Piloto de avião questiona alteração de rota e ouve provocação em rádio: ‘você não manda nem em casa’
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Durante a navegação de um voo que partiu do Rio de Janeiro com destino a Varginha, no interior de Minas Gerais, um piloto questionou uma alteração de rota determinada pelo controle de tráfego aéreo e acabou sendo surpreendido por uma provocação em tom irônico emitida na frequência de rádio: “Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui?”. O caso ocorreu no dia 4 de setembro e envolveu uma aeronave do modelo Cessna 525 CitationJet M2, de matrícula PS-KCI, que levava três pessoas a bordo — o comandante Pedro Costa, de 35 anos, o copiloto e um passageiro —, informa o G1.
A autoria do comentário irônico ainda não foi identificada. O comandante Pedro Costa explicou que a frase não partiu da controladora com quem conversava, surgindo no canal em meio à discussão sobre o trajeto. O voo havia saído do Aeroporto de Jacarepaguá com destino a Varginha. Inicialmente, o plano original de voo já tinha sido modificado antes da decolagem para contornar uma área militar ativa. No entanto, já no ar, o controle determinou uma nova mudança, instruindo que a aeronave seguisse na direção do ponto de navegação designado pela sigla MUDKA.
De acordo com o aviador, a nova alteração representaria um desvio expressivo e adicionaria milhas consideráveis ao percurso, levando a aeronave para uma direção oposta ao seu destino final. O controle do tráfego aéreo justificou a necessidade do desvio para a direita com o argumento de evitar conflito com outra aeronave. Contudo, Costa afirmou que nem o radar da própria aeronave nem os dados do site de rastreamento de voos indicavam a presença de outro tráfego na região que justificasse a manobra solicitada.
Com 14 anos de experiência na aviação, o piloto informou imediatamente ao órgão de controle que a alteração afetaria diretamente a autonomia de combustível e o planejamento de segurança da viagem. Ele salientou que não se recusou a obedecer às determinações, mas solicitou uma alternativa viável que não afastasse a aeronave do rumo de Varginha.
A comunicação com a controladora manteve o tom profissional. A profissional explicou que a alteração visava organizar o sequenciamento do fluxo aéreo, em razão de outras aeronaves que desciam no sentido oposto com destino ao Aeroporto Internacional do Galeão, na capital fluminense. Após o diálogo respeitoso com a profissional, o pedido do comandante foi aceito e a rota foi encurtada, permitindo que a viagem prosseguisse em segurança até o destino final, conforme indicam os registros de aplicativos de rastreamento.
Foi exatamente durante o trâmite dessa negociação técnica que a voz não identificada interrompeu a frequência de rádio com a provocação pessoal. O piloto destacou que as transmissões na frequência da aviação devem ser estritamente objetivas e focadas nas operações, ressaltando que manifestações estranhas e ironias podem prejudicar a comunicação efetiva e colocar em risco a segurança do espaço aéreo, principalmente em momentos em que outros pilotos precisam reportar emergências ou urgências.
O episódio foi formalmente registrado pelo comandante por meio de um Relatório de Prevenção (RELPREV), encaminhado à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no qual foram incluídos tanto o questionamento sobre a alteração da rota quanto a interferência indevida na frequência de rádio.
O áudio do momento ganhou repercussão após ser gravado e divulgado por Thamiris dos Passos, de 24 anos, moradora de Itaguaí (RJ) e entusiasta da aviação que acompanha habitualmente o tráfego do espaço aéreo. Ao perceber que o diálogo fugia do padrão técnico usual, ela repassou o registro a uma página especializada nas redes sociais. Thamiris apoiou publicamente a postura do piloto em questionar a rota para garantir a segurança da aeronave.
Procurado pelo G1 para fornecer esclarecimentos sobre o motivo da mudança de rota e a conduta na frequência de rádio, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), órgão responsável pela gestão do tráfego aéreo no Brasil, não enviou resposta até a publicação da matéria.
Fonte: Brasil 247