PF encontrou transferência de R$ 10 mil em articulação por proteção do PCC para Vorcaro

0

Por Bia AbramoICL Notícias

ouça este conteúdo
00:00 / 00:00

1x

Por Cleber Lourenço

 

A Polícia Federal identificou uma transferência de R$ 10 mil em meio a uma articulação para fazer chegar a Daniel Vorcaro, enquanto estava preso, um recado sobre uma rede de proteção relacionada pelos investigadores ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O dinheiro foi enviado por Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo, integrante da “A Turma”, ao advogado André Luís Chagas Bergeralck, depois de os dois discutirem uma forma de avisar o banqueiro de que havia uma “força por trás” capaz de ajudá-lo.

A informação consta de documentos da investigação do caso Master que estavam sob sigilo e no gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material veio a público após a retirada do sigilo dos autos e reúne conversas, ligações e movimentações financeiras analisadas pela PF.

“A Turma” era uma espécie de milícia privada que atuava para Vorcaro. Segundo a investigação, o grupo reunia personagens ligados às forças de segurança, à milícia e ao jogo do bicho e era usado para obter informações, monitorar investigações e intimidar pessoas consideradas adversárias do banqueiro.

A transferência ocorreu em 28 de novembro de 2025. No dia anterior, Manolo havia encaminhado a Bergeralck áudios e uma mensagem sobre o apoio articulado para Vorcaro e escrito: “Nós temos q dar um jeito de chegar um recado”.

O advogado perguntou onde Vorcaro estava e afirmou: “Eu posso entrar”. Manolo respondeu que ainda não e explicou: “Primeiro ele tem que entender que tem uma força por trás que pode ajudar ele”. Depois acrescentou: “Mas isso tem que ser rápido”.

Na tarde seguinte, Manolo retornou uma ligação de Bergeralck. Os dois conversaram por aproximadamente cinco minutos. Na sequência, Manolo transferiu R$ 10 mil ao advogado.

O relatório registra o pagamento na mesma sequência das conversas sobre como levar o recado a Vorcaro, mas não atribui uma finalidade específica aos R$ 10 mil. Também não há, nos documentos analisados, indicação de que o dinheiro tenha sido repassado ao PCC ou de que o próprio banqueiro tenha determinado a transferência.

A movimentação financeira, no entanto, aparece dentro de uma articulação que a PF descreve como uma “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua passagem pelo sistema penitenciário paulista.

“Ele é amigo nosso”

A articulação ocorreu depois que Vorcaro foi transferido para o CDP de Guarulhos. Na noite de 24 de novembro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, informou Manolo sobre a transferência do banqueiro. Nos dias seguintes, os dois passaram a discutir formas de auxiliá-lo.

Em 26 de novembro, depois de uma conversa de mais de 24 minutos entre Manolo e Mourão, este último encaminhou um áudio de um homem não identificado. Segundo a PF, o conteúdo tratava de ações destinadas a proteger Vorcaro no sistema carcerário e de informações que seriam levadas ao banqueiro por meio de um advogado.

O homem dizia estar pedindo ao “advogado do clube” para orientar Vorcaro e explicava o que deveria acontecer quando o banqueiro deixasse o Regime de Observação e passasse ao convívio com os demais presos.

“Vou passar meu nome lá”, afirmou. Em outro trecho, disse que Vorcaro deveria se apresentar “pra quadrilha lá”.

No dia seguinte, Manolo mencionou o “01 do time” e escreveu “3 letras”. Em áudio, afirmou que poderia ir a São Paulo conversar com o “01 de São Paulo”, a quem chamou de amigo, para pedir assistência a Vorcaro dentro da unidade. “Aí o partido, aí o resultado vem de cima”, disse.

A referência fica mais explícita em outra mensagem que circulou na sequência e foi destacada pela própria PF.

Destinado à chamada “Sintonia Tiradentes”, o texto pedia apoio ao “companheiro Daniel Bueno Vorcaro” e dizia que o banqueiro era “amigo nosso” e “apoia a nossa quadrilha e a nossa regional em diversos sentidos”. O pedido era para que Vorcaro fosse orientado e recebesse apoio no cotidiano da unidade.

Mourão preparou então um recado destinado ao banqueiro. Disse ter feito “um pedido para os amigos que temos” e afirmou que as pessoas responsáveis pela unidade já estavam cientes e iriam apoiá-lo “em tudo” que precisasse.

Foi esse material que chegou a Manolo e depois foi encaminhado a Bergeralck, dando início à conversa sobre como avisar Vorcaro da existência de uma “força por trás”. No dia seguinte ocorreu a transferência dos R$ 10 mil.

Vorcaro já havia mandado “alinhar com o PCC”

A menção ao PCC nas conversas envolvendo Vorcaro e seus operadores antecede a prisão do banqueiro.

Em 2024, durante uma operação para recuperar a conta da atriz Monique Alfradique no Instagram, que havia sido invadida, Mourão informou a Vorcaro que estava com “os meninos na linha” e havia avisado aos responsáveis pelo ataque que “a turma vai atrás deles”.

“E irei atrás de um por um”, escreveu Mourão.

Depois da recuperação da conta e diante de informações sobre transferências via Pix realizadas pelos golpistas, foi o próprio Vorcaro quem mencionou diretamente a facção em uma orientação a Mourão: “alinha com o pcc rsrs”.

Ao analisar a conversa, a PF afirmou que Mourão aparentava manter algum tipo de contato, direto ou indireto, com pessoas ligadas a organizações criminosas, o que permitiria esse tipo de interlocução.

O episódio mostra que, mais de um ano antes da prisão, Vorcaro já tratava com Mourão sobre uma possível interlocução com o PCC. Em novembro de 2025, o mesmo operador aparece novamente nas conversas analisadas pela PF, desta vez na busca por apoio ao próprio banqueiro dentro da prisão.

Mourão recebia R$ 1 milhão por mês

A relação entre Mourão e Vorcaro também era financeira. Segundo a PF, “Sicário” constava de uma lista de despesas para receber R$ 1 milhão por mês ao longo de 2024 e 2025, sem contar valores classificados como bônus. A investigação encontrou comprovantes de transferências para a King, empresa ligada a Mourão.

A relação continuava ativa às vésperas da prisão. Em 10 de novembro de 2025, Vorcaro autorizou mais R$ 1 milhão para a King Participações Imobiliárias. Sete dias depois, foi preso pela PF.

Os documentos não vinculam esses pagamentos milionários à posterior busca por apoio dentro do CDP. Eles mostram, porém, que Mourão mantinha uma relação financeira regular com a estrutura de Vorcaro, já havia recebido do banqueiro a orientação para “alinhar com o PCC” e, depois da prisão, participou das tratativas que a PF relacionou à facção.

Manolo também já mantinha relações comerciais com o entorno da família Vorcaro. A PF encontrou conversas sobre negócios imobiliários envolvendo ele, Bergeralck e Henrique Vorcaro antes da prisão de Daniel. As tratativas incluíam três imóveis no Rio de Janeiro, com área total de 113 mil metros quadrados.

Ao concluir a análise desse conjunto de mensagens, a PF afirmou ter identificado registros que indicam a “possível mobilização de integrantes ou pessoas relacionadas” ao PCC para prestar apoio a Vorcaro durante sua custódia. Para os investigadores, as conversas mostram tanto tentativas de transmitir recados ao banqueiro quanto referências a um “aparente suporte” que seria disponibilizado dentro do sistema carcerário.

Mourão foi preso pela Polícia Federal em março de 2026. Ele tentou tirar a própria vida enquanto estava sob custódia da corporação em Belo Horizonte e morreu dois dias depois no Hospital João XXIII. A PF investigou as circunstâncias da morte e concluiu posteriormente que não houve participação de terceiros.


Evento Online


Evento Online


Informações em primeira mão! Siga o canal do ICL Notícias no WhatsApp


Acesso total a mais de 300 cursos, materiais e séries! Seja Membro ICL


Siga e acompanhe as atualizações do ICL Notícias também pelo Google News

daniel vorcaroPCCPolícia Federal

Relacionados


PGR diz que não teve acesso a petição secreta sobre pagamentos de Vorcaro

Caso Master

PGR diz que não teve acesso a petição secreta sobre pagamentos de Vorcaro

Documento não aparecia no sistema para a Procuradoria; após pedido de Moraes, órgão defendeu retirada do sigilo para acesso dos ministros do STF


PF mira deputado aliado de Mendonça em operação sobre tráfico de influência em tribunais superiores

Operação Transparência

PF mira deputado aliado de Mendonça em operação sobre tráfico de influência em tribunais superiores

Polícia Federal investiga suspeitas de negociação de pagamentos em troca de influência sobre processos em tribunais superiores


PF apreende na churrasqueira de Ciro Nogueira manuscrito com nomes de deputados e valores

Operação Compliance Zero

PF apreende na churrasqueira de Ciro Nogueira manuscrito com nomes de deputados e valores

Documento citado em relatório trazia anotações sob o cabeçalho ‘Câmara’; funcionária relatou ordem para queima

Carregar Comentários

Fonte: ICL Notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *