Por Gustavo Tapioca — Brasil 247

Em 2007, Flávio Bolsonaro subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para defender as milícias. Pediu que não fossem estigmatizadas, atribuiu-lhes benefícios e disse que gostaria de pagar 20, 30 ou 40 reais para não ter o carro furtado na porta de casa.

A milícia cobra para oferecer “segurança”. Impõe regras, controla serviços, domina territórios. O deputado Flávio via nessa cobrança a possibilidade de proteger o próprio carro, e a milícia. Os moradores que não podem pagar conhecem o outro lado da história. Sofrem sérias e cruéis represálias. É nesse discurso, pronunciado 20 anos antes de qualquer investigação sobre Dark Horse, que começa a resposta à pergunta do título deste artigo.

Às vésperas da eleição de 4 de outubro, Flávio disputa a Presidência com chance real de vencer. As pesquisas mostram empate técnico em simulações de segundo turno com Lula. Como votar num candidato com essa trajetória política, relações e promessas que já permitem avaliar o risco de lhe entregar o poder?

A homenagem a Adriano e o gabinete de Flávio

O discurso do deputado, hoje candidato a presidente, se ajusta a outras escolhas políticas. Em 2003, Flávio apresentou uma moção de louvor ao policial Adriano da Nóbrega. Em 2005, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes, maior homenagem da Alerj. Adriano recebeu a comenda quando estava preso, acusado de homicídio.

Anos depois, o Ministério Público o apontaria como chefe de milícia e do Escritório do Crime. Morreu em tiroteio em Esplanada, na Bahia, em 9 de fevereiro de 2020. A família e o advogado de Adriano alegaram “queima de arquivo” – “ele tinha muito o que falar sobre milícia, rachadinha e políticos do Rio”.

A ligação de Flávio com Adriano da Nóbrega alcançou a folha de pagamento do então deputado. Danielle Mendonça da Costa, mulher de Adriano, e Raimunda Veras Magalhães, mãe dele, ocuparam cargos no gabinete de Flávio.

Flávio sustenta que não conhecia as atividades ilícitas atribuídas a Adriano. Há, contudo, fatos que não dependem desse conhecimento: o então deputado estadual o homenageou duas vezes e empregou duas pessoas de sua família.

Foi nesse gabinete que surgiu a investigação das rachadinhas. Em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. A acusação dizia respeito ao retorno de parte dos salários pagos a assessores. Depois, decisões do STJ e do STF anularam provas; o próprio Ministério Público pediu a extinção da denúncia, que foi rejeitada e arquivada em 2022. Não houve condenação nem julgamento do mérito que tenha comprovado os crimes.

O arquivamento deve ser dito por inteiro. Também devem ser lembrados, por inteiro, o discurso de Flávio sobre as milícias, as homenagens e as nomeações.

Uma emenda pedida por Peixe

Em 2023, um personagem do mundo das milícias voltou a aparecer nas relações do gabinete do senador Flávio Bolsonaro. Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, procurou uma assessora do senador e pediu dinheiro para um projeto de futebol infantil de uma entidade na Taquara, no Rio. Nas mensagens obtidas pela piauí, ele chama Flávio de “nosso Senador”. A assessora orienta o envio de um pedido formal, convida Peixe a reforçá-lo pessoalmente com Flávio e sugere que leve o então deputado Chiquinho Brazão.

Em 29 de novembro daquele ano, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) recebeu R$ 200 mil por emenda parlamentar de autoria do senador. O destinatário formal foi a entidade, não a conta de Peixe. Mais tarde, o Tribunal de Contas da União apontou irregularidades nas contratações feitas com o recurso. O Ifop contestou as conclusões técnicas. A assessoria de Flávio afirmou que a emenda seguiu a lei e os critérios do Ministério do Esporte e que cabe à entidade prestar contas da execução.

Em fevereiro de 2026, Peixe foi condenado a nove anos por integrar a organização criminosa armada dos irmãos Brazão. Os irmãos foram condenados em 25 de fevereiro de 2026 a 76 anos e 3 meses de reclusão em regime fechado pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Os milhões de Daniel Vorcaro

O outro extremo dessa trajetória passa pelo Banco Master.

Daniel Vorcaro, seu controlador, entrou no financiamento de Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro. Mensagens e comprovantes revelados pelo Intercept Brasil mostram que Flávio, já candidato à Presidência da República, participou diretamente das negociações e cobrou a liberação dos recursos.

O plano previa US$ 24 milhões. Um relatório do Coaf examinado pela piauí aponta que US$ 12,3 milhões, mais de R$ 60 milhões, foram transferidos até setembro de 2025 pela Entre Investimentos a um fundo chamado Havengate, no Texas. Os US$ 24 milhões eram o valor negociado; os US$ 12,3 milhões são os repasses identificados.

O fundo era administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos, onde vive de forma milionária, desde fevereiro de 2025. Por que o dinheiro destinado ao filme passou por essa estrutura, em vez de ser remetido diretamente à produtora? Quanto chegou efetivamente à produção? Quem se beneficiou das transferências? Essas perguntas estão agora diante dos investigadores. E sem resposta do candidato a presidente do Brasil.

O relacionamento entre candidato e banqueiro não era distante. Em setembro de 2025, Flávio cobrou pessoalmente parcelas atrasadas. Em 16 de novembro, mandou para Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. No dia seguinte, o banqueiro foi preso. No outro, o Banco Central liquidou o Master.

Segundo o Fundo Garantidor de Créditos, a liquidação de três instituições do conglomerado exigiu uma provisão de R$ 40,6 bilhões para garantias aos credores com investimentos no Master de até R$ 250 mil. Esse número mede a dimensão da quebra do Banco Master.

Quando perguntado inicialmente pelo Intercept sobre o financiamento, o candidato Flávio disse que a informação era falsa. Depois, confirmou que havia buscado recursos privados para o filme e negou irregularidades. Em outra entrevista, afirmou que o último pagamento de Vorcaro ocorrera em maio de 2025. O relatório do Coaf registra mais uma parcela em setembro. A divergência pede uma explicação do candidato, sobretudo porque ele próprio continuava cobrando de Vorcaro, a quem trata de “Irmão, estou e estarei contigo sempre.”

Desde julho, Flávio é alvo de um inquérito, a pedido da Polícia Federal e com aval da Procuradoria-Geral da República, para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do Dark Horse. O senador que quer ser presidente da República deve respostas públicas sobre o destino do dinheiro que ajudou a captar e cobrou pessoalmente do “irmão” Vorcaro.

O futuro que ele anuncia

As propostas do candidato permitem antever seu governo. Na segurança, Flávio promete construir cinco novos presídios federais de segurança máxima “no modelo adotado por Bukele”, presidente de El Salvador, “e criar 500 mil vagas em quatro anos”. O nome de seu plano é TREVA, o complexo que reuniria os novos presídios aos cinco já existentes.

É preciso olhar para o modelo que ele escolheu. Os homicídios caíram em El Salvador, mas Bukele mantém o país sob estado de exceção desde 2022, com prisões em massa e garantias judiciais suspensas. Ofereceu ainda a Trump vagas pagas no CECOT para encarcerar deportados dos Estados Unidos. Em 2025, 252 venezuelanos passaram pela prisão; muitos não tinham condenação criminal.

Na economia, Daniella Marques, coordenadora da equipe de Flávio, chama Milei de “ótimo exemplo” e diz ter mapeado mais de mil normas para revogação.

Nas relações internacionais, Flávio entrega as riquezas estratégicas do Brasil a Trump e Rubio e oferece a Washington sua futura equipe de transição antes mesmo de saber o resultado da eleição.

Anistiar o pai e os militares golpistas

Na política, o candidato promete anistia para libertar o pai, Jair Bolsonaro, e militares de alta patente que cumprem pena de até 27 anos por tentativas de golpe contra o Estado Democrático de Direito. Tentativas de golpe que culminaram no 8 de janeiro de 2023, data histórica da invasão do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. As investigações posteriores encontraram o Plano Verde Amarelo, que incluía o assassinato de Lula e Alckmin, já empossados desde 1º de janeiro de 2023.

O STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses por liderar uma organização criminosa armada que tentou impedir a posse e derrubar o presidente eleito. No mesmo núcleo, os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira e o almirante Almir Garnier receberam penas de 19 a 26 anos. Flávio pede votos para abrir-lhes a porta. Chamar isso de pacificação seria insultar os brasileiros cuja escolha nas urnas eles tentaram anular.

Alerta sobre a soberania

A Estratégia de Segurança Nacional de Trump, já adotada por toda a América do Sul, com exceção do Brasil e do Uruguai, anuncia a intenção de restaurar a preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e identificar recursos estratégicos da região. Flávio apresentou os minerais críticos do Brasil como resposta à “dependência americana da China.”

Depois ofereceu, em carta a Marco Rubio, sua futura equipe de transição para negociar um acordo comercial caso fosse eleito. Rubio agradeceu a oferta, enquanto mantinha as divergências comerciais de Washington com o Brasil. É a combinação que leva o economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do Banco de Desenvolvimento do BRICS e ex-diretor executivo no FMI pelo Brasil, a advertir que o país pode perder a capacidade de decidir seu destino “sem a necessidade de disparar um tiro sequer”.

O Brasil não pode ser governado como se a proteção da família do presidente e a satisfação de uma potência estrangeira fossem prioridades nacionais. A decisão do voto não depende do resultado dos inquéritos. Nasce dos atos públicos de Flávio, da escolha dos seus parceiros, das explicações que ainda deve e do governo que promete.

Para os brasileiros, mais celas. Para Jair e os generais condenados pela tentativa de golpe, anistia. Para Washington, minerais brasileiros e uma equipe de transição.

O voto em Flávio Bolsonaro é o de transformar o perdão ao pai e a seus aliados em programa de governo. E entregar o Brasil a Trump e Rubio.

Fonte: Brasil 247

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