PF encontra mensagens em que “A Turma” de Vorcaro diz ter invadido e-mail de jornalista e site da Piauí: ‘gasta o que for preciso’
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro mostram integrantes da estrutura usada para agir contra críticos do Banco Master. Nos diálogos, integrantes do grupo afirmaram ao ex-banqueiro ter conseguido acessar o e-mail da jornalista Consuelo Dieguez e, posteriormente, sistemas da revista Piauí. As conversas também registram uma ordem de Vorcaro para tentar retirar o site da publicação do ar em outubro de 2024.
Segundo a jornalista Carla Araújo, do SBT News, os diálogos ocorreram entre outubro de 2023 e novembro de 2025 e envolvem principalmente o ex-banqueiro e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, apontado pela Polícia Federal como coordenador do grupo chamado de “A Turma”. A PF atribui ao núcleo ações de intimidação, monitoramento, obtenção de informações sigilosas e remoção de conteúdos da internet.
Mourão morreu em março, depois de atentar contra a própria vida enquanto estava sob custódia da Polícia Federal.
Ordem para tentar derrubar o site
Um dos episódios relatados nas conversas aconteceu em outubro de 2024, após a publicação da reportagem “Alta tensão”, de Consuelo Dieguez, sobre a trajetória de Vorcaro e o crescimento do Banco Master.
As mensagens mostram o ex-banqueiro determinando uma ofensiva contra a publicação.
“Tenta derrubar amanhã essa revista”, escreveu Vorcaro.
Em seguida, acrescentou: “Bloquear site”, “pode contratar gente mundo inteiro” e “gasta o que for preciso”.
Mourão respondeu que já havia mobilizado sua equipe e que começaria os “testes” para “alinhar o ataque”.
Vorcaro também perguntou se alguém da chamada “equipe PF” poderia telefonar para a repórter e para pessoas vinculadas à revista. Na mesma sequência de mensagens, escreveu: “Divulgação de notícia falsa de instituições financeiras é crime”.
Dois dias depois, em 5 de outubro, Mourão afirmou que sua equipe estava conseguindo interferir no funcionamento da página.
“Mestre, estamos retirando do ar e eles estão voltando, conseguimos achar uma falha, o sistema deles é hospedado pela Amazon, o que dificulta”, escreveu.
Vorcaro, entretanto, determinou que a ação fosse interrompida: “Deixa pra lá”.
Questionado por Mourão se não queria mais que o conteúdo fosse retirado, respondeu: “Não”.
Grupo relata acesso ao e-mail de Consuelo Dieguez
Horas depois, Mourão comunicou ao ex-banqueiro que integrantes da equipe teriam conseguido acessar o e-mail corporativo de Consuelo Dieguez.
“Os meninos estão com o e-mail da redatora”, escreveu.
Na sequência, acrescentou: “Estão com tudo dela com o domínio”.
Às 21h27 daquele dia, enviou outra mensagem: “Mestre, entramos dentro do email da Consuelo da revista piaui”.
Quatro minutos depois, Mourão encaminhou a Vorcaro um arquivo denominado “Consuelo Dieguez.pdf”. O conteúdo do documento não aparece nos diálogos aos quais a reportagem teve acesso.
As afirmações feitas por Mourão nas mensagens não significam, por si sós, que o acesso ao e-mail tenha efetivamente ocorrido. A própria revista informou que não encontrou anormalidades relacionadas à suposta invasão.
Piauí confirma ataque e site fora do ar
O diretor de redação da Piauí, André Petry, confirmou que o site da revista sofreu um ataque durante o fim de semana de 5 e 6 de outubro de 2024.
Segundo Petry, a página apresentou uma lentidão fora do padrão e permaneceu fora do ar durante horas nos dois dias.
“Desconheço os telefonemas de ameaça para quem quer que seja”, afirmou.
Petry acrescentou que a revista também não detectou anormalidades relacionadas à alegada invasão da conta de e-mail de Consuelo Dieguez.
A investigação da Polícia Federal sobre “A Turma” aponta Mourão como responsável pela obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e ações destinadas a neutralizar situações consideradas prejudiciais aos interesses do grupo. Segundo a PF, ele teria utilizado inclusive credenciais de terceiros para consultar sistemas protegidos.
Jornalistas voltaram a ser alvo em 2025
A Piauí voltou a aparecer nas conversas entre Vorcaro e Mourão em julho de 2025.
No dia 27, Mourão perguntou se poderia “derrubar o insta e a revista Piauí”, além das contas de dois jornalistas responsáveis por uma reportagem crítica ao Master. No dia seguinte, identificou os repórteres como Arthur Guimarães e Allan de Abreu.
Em 31 de julho, Mourão enviou a Vorcaro o perfil de Allan e afirmou: “um dos repórteres que soltaram a matéria no piauí, instagram banido”.
Depois, acrescentou: “o outro vai cair tbm”.
Nesse episódio, porém, Vorcaro repreendeu a iniciativa.
“Isso eu não pedi Felipe”, escreveu.
Em seguida, afirmou: “Temos que alinhar os movimentos” e “um negócio desses acaba conosco”.
Mourão respondeu que a ação contra a publicação seria suspensa: “Não vamos mexer.”
Segundo André Petry, o perfil de Allan de Abreu no Instagram foi suspenso em 29 de julho de 2025. A conta de Arthur Guimarães, colaborador freelancer da revista, não chegou a ser suspensa, mas o jornalista recebeu dezenas de xingamentos no dia 28.
Petry afirmou que as mensagens partiram de “perfis que pareciam robôs, com poucos seguidores e fotos que pareciam ser de IA”.
Reportagem tratava de empréstimo de R$ 356 milhões
Dias antes, Allan e Arthur haviam publicado uma reportagem sobre uma operação envolvendo o Banco Master.
Segundo a reportagem, o banco aceitou como garantia de um empréstimo de R$ 356 milhões um terreno localizado em Santa Cruz Cabrália, na Bahia. O imóvel havia sido comprado por R$ 900 mil e, 36 dias depois, avaliado em aproximadamente R$ 100 milhões.
A Justiça identificou “possível fraude contra o sistema financeiro”, bloqueou o terreno e determinou o bloqueio de R$ 23 milhões da empresa envolvida.
“Os meninos invadiram a revista Piauí”
Em 23 de outubro de 2025, Mourão voltou a comunicar a Vorcaro uma suposta invasão dos sistemas da publicação.
“Os meninos invadiram a revista Piauí…”, escreveu.
Logo depois, perguntou: “Manda deletar os links e todas as matérias?”
Na sequência, acrescentou: “Você quem me diz, com sua aprovação eles vão deletar tudo”.
No trecho das conversas divulgado pela reportagem não há resposta de Vorcaro autorizando a exclusão dos conteúdos.
Na manhã seguinte, Mourão disse ter solicitado imagens das telas para apresentá-las ao ex-banqueiro. Vorcaro então respondeu: “Gente querendo vender serviço / de lá”.
Mourão concordou: “foi bom pq descobrimos que temos acesso nestes lugares”.
A Piauí afirmou que não identificou acesso não autorizado ou atividade suspeita em seus sistemas naquela data.
PF investiga atuação de “A Turma”
As mensagens fazem parte de uma investigação mais ampla sobre a atuação do grupo denominado “A Turma”. A Polícia Federal sustenta que a estrutura reunia pessoas responsáveis pela obtenção clandestina de informações, monitoramento e intimidação de críticos ligados aos interesses de Vorcaro e do Banco Master.
Relatório da PF divulgado em setembro também apontou pagamentos mensais de R$ 1 milhão a Mourão para coordenar ações de intimidação. Segundo os investigadores, o grupo atuaria em quatro frentes: pressão e coerção, obtenção de informações sigilosas, interferência em conteúdos e perfis nas redes sociais e ações destinadas a obstruir investigações.
Em outros diálogos já divulgados pela mídia, Vorcaro teria recorrido a Mourão para discutir ações contra jornalistas críticos. Entre os profissionais mencionados estava Lauro Jardim, de O Globo.
As apurações da PF sobre “A Turma” continuam. Vorcaro e seu pai, Henrique Moura Vorcaro, têm depoimentos previstos para esta quarta-feira (30), quando deverão prestar esclarecimentos sobre a estrutura investigada.
O SBT News procurou a defesa de Daniel Vorcaro, mas não obteve resposta.
Fonte: Brasil 247