Por Luis Cosme Pinto — Brasil 247

O bate-estaca não chegou, muito menos os pedreiros, mas a placa já está lá: CORRETORES DE PLANTÃO.

Por que “de plantão”? Será que as construtoras vendem 24 horas por dia? Desconheço quem compra apartamento de madrugada.

Parece implicância, e é. O implicante, no caso eu, caminha pela Vila Buarque, mais um bairro vítima da incessante febre de demolições para a construção de espigões.

Deixo os corretores e fico de olho no plantão, que seguindo a tradição, custa a terminar.

É assim em delegacia de polícia, hospital, redação.

Quem vive da notícia trabalha dobrado aos sábados e domingos para folgar os próximos. Nos feriados também.

Todo jornalista já deu plantão e sabe que é um espaço de tempo muito diferente do dia a dia. A redação se transforma. Ao mesmo tempo que não se quer um exagero de acontecimentos para não ter trabalho demais, também sabemos que se a calmaria for absoluta ficamos sem notícia.

Em uma redação que não existe mais, de uma TV que não existe mais, um chefe, que também não existe mais, advertia com voz grave: “Falta no plantão só com o atestado de óbito”.

A equipe ria pra não chorar.

O chefe rígido era amigo de um chefe abusado. Um jornalista que vivia no Rio e era muito dedicado ao trabalho em fins de semana e feriados. Rogério – vamos chamar assim – dava longos plantões, não por dedicação ao jornalismo, mas por interesse nas jornalistas.

Se achava, o Rogério.

Com a redação mais vazia, vinha com passos macios, exalando perfume barato e conversa mole. Em um período que o machismo era muito mais tolerado e até admirado, o garanhão se aproximava das repórteres, produtoras e apresentadoras sem nenhum pudor.  Hoje, talvez fosse demitido por justa causa, naquele tempo era diferente. Muito diferente.

O que encantava Rogério não era o namoro, mas a possibilidade de se exibir contando a alguns colegas de redação suas aventuras. Rogério soltava a língua e quando não tinha o que contar, inventava.

Vez em quando, Rogério mudava de assunto e recordava da própria esposa. Dirce – vamos chamar assim – era mãe de seus dois filhos.

O futebol com churrasco, perto da redação, estava apenas no início e Rogério se despediu apressado.

– Por que tão cedo?

– Tenho que comprar o bolo de fubá da Dirce.

– Aniversário?

– Não, compro toda semana.

– Mas tem uma padaria aqui do lado.

– Não, o bolo de fubá preferido dela é assado em uma padaria lá no Méier.

– Pô, leva o daqui e diz que é de lá. Ela nem vai desconfiar.

– Aí você me ofende. Eu não minto pra Dirce! Você acha que engano minha mulher?

– Não sei…

– Como não sabe? Veja como fala. Pra minha mulher eu só digo a verdade. É no Méier que tem o bolo que ela gosta e é pra lá que eu vou. Se a padaria mudar para Barra da Tijuca eu também vou.

Rogério ia na hora certa e escolhia com apuro o mais moreno, o mais cheiroso, o mais fofo dos bolos de fubá do Rio de Janeiro.

Um bolo de verdade, que ele não era homem de lorota.

Do lado de fora de uma igreja modesta, no bairro do Andaraí, na missa de sétimo dia de Rogério, alguém sussurra a fofoca: Dirce era mulher culta, que adorava aulas particulares, bem particulares. Dava preferência a mestres jovens e belos.

Estudou com afinco decoração, espanhol, jardinagem, artesanato.

Quando Rogério estava por perto pedia languidamente: “Rô, vai lá naquela padaria e traz o meu bolo. Quero bem quentinho”.

A viagem era demorada. Tempo de sobra pra revisar as lições nas minúcias, sempre com a ajuda do professor.

Nos fins de semana – quase todos – em que Rogério ia para a redação, os “plantões” de Dirce eram ainda mais longos. Terminavam pouco antes da chegada do quitute. Quentinho, como sempre.

Fonte: Brasil 247

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