Por que o mundo está de olho no Brasil quando o assunto é bioinsumos

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Por Leonardo Sobreira — Brasil 247

Na busca por soluções que consigam enfrentar os desafios da agricultura moderna, a adoção de tecnologias vivas tem transformado as lavouras. Em Piracicaba, no interior de São Paulo, o SPARCBio (Centro Avançado de Pesquisa sobre Controle Biológico) atua como um polo de vanguarda inédito no país. O objetivo da instituição é estabelecer um novo modelo de manejo de pragas e doenças focado na agricultura tropical, desenvolvendo soluções baseadas na inovação e na sustentabilidade para transferir essa tecnologia diretamente aos produtores.

As instalações e os avanços desse centro foram apresentados durante uma press trip organizada pela ApexBrasil. Apoiado por uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), através da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP; a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a multinacional líder em controle biológico Koppert, a iniciativa fomenta uma agricultura mais moderna, que ganha projeção mundial. O professor doutor José Roberto Postali Parra, diretor do SPARCBio, apresentou a estrutura multidisciplinar focada em três pilares: a descoberta de novos agentes, o desenvolvimento de novos produtos e a geração de conhecimento em Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Brasil como liderança em bioinsumos

As condições de cultivo no Brasil diferem drasticamente das encontradas no hemisfério norte. O clima, a extensão de terras e a dinâmica de plantio exigem métodos exclusivos. O professor Parra destaca que, devido a essas particularidades, o país precisou criar sua própria ciência de base para o controle biológico, resultando em uma liderança inquestionável no setor.

“O Brasil é líder na agricultura tropical com uma agricultura diferente, com características como campos abertos, duas ou três safras por ano, sucessão de culturas e condições climáticas adequadas para pragas e doenças. Se você está planejando desenvolver um sistema de controle biológico, é impossível copiar de outros países. É necessário desenvolver uma tecnologia com nossas próprias características para atender a nossa agricultura.”

Historicamente, o mundo voltava sua atenção apenas aos defensivos sintéticos, mas uma crise agrícola no Brasil mudou esse cenário de forma definitiva. Parra explica que o ano de 2013 foi um ponto de virada, com o surgimento de uma praga devastadora e a ausência de venenos convencionais eficazes contra ela.

“O marco no controle biológico é considerado em 2013, quando foi registrada no Brasil a Helicoverpa armigera. Naquela época, não havia ingrediente ativo de inseticidas para essa praga. Então, eles usaram um vírus específico e o Trichogramma pretiosum, um microparasitoide. O resultado foi fantástico. Após esse ano de 2013, o número de produtos de bioinsumos registrados no Brasil é inacreditável.”

O sucesso foi tão grande que, com a legislação se tornando mais ágil, o país viu um salto na liberação de novos agentes. Hoje, enquanto o mercado global de controle biológico cresce a uma taxa de 15% a 20% ao ano, o mercado brasileiro avança entre 30% e 35%.

Referência mundial

O modelo desenvolvido nos laboratórios e aplicado nas lavouras brasileiras passou a chamar a atenção de toda a comunidade internacional. Diariamente, delegações estrangeiras visitam o centro paulista para entender como o Brasil consegue realizar o controle de pragas de forma biológica em extensões de terra tão vastas. Segundo o diretor do SPARCBio, a principal diferença está na escala e no ambiente de aplicação.

“O controle biológico na Europa e nos Estados Unidos é focado principalmente em cultivos indoor [em ambientes fechados] ou de alto valor, estufas em regiões temperadas. Nós estamos usando isso na parte central do Brasil, com temperaturas passando de 40 graus Celsius, e continuamos usando biológicos em campo aberto, em larga escala. Não creio que haja nenhum outro país fazendo isso em 190 milhões de hectares atualmente.”

Esse espelhamento internacional tem levado órgãos como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a estudar a regulamentação brasileira. Países africanos, que possuem desafios climáticos semelhantes, já buscam acordos para implementar uma legislação tão rápida e eficaz quanto a do Brasil. Um dos maiores exemplos dessa tecnologia nacional aplicada no campo é o uso de vespas para parasitar ovos de pragas, com liberações feitas até mesmo por drones.

“Falando sobre o Trichogramma galloi, este ano ele será liberado em 6 milhões de hectares. E não há outro programa no mundo que chegue perto disso, tudo aplicado por drones. É uma realidade.”

Competição com as químicas?

Com o crescimento acelerado do mercado de produtos biológicos, surge naturalmente o questionamento sobre a reação da indústria química tradicional. No entanto, os pesquisadores garantem que a abordagem do controle biológico não visa a exclusão dos defensivos químicos, e sim uma mudança profunda na forma de olhar para a lavoura. O Dr. Ítalo Delalibera, pesquisador principal da área de microrganismos, explica que a estratégia biológica atua na raiz do bem-estar da planta.

“Nós não estamos competindo com as empresas químicas, não tiramos nenhuma fatia de mercado delas. A maioria dessas áreas onde o controle biológico cresce é porque os químicos não estão funcionando. Os biológicos são um paradigma diferente: não estamos focando em apenas uma praga, estamos aumentando a resiliência do sistema e deixando as plantas mais saudáveis.”

Ele esclarece que microrganismos, como fungos e bactérias, alteram o metabolismo da planta, tornando-a mais resistente. Além disso, as próprias gigantes do setor químico já estão inseridas nesse mercado para complementar seus portfólios, mitigando a evolução da resistência das pragas aos venenos tradicionais.

O professor Parra complementa, reforçando que a verdadeira ciência por trás do sucesso agrícola reside na união de métodos através do Manejo Integrado de Pragas.

“Não estamos indicando o controle biológico sozinho; estamos indicando o MIP. É possível usar outros métodos. Na minha opinião, não é uma boa posição brigar com os químicos. Acho que há espaço para todos e é possível usar ambos sem prejuízos.”

Bioinsumos em animais

Embora as plantas (especialmente commodities como soja, milho e algodão) dominem o cenário atual do controle biológico, o SPARCBio já tem os olhos voltados para uma nova fronteira: o uso da tecnologia viva na agropecuária e no setor veterinário. Os mesmos princípios científicos usados para controlar lagartas e doenças nas plantas estão sendo direcionados para o rebanho e para as aves, como detalha o Dr. Ítalo Delalibera.

“Agora começamos a ter projetos também para controlar, por exemplo, a Salmonella em aves. Os mesmos princípios que se aplicam ao controle de nematoides e vermes no campo podem ser aplicados na produção avícola. Existem produtos, como o uso de Bacillus, que podem ser aplicados diretamente na ração para evitar o aumento da Salmonella. Isso é muito importante para o Brasil, pois exportamos muito frango e não podemos mais usar antibióticos da maneira que se fazia no passado.”

Outro grande desafio em pesquisa envolve a pecuária bovina. No entanto, a introdução dessas tecnologias enfrenta um gargalo de regulamentação. Como os bioinsumos são historicamente associados às plantas, a legislação veterinária ainda precisa ser adequada a essa nova realidade ecológica.

“Ainda estamos aguardando uma nova legislação. Eles vão colocar tudo sob a mesma lei, então, se for para uso florestal, agrícola ou veterinário, deveria estar sob o mesmo guarda-chuva. Mas não está regulamentado agora. Se eu trabalho com controle de carrapatos, precisamos de pelo menos 95% de eficácia para registrar um novo produto, o que é muito difícil. Bioinsumos não é só entomologia [estudo dos insetos] e fitopatologia; temos muita relação com a fisiologia e a genética. Está mudando agora.”

A estrutura do SPARCBio reflete essa modernização contínua. Para viabilizar a criação de soluções em larga escala contra pragas gigantescas da nossa agricultura — como o percevejo-marrom na soja e o bicudo-do-algodoeiro — os pesquisadores desenvolvem desde dietas artificiais em câmaras climáticas até pesquisas de automação e inteligência artificial para baratear a produção de vespas parasitoides.

Trata-se de uma verdadeira “fábrica” de natureza, provando que o equilíbrio ambiental é, também, a tecnologia mais rentável e avançada do agronegócio.

Fonte: Brasil 247

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