Por que as democracias morrem, por Luís Nassif
Por Luis Nassif — GGN
A democracia exige ritos, tanto no processo político quanto no jurídico. São esses ritos que garantem os freios e contrapesos, definem limites e direitos e impedem abusos.
A democracia brasileira começou a morrer no impeachment de Dilma Rousseff. O clamor das ruas, alimentado pela Lava Jato, uma imprensa submissa e um Supremo Tribunal Federal que se deixou intimidar, fizeram com que os procedimentos fossem atropelados. Aceitou-se uma inovação jurídica — as tais “pedaladas” — como fundamento para um processo de impeachment espúrio. Nem o ministro do STF que comandou a ópera bufa acreditava nos argumentos.
Foi um período desmoralizante, no qual uma ministra, Rosa Weber, votou por uma regra que tirava Lula das eleições de 2018 em nome da “colegialidade” — isto é, para acompanhar a maioria. Com o detalhe de que seu voto era o de desempate.
De lá para cá, o trem descarrilhou. Abriu-se espaço para um presidente envolvido com milícias, trazendo para o primeiro plano da política nacional o pior rebotalho político da história. Tentou-se até um golpe de Estado. No último momento, houve uma reação das forças democráticas, o STF acordou e, graças aos poderes conferidos ao ministro Alexandre de Moraes, conseguiu desmontar a primeira tentativa de golpe.
Mas o trem já estava descarrilado. Em nome da defesa da democracia, os procedimentos continuaram sendo atropelados, com o sentido de urgência justificando a pressa em resolver questões para conter a ameaça golpista.
De atropelo a atropelo, a democracia foi recolocada nos eixos. Mas os ritos continuaram sendo desrespeitados, e o poder absoluto cumpriu a regra histórica de corromper quem o exerce. Tudo isso ocorreu em uma quadra de profundas transformações nos tribunais superiores, marcada por práticas inimagináveis em outros tempos: parentes de magistrados atuando nas cortes, viagens internacionais patrocinadas e seminários organizados em torno do poder individual de ministros, depois de atropelada a colegialidade.
Não foi preciso muito para o pequeno André Mendonça conseguir implodir o Supremo. Bastou uma granada de mão para que todo o edifício viesse abaixo. Logo ele, ligado até as tampas ao esquema Bolsonaro e, possivelmente, a Daniel Vorcaro.
Atrás da bomba vieram os justiceiros oportunistas de sempre: juristas e editorialistas de baixíssimo nível, buscando esfolar o Supremo e abrir caminho para Flávio.
Como dois e dois são quatro, na hipótese terrível de uma eleição de Flávio, acaba a democracia brasileira — ou qualquer veleidade de o país sobreviver como nação. Não se trata de passar pano, mas a prioridade máxima é preservar o Supremo.
Nem sei o que acontecerá na sessão de logo mais. Mas, se forem expostas as vísceras do Supremo, para gáudio dos urubus jurídicos e da mídia, pouco restará da democracia brasileira.
A cumplicidade de jornais e jornalistas com o bolsonarismo já conseguiu embolar o meio de campo: trinta dias de manchetes em torno de uma notícia falsa — o envolvimento de Fábio Luís com a esbórnia — lançaram confusão sobre a opinião pública, proporcionaram o crescimento de Flávio e afastaram de Lula o centro e a direita racional.
Há poucos dias para reverter a situação. Mas existe um empenho gigantesco dos brasileiros democratas e patriotas para impedir o desastre final.
Se isso não ocorrer, setembro de 2026 será registrado nos livros de história como o mês em que a imprensa conseguiu destruir a democracia brasileira.
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Fonte: GGN