Pesquisa de Petrópolis expõe relação entre racismo ambiental, áreas de risco e omissão estatal

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Por Daniel LeviCombate Racismo Ambiental

Uma pessoa observa os prédios destruídos pela chuva em Petrópolis, Rio de Janeiro, em 20 de fevereiro de 2022.
— João Gabriel Alves/Controluce via AFP

Pesquisa de Petrópolis expõe relação entre racismo ambiental, áreas de risco e omissão estatal

Estudo de Pamela Mércia, mestranda da UFRJ e fundadora do Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho, propõe o conceito de “Climacídio” e foi apresentado em fórum internacional sobre gestão de riscos e adaptação climática no Peru

Alma Preta

Uma pesquisa desenvolvida a partir da realidade de Petrópolis coloca no centro do debate uma pergunta incômoda: por que populações continuam expostas a tragédias quando os riscos já são conhecidos, estudados e mapeados pelo próprio poder público?

O estudo “Racismo Ambiental, Climacídio e Vulnerabilidade Socioambiental em Petrópolis (RJ): a persistência da omissão estatal diante das tragédias climáticas”, de Pamela Mércia, mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fundadora do Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS), analisa as chuvas extremas que atingiram o município em 2022 a partir da relação entre desigualdade racial, território, gestão de riscos e justiça climática.

A pesquisa parte de um dado central: cinco anos antes da tragédia de 2022, o Plano Municipal de Redução de Riscos já havia identificado aproximadamente 96 setores de risco no primeiro distrito de Petrópolis e previsto medidas como contenção de encostas, drenagem, monitoramento geotécnico, controle da ocupação do solo e reassentamento de famílias em áreas classificadas como de risco alto e muito alto. 

Entre os territórios considerados prioritários estavam localidades como Alto da Serra, Alto Independência, Vila Felipe e Estrada da Saudade. Anos depois, várias dessas mesmas áreas apareceram entre as mais atingidas pelas chuvas extremas.

Em 15 de fevereiro de 2022, Petrópolis registrou um dos episódios mais graves de sua história. Cerca de um mês depois, em 20 de março, novas chuvas voltaram a atingir o município. Os dois eventos provocaram inundações e deslizamentos generalizados e deixaram 241 vítimas fatais, segundo os dados reunidos no estudo. 

Mas a tragédia de 2022 não foi um episódio isolado. A pesquisa recupera uma longa sequência de desastres no município, com mortes registradas em 1966, 1977, 1979, 1988, 2011 e 2013. É justamente essa recorrência que leva Mércia a deslocar o foco da intensidade das chuvas para as condições que fazem com que determinados grupos continuem mais expostos aos riscos.

Quem está mais exposto

O estudo relaciona a distribuição dos riscos à estrutura socioespacial de Petrópolis. Segundo os dados do Censo Demográfico de 2022 utilizados na pesquisa, o município tinha 278.881 habitantes, dos quais aproximadamente 41% se declaravam pretos ou pardos. Mais de 72 mil pessoas viviam em áreas de risco.

Nas 42 favelas e comunidades urbanas identificadas no município, 62% da população era negra. Alto da Serra e Independência, territórios que aparecem repetidamente nos documentos de gestão de riscos analisados por Mércia, estão entre essas áreas. 

É a partir desse cenário que a pesquisa trabalha o conceito de racismo ambiental – a compreensão de que os impactos ambientais e climáticos não atingem todas as pessoas da mesma forma e que desigualdades raciais, econômicas e territoriais influenciam quem está mais exposto e quem tem mais acesso à prevenção e à proteção.

“Minha pesquisa apresenta como populações negras e periféricas vêm sendo as mais atingidas quando se trata de perdas físicas e materiais e como também sofrem impactos sobre a saúde mental. Ao mesmo tempo, expõe que, cinco anos antes da tragédia de 2022, o poder público já possuía estudos e mapeamentos das áreas de risco alto e muito alto – as mesmas atingidas em grande proporção na pior tragédia da história de Petrópolis”, explica a autora do estudo.

O trabalho incorpora ainda dados da pesquisa cidadã “Memórias das Chuvas em Petrópolis”, desenvolvida em 2025 pelo Instituto Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS). Fundado em Petrópolis em 2020, o instituto é uma organização da sociedade civil dedicada ao enfrentamento do racismo ambiental e à promoção da justiça climática. 

A pesquisa ouviu 88 moradores e ex-moradores do município. Entre os participantes, 78,4% relataram impactos psicológicos relacionados às chuvas. Outros 43,3% apontaram perdas econômicas, 42,3% impactos na mobilidade urbana, 36,1% consequências relacionadas à moradia e 22,7% perdas de familiares, amigos ou animais de estimação. 

Os relatos revelam que, para muitos moradores, a tragédia não terminou quando a chuva passou. Permanecem o medo de novos temporais, as perdas afetivas, as interdições, a espera por indenizações e a dificuldade de reconstruir a vida.

Para Mércia, essa relação com o tema também é pessoal. A pesquisadora cresceu convivendo com os efeitos das chuvas e lembra das goteiras, da fragilidade do telhado de casa e da água levando pertences da família. “2022 foi um cenário de guerra. Muitas vidas foram perdidas e a cidade, mesmo quatro anos depois, não está totalmente recuperada”, conta.

Climacídio: quando o risco é conhecido, mas a proteção não chega

É da combinação entre documentos públicos, desigualdades territoriais e experiência dos atingidos que surge o conceito de “Climacídio”, formulado por Pamela Mércia. Apresentado inicialmente em 2025, o conceito busca nomear mortes evitáveis, adoecimentos e violações de direitos decorrentes da permanência da não ação do poder público diante de riscos climáticos amplamente conhecidos.

A proposta desloca o debate da explicação exclusivamente meteorológica para a responsabilidade sobre aquilo que acontece antes da chuva.

Um evento climático extremo pode ser inevitável. A transformação desse evento em uma tragédia com dezenas ou centenas de mortos, porém, depende também de fatores como infraestrutura, moradia, planejamento territorial, sistemas de alerta, prevenção e decisões públicas adotadas ao longo do tempo.

“Climacídio é o nome que dou às mortes climáticas evitáveis provocadas pela omissão do poder público diante de riscos que já são conhecidos”, explica a pesquisadora.

“O conceito também ajuda a entender que essa omissão não acontece somente no momento da tragédia. Ela pode ocorrer antes, quando não são realizadas obras e políticas preventivas; durante, quando a resposta emergencial é insuficiente; e depois, quando as populações atingidas permanecem sem moradia, assistência e reparação adequadas”, acrescenta.

O Climacídio não substitui conceitos como racismo ambiental ou necropolítica. “Enquanto o racismo ambiental ajuda a explicar por que determinados grupos estão mais expostos aos riscos, o Climacídio busca nomear a morte que ocorre quando o poder público, sabendo desse risco, não age para evitá-la.”

Embora tenha sido formulado a partir do caso de Petrópolis, o estudo propõe que o conceito possa contribuir para analisar outros territórios onde riscos conhecidos continuam convivendo com políticas de prevenção insuficientes.

Pesquisa foi apresentada em fórum internacional

A discussão desenvolvida a partir de Petrópolis ganhou projeção internacional no início de setembro, quando Mércia apresentou sua pesquisa no Fórum Internacional 2026 da Rede GIRD-ACC, realizado em Lima, no Peru.

O encontro reuniu universidades, representantes governamentais, organismos internacionais e especialistas da América Latina e do Caribe para discutir gestão integral de riscos, adaptação climática e formas de transformar conhecimento científico em políticas públicas e investimentos preventivos.

Para Mércia, um dos pontos mais importantes do Fórum foi a defesa de uma aproximação maior entre produção científica e formulação de políticas públicas.

“O que mais me chamou atenção foi a articulação entre universidades de grande nível abordando a temática da gestão de riscos e desastres e, sobretudo, a importância dada à ciência caminhando junto com a política para encontrar soluções para os problemas climáticos que a América Latina e o Caribe estão enfrentando”, relata.

A pesquisadora também destacou a valorização dos saberes tradicionais dos povos indígenas e o compartilhamento de experiências de prevenção relacionadas a terremotos, queimadas e chuvas extremas.

Segundo a intelectual, algumas das experiências apresentadas podem inspirar reflexões sobre a gestão de riscos em cidades como Petrópolis.

Uma das que mais chamou sua atenção foi o planejamento voltado à continuidade da assistência a pacientes de alta complexidade durante desastres.

“Eles têm mapeados pacientes com câncer, transplantados e outras pessoas que dependem de atendimento contínuo. Se uma região recebe um alerta de evento extremo, as equipes já sabem quantos pacientes estão ali, qual é o estado de saúde deles e quais ações serão necessárias”, conta.

O planejamento inclui ainda rotas alternativas e estimativas de tempo para deslocamentos terrestres, aéreos ou marítimos.

“Isso assegura a continuidade do atendimento mesmo se aquele local for afetado. Existe um planejamento sobre como o paciente será retirado ou recebido, por qual rota e quanto tempo esse deslocamento poderá levar”, explica.

Petrópolis entrou nas conversas do Fórum

Durante o encontro, Mércia também teve a oportunidade de conversar com dirigentes das universidades responsáveis pela organização do Fórum e com o ministro do Meio Ambiente do Peru. Nessas conversas, falou sobre a recorrência dos desastres em Petrópolis, a intensificação dos eventos extremos e as motivações pessoais que a levaram a pesquisar as falhas das políticas públicas de prevenção.

“Pude falar da minha cidade natal, de como ela é atravessada por desastres há décadas e da minha preocupação com a intensificação desses extremos e com chuvas que podem ser cada vez mais devastadoras”, relata.

A pesquisadora avalia que seu trabalho foi bem recebido por estudantes e professores presentes no encontro e possibilitou novas trocas profissionais.

Mércia também conversou e trocou contato com Jacquelinne Montoya, especialista em gestão de riscos e desastres que participou da programação do Fórum. De acordo com ela, a conversa incluiu sua preocupação com a vulnerabilidade de Petrópolis diante de alertas relacionados ao El Niño.

‘Ciência também nasce de quem é atingido

Para Mércia, apresentar o estudo fora do Brasil não significa apenas ampliar a circulação acadêmica da pesquisa.

“Estar em outro país falando da cidade com mais mortes causadas por chuvas do país é um chamado para a ação e uma forma de pressionar o poder público local a enxergar que soluções e ciência também nascem de quem é atingido, de quem veio dos territórios vulnerabilizados, assim como eu venho”.

A fala sintetiza uma das principais ideias do estudo. Petrópolis já possui mapas, estudos, documentos técnicos e décadas de experiência acumulada sobre os riscos de deslizamentos e enchentes. Também possui conhecimento produzido por moradores, pesquisadores e organizações da sociedade civil diretamente afetadas por essas tragédias.

A questão colocada pela pesquisa de Mércia é o que será feito com esse conhecimento. Quando os riscos já são conhecidos, o desafio deixa de ser apenas entender por que a tragédia aconteceu – e passa a ser impedir que ela se repita.

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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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