Picasso e a coragem de fazer perguntas
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Artigo de Opinião
Publicado em 10 de Outubro de 2026 às 10:00
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Em 1964, ao falar sobre os novos “cérebros mecânicos”, Picasso observou: “Eles são inúteis. Só sabem dar respostas”. Na era da inteligência artificial, a provocação parece mais atual do que nunca. Afinal, respostas não bastam: também é preciso saber fazer perguntas. E é justamente isso que a obra de Picasso continua a provocar, transformando nossa maneira de perceber a realidade.
Picasso permanece importante não por ter criado um estilo a ser imitado, mas por demonstrar que nenhuma linguagem visual é definitiva. Transitava livremente entre pintura, gravura, escultura e cerâmica, transformando corpos, objetos, memórias e conflitos em matéria para a invenção. Para ele, uma imagem nunca era um resultado final: podia sempre ser revista e transformada.
É a partir desse princípio que foi concebida a exposição “Picasso: A construção de um gênio — A arte de nunca ser o mesmo”. A mostra não pretende resumir uma carreira tão extensa nem celebrar um artista isolado. Seu foco está também em investigar como a imagem do “gênio” foi construída: no ateliê, nas colaborações com gravadores, escritores e fotógrafos e nas relações com as pessoas que fizeram parte de sua vida.
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Dora Maar e Françoise Gilot, por isso, aparecem como artistas e intelectuais autônomas, e não apenas como musas. Suas vozes tornam o universo de Picasso mais complexo e historicamente fiel.
A gravura ocupa um lugar central na exposição. A “Suite dos Saltimbancos” e a “Tauromaquia” revelam momentos muito diferentes: de um lado, a linha contida com que o jovem Picasso conferiu dignidade à pobreza e à solidão; de outro, a energia das arenas de touros, condensada em gesto e movimento.
A gravura era um laboratório de pensamento. A partir de uma matriz, uma imagem podia gerar vários originais e atravessar fronteiras. A multiplicidade não diminuía sua autenticidade; ampliava sua circulação.
Apresentar essas obras no Brasil também retoma uma longa relação histórica. Picasso teve papel importante na formação do Modernismo brasileiro, reinterpretado de maneiras próprias por artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Candido Portinari.
Em 1953 e 1954, “Guernica” esteve no centro da 2ª Bienal de São Paulo, na única ocasião em que a obra foi exibida na América Latina. Não se tratou de uma recepção passiva da arte europeia, mas do encontro com uma cultura capaz de transformar influências internacionais em uma linguagem própria.
Nesse contexto, o papel do Sesc-ES é decisivo. Ao trazer a exposição para Vitória e torná-la acessível ao público, a instituição insere o Espírito Santo nesse diálogo e amplia a circulação de obras originais para além dos grandes centros que tradicionalmente concentram exposições internacionais. Pesquisa, educação e comunicação se encontram para criar uma experiência genuína com o público.
Picasso continua a nos questionar sobre identidade, desejo, violência, poder e liberdade artística. A exposição não oferece uma conclusão única nem aponta uma obra como sua obra-prima definitiva. Seu propósito não é determinar, de uma vez por todas, quem foi Picasso, mas criar as condições para que cada visitante possa olhar, comparar e questionar — e sair dali com perguntas melhores.
Quando: de 26 de agosto a 16 de outubro de 2026
Onde: Espaço Cultural do Palácio Anchieta, Centro de Vitória
Entrada: gratuita
Agendamento de grupos: (27) 3636-1031 ou (27) 3636-1032
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