PF rastreia R$ 8,5 milhões de ONG ligada a produtora de Dark Horse que irrigou empresas de possíveis laranjas
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Uma organização presidida pela produtora Karina Gama transferiu mais de R$ 8,5 milhões para uma empresa apontada pela Polícia Federal como parte de um circuito de redistribuição de dinheiro que teria recorrido a pessoas interpostas para ocultar a movimentação e a titularidade de valores provenientes de supostos desvios de recursos públicos federais.
Com base na investigação da PF e em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF), o Instituto Conhecer Brasil (ICB) fez oito transferências para a Ultra IP Serviços de Comunicação e Tecnologia Ltda., que totalizaram R$ 8.554.301,14.
A Ultra IP aparece na investigação como uma das empresas que, depois de receber quantias expressivas do ICB, transferiram recursos para outros integrantes da rede financeira investigada. A companhia anteriormente se chamava William Silva Ferreira Representações.
R$ 31,6 milhões movimentados em menos de três meses
Os investigadores identificaram uma intensa movimentação financeira na conta da Ultra IP. De acordo com o RIF analisado pela PF, a conta foi aberta em 25 de julho de 2024.
Entre 30 de julho e 9 de outubro daquele ano, portanto em menos de três meses, foram movimentados R$ 31,6 milhões. O fluxo foi dividido entre R$ 15,8 milhões em créditos e outros R$ 15,8 milhões em débitos.
O Instituto Conhecer Brasil aparece como o principal remetente de dinheiro para a Ultra IP no período analisado. Foram oito transferências que, juntas, alcançaram R$ 8,55 milhões.
A investigação indica que parte dos recursos recebidos pela Ultra IP foi posteriormente direcionada a outras empresas e organizações relacionadas ao circuito financeiro analisado pela PF.
Empresa de cuidadora recebeu mais de R$ 1 milhão
Entre os principais destinatários dos pagamentos estava a ABC Logísticas e Serviços Ltda., que recebeu R$ 1.075.586 da Ultra IP.
A empresa tinha capital social declarado de R$ 500 mil e apenas uma sócia-proprietária, Nayara Bianca Silva de Souza.
De acordo com a Polícia Federal, Nayara trabalhava como cuidadora de idosos, recebia salário médio de R$ 1.815 e tinha registro como beneficiária do Novo Bolsa Família.
A diferença entre o perfil socioeconômico da proprietária formal e os valores movimentados pela empresa é um dos elementos considerados pelos investigadores na apuração sobre a eventual utilização de pessoas interpostas na estrutura financeira.
Firma de ex-servente de obras recebeu R$ 627 mil
A Ultra IP também transferiu R$ 627.482,25 para a Fastsoftsolution Mídia Desenvolvimento e Publicidade Ltda., que declarava capital social de R$ 300 mil.
O único sócio da empresa era Anderson Souza Mendes. Segundo os dados reunidos pela PF, sua última ocupação formal registrada era a de servente de obras, com remuneração média entre um e dois salários mínimos.
Além desses pagamentos, a Ultra IP transferiu R$ 1.336.201,50 para a Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade presidida por Karina Gama.
PF aponta papel de “redistribuidora dos recursos”
Para a Polícia Federal, empresas como a Ultra IP exerciam uma função específica dentro da engrenagem financeira investigada: recebiam recursos do Instituto Conhecer Brasil e, posteriormente, transferiam parte desses valores para outros integrantes da rede.
Os investigadores classificaram essas companhias como “redistribuidoras dos recursos”.
A apuração busca esclarecer movimentações realizadas entre 2024 e 2026. A PF aponta a hipótese de que pessoas físicas e jurídicas interpostas tenham sido empregadas para ocultar e dissimular a origem, a localização, a movimentação e a titularidade de valores provenientes de supostos desvios de recursos públicos federais.
Segundo a Polícia Federal, as circunstâncias identificadas indicam, em tese, a utilização de pessoas jurídicas como instrumentos para a circulação e a ocultação de valores.
Fonte: Brasil 247