Poluição por ozônio afeta quase 40% da população mundial em 2026
Por Rodrigo Andrade — ICL Notícias
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Por José Henrique Mariante
(Folhapress) – Quase 40% da população mundial está sendo submetida neste ano a uma mistura perigosa de calor extremo e poluição que resulta em ozônio. Não aquele conhecido por proteger a Terra dos raios UV, na estratosfera, mas o que está na troposfera, a atmosfera baixa onde vivemos.
Nesse nível, o ozônio é um poluente secundário, menos discutido que os gases do efeito estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento global, assim como os materiais particulados, a poluição visível dos grandes centros urbanos. Um problema que não respeita fronteiras, como evidencia um estudo sobre o clima global publicado nesta quarta-feira (30).
Segundo o serviço Copernicus da União Europeia, que monitora a mudança climática, a situação de 2026 (até 15 de setembro) é especialmente ruim na Ásia, onde 53% da população está submetida a níveis críticos de concentração de ozônio, superiores a 110 µg /m³. O melhor cenário, em contraste, é verificado na Oceania.
“Observam-se altas concentrações de ozônio em quase todos os lugares e em áreas muito extensas de Oriente Médio, Paquistão, Índia, Bangladesh, Sudeste Asiático e China”, diz Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitoramento Atmosférico do Copernicus.
A grande exposição se explica pelas emissões de poluentes em áreas de densidade populacional elevada, por fatores meteorológicos e também por condições geográficas. “A única área com níveis razoáveis é o planalto tibetano, protegido pelas montanhas.”
A situação é relativamente boa também na América do Sul, apesar de o estudo ponderar que a cidade do Rio de Janeiro é uma das mais afetadas do planeta pelo nível crítico de ozônio neste ano. O dado positivo para o Brasil é a queda nas emissões produzidas por queimadas.
O ozônio troposférico é um poluente secundário resultante de inúmeras reações fotoquímicas. “Reações entre precursores, como o dióxido de nitrogênio proveniente do tráfego e outros processos de combustão, compostos orgânicos voláteis emitidos pela indústria, solventes, produtos domésticos, vegetação. Uma química não linear extremamente complexa”, descreve Rouil.
Tais reações são desencadeadas pela luz solar e pela alta temperatura, parte em que a mudança climática, provocada sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás natural, contribui para o problema.
Na Europa, por exemplo, os países do Mediterrâneo são os mais expostos a altas concentrações de ozônio devido à maior incidência de luz solar e às altas temperaturas. As sucessivas ondas de calor neste último verão europeu, no entanto, tornaram esses níveis mais homogêneos em grande parte do continente, inclusive na Escandinávia.
Os efeitos nocivos à saúde humana e aos ecossistemas se empilham. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o máximo de ozônio troposférico tolerável é 60 µg/m³.
“A exposição simultânea a ondas de calor e à poluição do ar aumenta desproporcionalmente os riscos à população. Especialmente em grupos vulneráveis, como pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares e idosos”, afirma Ian Marnane, da Agência Ambiental Europeia.
“Reduzir as emissões de precursores é imprescindível. Mas as respostas em termos de concentração nem sempre são proporcionais”, observa Rouil, reiterando como a gestão do ozônio é um dos principais desafios para gestores da qualidade do ar.
Outro fator complicador para o controle é o caráter transfronteiriço da poluição. Além do ozônio, a análise do Copernicus se debruça sobre a fumaça produzida por incêndios florestais e o transporte por longa distância de poeira de desertos.
Em julho, uma das cenas mais eloquentes sobre o fenômeno foi a fumaça dos incêndios florestais no Canadá alcançando Nova York, pouco antes da final da Copa do Mundo. O estudo mostra que, em algumas partes da América do Norte, a concentração de partículas finas (PM2.5) ultrapassou centenas de microgramas/m³, quando a diretriz da OMS prega um máximo de 15 µg/m³.
Em outro exemplo destacado pela análise, a poeira do deserto do Saara atravessou o Atlântico para alcançar o Caribe, assim como já faz frequentemente com a Europa.
“Precisamos entender que a qualidade do ar em nossas cidades e países não é influenciada apenas por atividades locais. Pode ser afetada pela poluição proveniente de países vizinhos ou até de regiões muito distantes”, explica Marnane.
“Na Europa, temos cerca de 180 mil mortes prematuras por ano relacionadas à exposição à poluição do ar, um terço devido à elevada concentração de ozônio troposférico. Portanto, ter conhecimento sobre sua origem é de grande ajuda.”
Essa é uma das razões para o acompanhamento global do clima, dos poluentes atmosféricos, aerossóis e também dos gases de efeito estufa realizado pela União Europeia. São 800 milhões de observações diárias provenientes de 40 satélites, estações de campo, aeronaves e outros recursos.
Os especialistas esperam que a divulgação dos dados ajude na elaboração de normas transnacionais, como o Protocolo de Montreal, que regulou a produção e o uso de CFCs, que destruíam a camada de ozônio da estratosfera.
“Não é um problema de um país específico, não é um problema europeu. É uma questão global”, diz Marnane.
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Fonte: ICL Notícias




