Política na arquibancada do futebol: por que o Movimento Coralinas não se o omite
Por Maiara Melo — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Jornalista (Unicap), mestra em Educação (UFPE), graduanda em Letras (UFRPE), liderança do Movimento Coralinas e mãe.
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A frase “futebol e política não se misturam” é uma das maiores ilusões construídas pelas elites para despolitizar os espaços populares. Historicamente, o futebol é a expressão viva das disputas sociais, culturais e econômicas do nosso país.
No caso do Santa Cruz Futebol Clube, a política está no próprio DNA da sua fundação. O clube nasceu popular exatamente porque a estrutura social vigente excluía do esporte os trabalhadores, populações negras e as periferias. Afirmar que o clube é “de todos” sem defender quem está cotidianamente sob ataque é uma contradição e uma neutralidade conveniente que só serve aos opressores.
A mercantilização do futebol atingiu um nível alarmante nos últimos anos, impulsionada pelo aprofundamento de políticas neoliberais. A torcedora e o torcedor que historicamente são o motor do esporte, agora são tratados como meros consumidores, afastados dos estádios pelos preços abusivos de ingressos e arenas elitizadas. Soma-se a isso a infestação das empresas de apostas esportivas online (as “bets”) no ecossistema do futebol brasileiro.
A invasão das “bets” sobre o futebol não se limita a um patrocínio comercial: é uma força destrutiva da classe trabalhadora. As “bets” operam como uma engrenagem de transferência de dinheiro das famílias periféricas e de baixa renda para conglomerados econômicos opacos. O vício em apostas corrói o orçamento de milhões de lares, precariza ainda mais a vida da classe trabalhadora e destrói a integridade do esporte com esquemas de manipulação de resultados.
Essa destruição possui um recorte de gênero devastador, já que os impactos recaem diretamente sobre as mulheres. São as mulheres — mães, esposas e chefes de família — que absorvem o impacto do endividamento gerado pelas apostas. À medida que o dinheiro que deveria garantir a comida na mesa, o aluguel e o sustento da casa é engolido pelas plataformas, intensifica-se a carga do trabalho de cuidado não remunerado, a sobrecarga de jornadas triplas e a precarização das condições mínimas de existência do lar.
Já estão postos os dados de que o vício em apostas dentro de casa tensiona o ambiente familiar e atua como estopim para a escalada da violência doméstica, transformando lares em cenários de instabilidade e sofrimento.
O futebol, que antes era espaço de lazer e identidade para o povo trabalhador, torna-se um campo de exploração financeira e adoecimento social. Combater o avanço descontrolado e a precarização gerada pelas bets é, portanto, uma pauta central e inegociável da política de esquerda.
O Movimento Coralinas, como movimento político feminista dentro da torcida do Santa Cruz, entende que a defesa da classe trabalhadora e das mulheres exige lados bem definidos. O posicionamento do movimento em apoio à candidatura de Lula cumpre um dever histórico e político contra o avanço de um projeto de extrema direita. Trata-se de barrar uma vertente fascista que aparelha instituições, retira direitos básicos e incita o ódio contra mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, negros e povos indígenas.
Além disso, esse projeto autoritário fortalece o braço armado do Estado contra as periferias e trata o futebol popular e a festa das arquibancadas como caso de polícia, criminalizando as torcidas, em especial as torcidas organizadas, e silenciando a cultura das arquibancadas. Ficar neutro diante desse cenário é ser cúmplice da violência e da destruição dos direitos fundamentais do povo.
O Movimento Coralinas existe para defender as mulheres, a diversidade e os trabalhadores. Defender um projeto popular, soberano e de esquerda — representado por Lula — é a forma concreta de honrar a história do Santa Cruz e garantir que o Clube do Povo continue, de fato, pertencendo ao povo.
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Fonte: Brasil de Fato