‘Por que não prenderam antes de matar?’, família denuncia execução de jovens pelo Baep
Por Mariana Rosetti — Ponte
Entre você e a realidade
Compartilhe este conteúdo
Desde a tarde da última quarta-feira (2/9), as mães de Bruno Augusto de Oliveira Ferraz, de 20 anos, e do adolescente Mateus Marcondes Mizael, 17, buscam respostas a uma pergunta dolorosa: por que os filhos foram mortos por policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP)?
O caso ocorreu na rua Vicente de Felice, no bairro Jardim Ouro Verde, em Limeira, no interior de São Paulo. Segundo o relato dos policiais registrado no boletim de ocorrência, ao qual a Ponte teve acesso, Bruno e Mateus estariam dirigindo um Jeep Renegade com registro de roubo e placa adulterada. Ainda de acordo com os PMs, os jovens teriam reagido à abordagem com armas de fogo, levando os policiais a efetuarem disparos em alegada legítima defesa.
A Ponte também teve acesso aos autos do inquérito policial instaurado para apurar as circunstâncias das mortes.
As mães negam que os jovens estivessem armados e afirmam que os dois não sabiam que o carro era roubado. O veículo, segundo o relato delas, teria sido comprado no dia anterior às mortes.
Dor e incerteza se transformaram em indignação após a descoberta de imagens de uma câmera de segurança. O vídeo, ao qual a Ponte teve acesso, mostra um trecho da ação policial que levanta dúvidas sobre a narrativa apresentada pelos policiais na delegacia (veja acima).
Leia também: Por que o seu candidato deveria falar de letalidade policial nessas eleições?
Ao assistirem à gravação, as mães, que já lutavam para provar a inocência dos filhos, passaram a apontar que os rapazes não morreram em um confronto, mas foram executados sem que tivessem qualquer chance de explicar o mal-entendido.
“Eles [os policiais] fizeram uma encenação para falar que os meninos tavam armado [sic] e atentou contra a vida deles, mas o vídeo prova que não teve troca de tiro. Por que não prenderam para os meninos se defender [sic], mas nem nisso. Executaram a sangue frio meu filho”, lamenta uma delas.
Era por volta das 17h quando moradores da rua Vicente de Felice tiveram seus afazeres interrompidos pelo barulho de tiros. É possível ouvir 14 disparos no vídeo registrado pela câmera de segurança. As imagens mostram três viaturas do BAEP cercando um Jeep Renegade prata.
Nas imagens, uma das viaturas está posicionada à frente do carro, outra do lado esquerdo e a terceira atrás. Do lado direito, está a calçada. Nenhuma delas está com o sinal luminoso (giroflex) ligado.
O vídeo também registra o momento em que três agentes desembarcam da viatura posicionada atrás do Jeep e permanecem na traseira do veículo policial. Durante o trecho registrado, eles observam a rua, no sentido oposto ao da ocorrência. Um quarto policial se posiciona atrás da porta aberta da viatura, como uma espécie de escudo.
Alguns segundos depois, o motorista do Jeep aparece abrindo a porta devagar. É Mateus. Ele está com um dos braços levantados e uma das pernas prestes a tocar o chão quando é possível ouvir disparos.
Nesse momento, o policial que estava posicionado atrás da porta da viatura deixa o posto e se junta aos colegas na traseira do veículo, deslocando-se de costas para o Jeep, onde estavam Mateus e Bruno. Após o início dos disparos, o giroflex da viatura posicionada ao lado do Jeep é acionado.
Na sequência, dois policiais que estavam na viatura posicionada ao lado do Jeep abrem o porta-malas e retiram o que parecem ser dois escudos. Os PMs se dirigem ao veículo onde estavam Mateus e Bruno e abrem a porta do passageiro, momento em que o vídeo termina. As imagens não permitem identificar quem efetuou os disparos nem mostram se os jovens estavam armados ou se alguém foi atingido.
Segundo o boletim de ocorrência, Bruno e Mateus foram atingidos e o socorro foi acionado, mas as mortes foram constatadas ainda no local. Esse momento não aparece no trecho registrado pela câmera de segurança obtido pela Ponte.
A Ponte pediu que especialistas em segurança pública, com experiência na atuação da Polícia Militar, analisassem as imagens. Adilson Paes de Souza, tenente-coronel aposentado, mestre em Direitos Humanos e doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), aponta que a maneira como foi feita a interceptação ao veículo “é totalmente contrária às normas da PM” e deixa muitas dúvidas em relação à versão apresentada pelos policiais.
Ele explica que tanto a viatura que para na frente, na chamada “linha de tiro”, como a viatura posicionada ao lado do Jeep estão em posições que colocam em risco a vida do próprio policial. “Para ele [o policial] fazer isso, é porque ele estava se sentindo seguro de que não viria reação nenhuma”, diz.
Adilson também chama atenção para o comportamento dos policiais da viatura traseira. “O natural é que o motorista desça, se esconda atrás da porta, mas fique com a arma apontando para o veículo. Os demais membros da guarnição também se protejam, usem a viatura como escudo, mas apontando a arma para o veículo, para os ocupantes. E não foi isso o que aconteceu, conforme mostram as imagens. Eles estão olhando para o lado oposto ao do veículo”.
Leia também: ‘Seguimos até o fim’: PMs vão a júri por tentarem matar motoboy negro durante a Operação Escudo
Souza acredita que os tiros ouvidos no vídeo foram para o alto, já que, “em nenhum momento, vê o carro [lataria e vidros] sendo danificado por ter sido acertado por disparos de arma de fogo”. Na sua opinião, o que aparece nas imagens “abre a possibilidade de arguir se realmente eles foram mortos no mesmo local e no momento da abordagem [mostrada no vídeo]”.
No entanto, Adilson afirma que as imagens deixam questões sobre a dinâmica da ocorrência que só podem ser esclarecidas com outros elementos da investigação. Para ele, é necessário ter acesso ao laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) e aos laudos periciais do local e do veículo.
Os documentos obtidos pela Ponte contêm as requisições desses exames, mas não os laudos concluídos. O inquérito prevê, ainda, exames das armas e munições, confrontos balísticos e a análise das imagens das câmeras corporais para reconstituir a dinâmica da ocorrência.
Já José Vicente, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, defende que as imagens não permitem ver detalhes relevantes, “como [se há] arma na mão [dos suspeitos]”. Em sua análise, é “precipitado falar em execução”, tendo em vista que o policial poderia atirar simplesmente por vê-los armados.
A Polícia Civil instaurou, em 8 de setembro, um inquérito para apurar as circunstâncias das mortes de Bruno e Mateus. O procedimento investiga um homicídio decorrente de intervenção policial e determina, entre outras diligências, perícias nas armas apreendidas, a busca por outras imagens de câmeras de segurança, a identificação de testemunhas e a oitiva dos policiais diretamente envolvidos na ocorrência.
Segundo a versão policial registrada no BO, equipes da PM tinham a informação de que pessoas envolvidas em um roubo utilizavam um Jeep Renegade. O documento afirma que “uma das equipes” localizou um automóvel com essas características e iniciou uma tentativa de abordagem.
Ainda de acordo com o BO, os ocupantes teriam reagido com armas de fogo contra os policiais, que efetuaram disparos em alegada legítima defesa própria e de terceiros. O documento, porém, não informa quantos disparos foram efetuados pelos policiais. As imagens obtidas pela Ponte permitem ouvir ao menos 14 disparos, mas não identificar de onde partiram.
Foram apreendidas para perícia três armas relacionadas aos policiais envolvidos na ocorrência: um fuzil Imbel calibre 5,56, relacionado a Luis Fernando Castilho, e duas pistolas Glock calibre .40 relacionadas a Renan Oliveira Chagas e Josivan Carvalho Ferreira. O BO afirma que os policiais efetuaram disparos durante a ocorrência, mas não informa quantos tiros foram disparados por cada agente.
Segundo o BO, duas pistolas calibre .380, ambas com numeração suprimida, foram atribuídas aos jovens. Uma delas, da marcas Taurus, tinha sete cartuchos íntegros. A outra, sem marca aparente, tinha três cartuchos também íntegros. As duas também foram apreendidas para perícia. O documento não informa quantos cartuchos havia originalmente nas armas nem quantos disparos teriam sido efetuados por elas.
A polícia também registrou a apreensão de 10 gramas de cocaína, em 14 porções, e 31 gramas de maconha, em sete porções, além de dois celulares e R$ 587 em espécie.
Bruno e Mateus se conheciam há menos de um mês. Bruno morava em um condomínio fechado, com a mãe e duas irmãs, há anos. Mateus havia se mudado para o mesmo prédio há menos de 20 dias, passando a dividir um apartamento com uma de suas irmãs.
No dia da ocorrência, a aproximação entre os vizinhos motivou o passeio no carro recém-adquirido por Mateus. Era por volta das 10h da manhã quando Bruno avisou a mãe de que daria uma volta com o amigo. “Daí eu falei para ele: ‘Tá bom, meu filho, não demora para chegar’”, recorda o último diálogo que tiveram.
Para a mãe de Mateus, a dor de reconstruir os passos do filho se mistura à ausência no cotidiano. Em meio às lágrimas, conta que, poucas horas antes de falar com a reportagem, foi atingida pela saudade ao caminhar até o mercado.
Assine a Newsletter da Ponte! É de graça
“Ele pegava minha mão para atravessar a rua porque eu operei a coluna. Ele passava ‘doutorzinho’ [pomada massageadora] em mim”, recorda. “Meu filho tava rendido, meu filho tava com a mão para cima [quando foi morto]”.
A ausência de respostas deu lugar à convicção, para ambas, de que os jovens não tiveram chance de sobrevivência.
Além da dor da perda de duas vidas tão jovens, as duas mulheres agora convivem com o medo de represálias. “Estão mandando mensagem no meu celular, olhando os meus status. Eu nunca vi a polícia fazer isso. Falaram que é da Corregedoria. Eu tô com medo”, confidencia a mãe de Bruno.
O receio constante passou a ditar a rotina da família que ficou, e a busca por justiça esbarra na sensação de vulnerabilidade. “Eu venho trabalhar com medo, sabe? Eu tô deixando minhas filhas em casa com medo, porque eu não sei. Não sei o que eles podem fazer comigo, porque executaram o meu filho”, completa.
A Ponte solicitou um posicionamento oficial à Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) questionando como a corporação avalia as imagens que levantam dúvidas sobre a versão dos policiais, se os agentes envolvidos foram afastados das ruas, sobre o conteúdo das câmeras corporais e as denúncias de intimidação contra as famílias.
Em nota, a pasta se limitou a informar que foi instaurado “um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar todas as circunstâncias dos fatos, incluindo a análise das câmeras operacionais portáteis (COPs)”. Também afirmou que a Delegacia Seccional de Limeira investiga o caso.
Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.
Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.
Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.
© 2026 Ponte Jornalismo
Design por dárkon vr
Desenvolvivdo por Estúdio Haste
Mantido e Hospedado por Opará Tecnologia
Usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação.
Você pode ver mais sobre os dados armazenados e configurados clicando em configurações .
Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.
Apenas os cookies necessários ao funcionamento do site serão ativados.
Fonte: Ponte