizado. Além disso, anunciou que vai classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, exatamente como havia solicitado Trump.
Lula, ao falar do tema, tentará mostrar que o combate ao crime já está sendo tratado pelo atual governo e que Brasília tem uma estratégia.
Além do regime ilegal, trabalhador relatou falta de higiene, constrangimentos e comida estragada
Fonte: ICL Notícias