PL pagou R$ 4,1 milhões a empresa de primo de Raquel Lyra por posts sem comprovação
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O Partido Liberal (PL), sigla de Jair Bolsonaro, pagou R$ 4,1 milhões à Fogo Comunicação, empresa do publicitário Waldemiro Ferreira Teixeira, conhecido como Dódi e primo da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), por serviços que incluíam a produção de milhares de publicações para as redes sociais da legenda no Nordeste. Os registros disponíveis dos perfis partidários, no entanto, não permitem identificar a realização da quantidade de postagens prevista no contrato.
O acordo foi firmado em 2022 e previa a criação mensal de 2,7 mil artes para redes sociais nos nove estados nordestinos, além de outros serviços de comunicação e publicidade institucional. Documentos da prestação de contas do PL à Justiça Eleitoral mostram que os pagamentos saíram inicialmente do fundo partidário, abastecido com recursos públicos.
A Fogo Comunicação tem Waldemiro Teixeira como sócio-administrador, informação confirmada por registros empresariais. Dódi é primo de Raquel Lyra e já apareceu em outras controvérsias envolvendo contratos de publicidade em Pernambuco.
O contrato entre o PL e a agência foi assinado por Waldemiro e pelo então tesoureiro do partido, Jucivaldo Salazar Pereira. Pelo documento, a empresa receberia R$ 3,1 milhões por mês, totalizando cerca de R$ 6,4 milhões durante os dois meses de vigência, entre junho e julho de 2022.
Além de planejamento, organização e gestão da comunicação institucional do partido nos nove estados do Nordeste, a agência deveria produzir 2.160 posts estáticos e 540 animados por mês.
A distribuição prevista era de 300 artes mensais para cada estado, sendo 240 peças estáticas e 60 animadas. Ao longo dos dois meses, portanto, seriam 600 publicações por unidade da Federação.
Perfis sequer existiam durante o contrato
A dimensão da produção prevista contrasta com o histórico público de diferentes páginas estaduais do PL. Em Pernambuco, por exemplo, o perfil do diretório estadual no Instagram só foi criado em setembro de 2023, mais de um ano depois do encerramento do contrato. Contas vinculadas ao PL Jovem e ao PL Mulher no estado também surgiram posteriormente.
Situação semelhante ocorreu em outros estados. Os perfis do Rio Grande do Norte e de Sergipe foram criados em novembro de 2023, enquanto os da Paraíba e do Piauí apareceram apenas em abril de 2024.
No Ceará, embora a conta já existisse anteriormente, o primeiro conteúdo disponível é de janeiro de 2024. No Maranhão, não houve publicação em junho de 2022 e foram identificadas apenas duas em julho. Na Bahia, foram sete postagens em julho daquele ano.
Os dados não demonstram, por si só, que nenhum dos demais serviços previstos no contrato tenha sido executado. Eles, porém, levantam dúvidas sobre uma das principais entregas especificadas no documento: a produção de milhares de peças para as redes estaduais da legenda.
Alagoas concentrou publicações
Entre os perfis analisados, o de Alagoas foi o que apresentou atividade mais próxima do período contratado. As 303 publicações disponíveis na conta foram feitas entre 7 de junho e 30 de julho de 2022, intervalo praticamente coincidente com a vigência do acordo com a Fogo Comunicação.
Ainda assim, o total equivale a pouco mais da metade das 600 peças previstas para Alagoas durante os dois meses.
As publicações abordavam principalmente ações do governo Jair Bolsonaro e datas comemorativas. O volume de interações registrado nas postagens era reduzido.
PL pagou R$ 4,1 milhões
Embora o contrato previsse desembolsos de aproximadamente R$ 6,4 milhões, os documentos apresentados pelo PL à Justiça Eleitoral indicam pagamentos efetivos de R$ 4,1 milhões.
A primeira transferência, de cerca de R$ 2,9 milhões, foi realizada em 10 de junho de 2022. Uma segunda parcela de R$ 1 milhão foi paga em 14 de julho. Outros R$ 192 mil foram registrados em 21 de julho para recolhimento de tributos federais.
Os valores tiveram origem no fundo partidário, constituído majoritariamente por recursos públicos e submetido à fiscalização da Justiça Eleitoral.
Em 6 de setembro daquele mesmo ano, contudo, o próprio PL transferiu aproximadamente R$ 4,1 milhões de uma conta abastecida por recursos próprios para recompor o fundo partidário.
O ressarcimento, isoladamente, não prova que os serviços tenham deixado de ser executados nem caracteriza irregularidade. O movimento, porém, ganha relevância diante da divergência entre o volume de conteúdo contratado e o histórico público encontrado nas páginas estaduais do partido.
Primo de Raquel Lyra
Waldemiro Teixeira voltou ao noticiário nos últimos anos em razão de suas relações empresariais no setor de publicidade em Pernambuco.
Em 2025, uma CPI foi aberta na Assembleia Legislativa de Pernambuco para investigar uma licitação de publicidade do governo estadual. Uma das agências vencedoras, a E3 Comunicação, instalou sua estrutura no Recife em salas pertencentes ao empresário, segundo reportagens publicadas à época. Waldemiro contestou publicamente acusações feitas sobre sua participação no episódio.
Em outubro de 2026, reportagem do Metrópoles revelou ainda que a E3 realizou 48 pagamentos, totalizando R$ 1,7 milhão, à produtora Ponto Sonoro, também pertencente a Waldemiro, entre 2022 e junho de 2025.
Raquel e o PL em 2022
Na eleição de 2022, Raquel Lyra e dirigentes do PL em Pernambuco chegaram a dividir movimentos de oposição ao então governo estadual antes de seguirem caminhos distintos na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas.
Durante a pré-campanha, Raquel, então prefeita de Caruaru, participou com o então prefeito de Jaboatão dos Guararapes e dirigente estadual do PL, Anderson Ferreira, do movimento Levanta Pernambuco.
A aliança política se desfez quando Ferreira também entrou na disputa pelo governo estadual. Raquel terminou eleita governadora naquele ano.
Fonte: Brasil 247